sábado, 9 de julho de 2011

Jornalismo Púbico

Enquanto somos crianças, o mundo não é questionado. Não somos capazes de visualizar as engrenagens da sociedade. A realidade é uma certeza e a nossa vida parece um sistema completo e perfeito. As nossas necessidades são amparadas com uma prontidão subserviente.

O jornalismo português ainda vive nesse mundo. Aqueles que se dignam a ler qualquer um dos cinco jornais diários ou alguém que olhe de soslaio para os telejornais pensa que Portugal está sob ataque. De acordo com o jornalismo português, o mundo está virado contra nós e a culpa de toda esta confusão, como é óbvio, não é nossa.

Foi a troika que impôs o seu memorando neoliberal. São as agências de rating nutrem um ódio pessoal por Camões e descartaram-nos como “lixo”. É a União Europeia que se recusa a construir uma resposta concertada e inequívoca para os mercados. Já se diz por aí que os Estados Unidos estão no meio de uma guerra cambial com o euro.

Para o nosso Primeiro-Ministro, o corte do rating foi um “murro no estômago”. Para o nosso Presidente, o corte do rating foi “injustificado” e um “exagero”. E os jornais prontificam-se a prestar o serviço público à nação e espalham por toda parte o perfume de injustiça que estes soundbytes emanam.

O corte do rating é, na verdade, um belo balde de água fria. É uma sirene da realidade. Na última década, o nosso crescimento económico foi tépido, quase nulo. Mesmo assim, os rendimentos e a despesa pública aumentaram. Tudo graças a um aumento vertiginoso da dívida.

No entanto, nas últimas semanas, apenas se falou dos cortes dos subsídios de Natal. Mas ninguém se preocupa com a situação que originou este e outros cortes. A despesa pública escapa dos holofotes da comunicação social, que deixa escapar o monstro e falha em mostrar o nosso país por aquilo que ele é: uma máquina de desperdício.

Não existe nenhum mistério. Os culpados somos nós. Fomos nós que pedimos emprestados mais de duzentos mil milhões de euros. Já as agências de rating, como dizia o filósofo Eduardo Catroga, são pentelhos.

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