segunda-feira, 18 de julho de 2011

A irracionalidade do futebol


Para o cidadão americano comum o futebol é um jogo entediante. O fluxo de jogo do futebol moderno é lento, os jogadores têm uma predisposição irritante para cair depois do mais delicado dos contactos físicos e acima de tudo, a maioria dos jogos têm poucos golos. Mas a razão da irrelevância do futebol nos Estados Unidos é outra – a ausência de contexto histórico. Essa ausência de passado impossibilita a formação de raízes culturais que despoletem emoções cerradas pelo futebol.

E no resto do mundo, o futebol é apenas isso, um aglomerado de emoção. O desporto em si é apenas a representação simbólica do patriotismo das selecções nacionais, o bairrismo dos clubes e o drama humano dos jogadores - as ascensões meteóricas e os erros trágicos. A massa adepta envolve mais do que uma simples afinidade e, por vezes, acarreta uma sensação de familiaridade, até mesmo sendo utilizada para um julgamento de carácter.

O futebol falha na América porque eles vêm o jogo em si como um prelúdio para os golos. Não vêm a beleza em ver um passe rasteiro de cinquenta metros de Lucho González, avançando pela defesa adversária, fora do alcance dos centrais, e chegar com segurança nos pés do ponta-de-lança. Não apreciam a arte envolvida num desarme cirúrgico de Ricardo Carvalho.

Os americanos não exageram quando falam de futebol. Para um adepto de futebol tudo é uma hipérbole. A linguagem utilizada é bélica. As decisões são ultimatos. As emoções variam numa questão de segundos entre o êxtase e a agonia. Para passar da adoração ao ódio basta uma oportunidade falhada. Um golo no último minuto pode “salvar” a equipa. A vitória é gloriosa e a derrota é vergonhosa.

Dois dos principais desportos americanos exigem uma certa exuberância fisiológica. O basquetebol é um desporto praticado quase exclusivamente por atletas gigantes. O futebol americano é um desporto praticado quase exclusivamente por atletas hercúleos. Essa disparidade física desumaniza o desporto e transporta-o para um nível quase sobre-humano, afastado do mundo real. No entanto, na mesma partida de futebol é possível ver uma disputa de bola entre os dois metros de Peter Crouch e o metro de sessenta e nove de Lionel Messi.

O amor cego que une os adeptos e um clube não tem qualquer explicação lógica. Está longe do campo da razão. O futebol é uma paixão de milhões porque é onde o mais trágico dos destinos pode ser alterado. No mundo do futebol, um menino pobre pode encontrar uma vida melhor. No mundo real, nem sempre é assim. Sabemos que a vida é ingrata, mas o futebol lembra-nos sempre que o triunfo vem da esperança e, às vezes, tanto na vida como no futebol, os deuses da sorte cooperam.

1 comentário:

Paulo disse...

Muito giro. Gostei muito.