sábado, 2 de julho de 2011

Cheirar o medo

“Os cães cheiram o medo”. Os adágios populares são sempre velados por uma sabedoria transcendente. Quem me conhece minimamente bem estará seguramente a par da minha relação de profundo respeito com a raça canídea. Tenho, aliás, impreterivelmente de vos familiarizar com um episódio recorrente da minha infância: o cão dos meus vizinhos era incansável em saltar para cima de mim; calma, nada de pensamentos zoófilos. Quereria brincadeira, o malandro. Mas o meu antigo eu, de tenra idade, mal se segurando em pé – dono de um equilíbrio duvidoso e despojado de uma constituição física capaz de aguentar as cândidas investidas do animal - acabava a maior parte das ocasiões estendido no chão, entre lamúrias. E nada me demove em como acabou mesmo por ser esta repetitiva experiência, nada mais que desagradável, que esteve no fundamento da minha inimizade com o famigerado canis lúpus familiaris. Os cães foram, portanto, o meu primeiro inimigo; inimigo que nunca fiz questão de manter por perto: hum, afinal até o saber popular está fatalmente sujeito ao carácter falacioso das generalizações. Depois de escrever aquela frase fiquei a pensar em quem/qual teria sido o meu primeiro amigo, chegando rapidamente à conclusão do dito: carregar. Neste caso, amiga. Deve ser até mesmo a amizade mais fiel que mantenho até hoje; nunca nos chateámos, sequer. E creio não estar sozinho nesta matéria. Voltando à questão olfactiva, a verdade é que os cães nem precisavam de cheirar o meu medo – quando se dava por mim já estava eu do outro lado da rua. Há que ressalvar, no entanto, que esta luta foi paulatinamente ganha, sendo que agora já auguro inclusivamente passar, ufano e indómito, alavancado pelo meu arcaboiço de metro e setenta, por um espécime mais imponente.

Passos Coelho, pelos vistos, também cheirou o medo. Não o das outras pessoas, mas o próprio. A despeito de ser sobejamente aclamado pelos seus apoiantes por ter tido a “audácia” de ter apresentado propostas difíceis ainda em plena campanha eleitoral, ficou em incumprimento à coerência e à verdade no que ao 13º mês diz respeito. Já tinha sofrido, de resto, a primeira derrota na qualidade de Primeiro Ministro, com a indicação de Fernando Nobre como 2ª figura do Estado que a Assembleia, sensatamente, fez questão de reprovar. Ainda não consegui, também, discernir com exactidão se a decisão de voar em económica é pura demagogia/populismo ou uma achega de carácter, boa vontade e exemplo. A juntar a isso há o aborrecido e pouco carismático discurso de vitória nas legislativas, em claro contraste com a prestação muito conseguida – quanto poucos esperavam – no debate televisivo contra Sócrates e as boas indicações que consagrou no regresso das actividades parlamentares.

Provavelmente será do meu olfacto, que não será o mais apurado, mas ainda não consegui deslindar qual a fragrância que a acção política de Passos Coelho verdadeiramente emana. Por agora, assemelha-se a um aterro na dispensa de uma loja de perfumes – passe a impossibilidade. Eu, estando à porta, confesso que ainda não consegui inferir qual o cheiro prevalecente. Vou esperar por mais umas esclarecedoras snifadelas.

PS- Para que é que há uma segunda eleição, uma hora depois e com o mesmo candidato, para a Presidência da Assembleia da República? Esta pergunta é mesmo genuína. É que, no meu julgamento, provavelmente não conhecedor o suficiente neste âmbito, é só uma maneira de promover eventuais pressões internas.

2 comentários:

Miguel Barros disse...

Eish, muito bom! Muito bem pensado e muito bem escrito. Parabéns André ;)

Anónimo disse...

Anónimo que sou, declaro grande apreço e satisfação ao ler este texto. Também pelo facto de já ter presenciado a interacção do autor com um bobby :)

Abraço Andrézão