quinta-feira, 28 de julho de 2011

Puritanismo vegetariano

Ouvem-se as sirenes. É a polícia dos bons costumes. Episódios como este são cada vez mais comuns. Alguns cidadãos preocupados da Associação Animal ficaram chocados com a imagem publicitária de um restaurante. Em causa estava uma fotografia onde os empregados do restaurante posaram com dois porcos estripados.

É por isso que dedico, com todo o carinho, esta descrição de uma matança tradicional do porco às almas sensíveis que constituem a Associação Animal.


O Inverno consegue ser brutal nas áreas rurais do Minho. Existem períodos secos onde a vegetação perde cor devido às geadas frequentes. Camadas finas de gelo cobrem vales inteiros e a terra endurece. É este o tempo ideal para a matança do porco.

Um grupo de sete homens inicia as preparações. Uma mesa forte e larga encontra-se no centro de um largo descampado adjacente aos aposentos do porco. A vítima desconhece o seu destino. Age normalmente, incauto, percorre o chão com o seu nariz e ronca, satisfeito. Passou cinco meses a ser alimentado em doses fartas.

Um dos homens entra na sua corte. Num movimento rápido, o homem segura o porco pelo pescoço. Numa operação eficaz, é prontamente auxiliado por quatro colegas. O porco está imobilizado. Em desespero, começam os seus guinchos estridentes, uma tortura para os mais sensíveis, um despertador para quem habite num raio de um quilómetro. A vítima já conhece o seu destino.

O porco é deitado de lado na mesa. As suas patas são atadas à mesa em dois nós. Um com as patas traseiras e outro com as patas dianteiras. Um dos homens segura a sua cauda. Perto da mesa, algumas mulheres acendem um fogueira.

Um dos homens pousa sobre a mesa uma mala com dezenas de facas. Ele escolhe cuidadosamente uma das facas e aproxima-se do porco. O carrasco espeta a faca no pescoço do animal. Sangue jorra como um géiser quando a faca é retirada. Depois de alguns minutos, os guinchos cessam.

Os presentes aplaudem. Algumas crianças brincam à volta do porco. O almoço, sabem todos, será fêveras.

sábado, 23 de julho de 2011

Foiçada


Amy Winehouse, cantora com um sobrenome dotado de uma sagaz ironia, morreu hoje aos vinte e sete anos. Um final que, sendo surpreendentente pela idade da cantora, faz todo o sentido, conhecido o seu passado auto-destrutivo, que o talento tende terrivelmente a provocar, e cuja história nos diz ser permaturamente fatal para muitos artistas.
Tomislav Ivic, Salvador Caetano, Maria José Nogueira Pinto, Sandro Angélico Vieira, Diogo Vasconcelos e, agora, Amy Winehouse. O último mês tem sido profícuo em mortes mediáticas, como se algo cósmico tivesse utilizado o reconhecimento destes seres agora falecidos para nos lembrar que não estamos a salvo e que se há distinção entre os famosos e nós, reles mortais, a culpa é da espécie humana. A morte, essa, não discrimina.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A irracionalidade do futebol


Para o cidadão americano comum o futebol é um jogo entediante. O fluxo de jogo do futebol moderno é lento, os jogadores têm uma predisposição irritante para cair depois do mais delicado dos contactos físicos e acima de tudo, a maioria dos jogos têm poucos golos. Mas a razão da irrelevância do futebol nos Estados Unidos é outra – a ausência de contexto histórico. Essa ausência de passado impossibilita a formação de raízes culturais que despoletem emoções cerradas pelo futebol.

E no resto do mundo, o futebol é apenas isso, um aglomerado de emoção. O desporto em si é apenas a representação simbólica do patriotismo das selecções nacionais, o bairrismo dos clubes e o drama humano dos jogadores - as ascensões meteóricas e os erros trágicos. A massa adepta envolve mais do que uma simples afinidade e, por vezes, acarreta uma sensação de familiaridade, até mesmo sendo utilizada para um julgamento de carácter.

O futebol falha na América porque eles vêm o jogo em si como um prelúdio para os golos. Não vêm a beleza em ver um passe rasteiro de cinquenta metros de Lucho González, avançando pela defesa adversária, fora do alcance dos centrais, e chegar com segurança nos pés do ponta-de-lança. Não apreciam a arte envolvida num desarme cirúrgico de Ricardo Carvalho.

Os americanos não exageram quando falam de futebol. Para um adepto de futebol tudo é uma hipérbole. A linguagem utilizada é bélica. As decisões são ultimatos. As emoções variam numa questão de segundos entre o êxtase e a agonia. Para passar da adoração ao ódio basta uma oportunidade falhada. Um golo no último minuto pode “salvar” a equipa. A vitória é gloriosa e a derrota é vergonhosa.

Dois dos principais desportos americanos exigem uma certa exuberância fisiológica. O basquetebol é um desporto praticado quase exclusivamente por atletas gigantes. O futebol americano é um desporto praticado quase exclusivamente por atletas hercúleos. Essa disparidade física desumaniza o desporto e transporta-o para um nível quase sobre-humano, afastado do mundo real. No entanto, na mesma partida de futebol é possível ver uma disputa de bola entre os dois metros de Peter Crouch e o metro de sessenta e nove de Lionel Messi.

O amor cego que une os adeptos e um clube não tem qualquer explicação lógica. Está longe do campo da razão. O futebol é uma paixão de milhões porque é onde o mais trágico dos destinos pode ser alterado. No mundo do futebol, um menino pobre pode encontrar uma vida melhor. No mundo real, nem sempre é assim. Sabemos que a vida é ingrata, mas o futebol lembra-nos sempre que o triunfo vem da esperança e, às vezes, tanto na vida como no futebol, os deuses da sorte cooperam.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Será?


"Os tomates do Passos Coelho são deste tamanho!"

sábado, 9 de julho de 2011

Moody's wanted, dead or alive

Nos últimos dias, a agência Moody’s tornou-se, num fenómeno flagrante e imediato, um inimigo proeminente dos portugueses, por ousar atentar contra as esperanças na nossa eventual recuperação económica e financeira. De resto, os movimentos populistas nas redes sociais multiplicam-se e propagam-se à velocidade inversamente proporcional do ritmo de trabalho do português médio.

Vítor Bento teve uma participação sóbria e sagaz na interpretação deste recente episódio: ver. Aliás, creio que os contornos nos quais a Moody’s consubstanciou o seu parecer não estão devidamente definidos na mente da maior parte da população em geral. Não foi Portugal que foi considerado lixo; foi, isso sim, a sua dívida pública. É meramente um indicador, que interessa a quem quiser e que segue quem assim bem o entender. É, nada mais, nada menos, esse o intuito destas agências, que por estes dias parece um exercício profano e repugnante. A razão pela qual esta instrução deverá ter causado tanta celeuma será precisamente pelo facto de a Moody’s granjear de algum prestígio neste contexto analítico, a par da Fitch Ratings e da Standard & Poor's, e de as suas informações prestadas tenderem a consumar-se mais vezes certas que erróneas.

Quem não concordar com a avaliação, mais que ficar na típica posição de “a minha filha é feia mas se alguém disser que não é bonita leva um murro nas trombas, que ela apesar de tudo é uma princesa!”, terá como válida alternativa pegar nas suas poupanças e investir na dívida pública portuguesa. Mas isso por certo ninguém fará.

Jornalismo Púbico

Enquanto somos crianças, o mundo não é questionado. Não somos capazes de visualizar as engrenagens da sociedade. A realidade é uma certeza e a nossa vida parece um sistema completo e perfeito. As nossas necessidades são amparadas com uma prontidão subserviente.

O jornalismo português ainda vive nesse mundo. Aqueles que se dignam a ler qualquer um dos cinco jornais diários ou alguém que olhe de soslaio para os telejornais pensa que Portugal está sob ataque. De acordo com o jornalismo português, o mundo está virado contra nós e a culpa de toda esta confusão, como é óbvio, não é nossa.

Foi a troika que impôs o seu memorando neoliberal. São as agências de rating nutrem um ódio pessoal por Camões e descartaram-nos como “lixo”. É a União Europeia que se recusa a construir uma resposta concertada e inequívoca para os mercados. Já se diz por aí que os Estados Unidos estão no meio de uma guerra cambial com o euro.

Para o nosso Primeiro-Ministro, o corte do rating foi um “murro no estômago”. Para o nosso Presidente, o corte do rating foi “injustificado” e um “exagero”. E os jornais prontificam-se a prestar o serviço público à nação e espalham por toda parte o perfume de injustiça que estes soundbytes emanam.

O corte do rating é, na verdade, um belo balde de água fria. É uma sirene da realidade. Na última década, o nosso crescimento económico foi tépido, quase nulo. Mesmo assim, os rendimentos e a despesa pública aumentaram. Tudo graças a um aumento vertiginoso da dívida.

No entanto, nas últimas semanas, apenas se falou dos cortes dos subsídios de Natal. Mas ninguém se preocupa com a situação que originou este e outros cortes. A despesa pública escapa dos holofotes da comunicação social, que deixa escapar o monstro e falha em mostrar o nosso país por aquilo que ele é: uma máquina de desperdício.

Não existe nenhum mistério. Os culpados somos nós. Fomos nós que pedimos emprestados mais de duzentos mil milhões de euros. Já as agências de rating, como dizia o filósofo Eduardo Catroga, são pentelhos.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Privado

Cruel é a vida em que as fantasias são recorrentemente derrotadas por uma severa realidade. Sou estudante de jornalismo, como os restantes autores deste blog, e há muito já se foi a delirante esperança, que durante largos anos foi por mim alimentada, de que o mundo jornalístico era, acima de qualquer valor, uma máquina informativa. Sempre fui céptico em relação a uma isenção moral completa quando se trata de negócios, mas o escândalo que levou ao fecho do News of the World teve um condão de me provocar sentimentos antagónicos. Surpresa não foi um deles. Ainda assim, uma certa sensação agridoce que temos quando confirmamos que estávamos certos em relação a algo que não queríamos estar: o estado do mercado jornalístico está de tal forma crítico que já não se trata de ignorar regras por dinheiro; há, em todo o escândalo, uma certa perversão que o senso comum, mais do que códigos deontológicos, devia controlar.
Proponho, no entanto, que carreguemos o fardo de sermos optimistas numa altura necessária e em que dificilmente mais alguém o será. O desaparecimento de um tablóide não deixa de ser boa notícia. Sentimos, de repente, o ar ligeiramente mais puro. O optimismo que me propus carregar leva-me a esperar o seguinte: que uma consciência comum de limites entre as liberdades individuais e os negócios informativos seja forte o suficiente para, um a um, acabar com os ignóbeis órgãos de jornalismo cor-de-rosa e, desta forma, que as próximas gerações cresçam sem esta hierarquia de prioridades em que informações sobre a vida privada de famosos e familiares de vítimas de guerra assumem tal importância que as mais básicas condutas morais, não do jornalismo mas da vida em sociedade, são quebradas. Não me parece que seja exigir muito à espécie humana, não que percam o egoísmo, mas que não se aproveitem dele para exigir informações sobre os outros só porque não aceitamos que não somos perfeitos.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Defendendo-nos como podemos


E eis que o espírito lusitano de resistência e revolta contra o opressor ressurgiu nesta bela tarde de 7 de Julho de 2011. Sugiro, com toda a franqueza que o(s) autor(es) desta façanha seja(m) condecorado(s) com o Grande-Colar da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, por actos excepcionais de abnegação e sacrifício pela Pátria e pela Humanidade.
Quem visitar o site da Moody's talvez ainda chegue a tempo de ver esta fabulosa obra de arte, símbolo da indignição nacional e da portugalidade em geral.
Chamarem-nos lixo? Não, não!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

terça-feira, 5 de julho de 2011

sábado, 2 de julho de 2011

Cheirar o medo

“Os cães cheiram o medo”. Os adágios populares são sempre velados por uma sabedoria transcendente. Quem me conhece minimamente bem estará seguramente a par da minha relação de profundo respeito com a raça canídea. Tenho, aliás, impreterivelmente de vos familiarizar com um episódio recorrente da minha infância: o cão dos meus vizinhos era incansável em saltar para cima de mim; calma, nada de pensamentos zoófilos. Quereria brincadeira, o malandro. Mas o meu antigo eu, de tenra idade, mal se segurando em pé – dono de um equilíbrio duvidoso e despojado de uma constituição física capaz de aguentar as cândidas investidas do animal - acabava a maior parte das ocasiões estendido no chão, entre lamúrias. E nada me demove em como acabou mesmo por ser esta repetitiva experiência, nada mais que desagradável, que esteve no fundamento da minha inimizade com o famigerado canis lúpus familiaris. Os cães foram, portanto, o meu primeiro inimigo; inimigo que nunca fiz questão de manter por perto: hum, afinal até o saber popular está fatalmente sujeito ao carácter falacioso das generalizações. Depois de escrever aquela frase fiquei a pensar em quem/qual teria sido o meu primeiro amigo, chegando rapidamente à conclusão do dito: carregar. Neste caso, amiga. Deve ser até mesmo a amizade mais fiel que mantenho até hoje; nunca nos chateámos, sequer. E creio não estar sozinho nesta matéria. Voltando à questão olfactiva, a verdade é que os cães nem precisavam de cheirar o meu medo – quando se dava por mim já estava eu do outro lado da rua. Há que ressalvar, no entanto, que esta luta foi paulatinamente ganha, sendo que agora já auguro inclusivamente passar, ufano e indómito, alavancado pelo meu arcaboiço de metro e setenta, por um espécime mais imponente.

Passos Coelho, pelos vistos, também cheirou o medo. Não o das outras pessoas, mas o próprio. A despeito de ser sobejamente aclamado pelos seus apoiantes por ter tido a “audácia” de ter apresentado propostas difíceis ainda em plena campanha eleitoral, ficou em incumprimento à coerência e à verdade no que ao 13º mês diz respeito. Já tinha sofrido, de resto, a primeira derrota na qualidade de Primeiro Ministro, com a indicação de Fernando Nobre como 2ª figura do Estado que a Assembleia, sensatamente, fez questão de reprovar. Ainda não consegui, também, discernir com exactidão se a decisão de voar em económica é pura demagogia/populismo ou uma achega de carácter, boa vontade e exemplo. A juntar a isso há o aborrecido e pouco carismático discurso de vitória nas legislativas, em claro contraste com a prestação muito conseguida – quanto poucos esperavam – no debate televisivo contra Sócrates e as boas indicações que consagrou no regresso das actividades parlamentares.

Provavelmente será do meu olfacto, que não será o mais apurado, mas ainda não consegui deslindar qual a fragrância que a acção política de Passos Coelho verdadeiramente emana. Por agora, assemelha-se a um aterro na dispensa de uma loja de perfumes – passe a impossibilidade. Eu, estando à porta, confesso que ainda não consegui inferir qual o cheiro prevalecente. Vou esperar por mais umas esclarecedoras snifadelas.

PS- Para que é que há uma segunda eleição, uma hora depois e com o mesmo candidato, para a Presidência da Assembleia da República? Esta pergunta é mesmo genuína. É que, no meu julgamento, provavelmente não conhecedor o suficiente neste âmbito, é só uma maneira de promover eventuais pressões internas.