quarta-feira, 29 de junho de 2011

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Sentimo-nos rodeados de problemas como quem se sente borbadeado por aviões militares. Na verdade, com tantos problemas que temos de enfrentar, ninguém se pode preocupar muito com os acontecimentos na Líbia; com "preocupar muito" entenda-se ir para além da preocupação mundana, mediática, formada em silêncio na sociedade. Temos demasiados problemas para pensar mais profundamente na questão. Quando o egoísmo humano anda de mãos dadas com a muito lusa capacidade de extrapolar as consequências dos nossos problemas, o resultado é simples. O ego não o permite admitir, mas tudo aquilo em que pensamos provém do que ouvimos e vimos das outras pessoas, tudo é influenciado por aquilo que os outros à nossa volta dizem e fazem, e o processo de assimilação de tudo isto - filtrado pelo tal egoismo congénito - é que faz parecer que as conclusões que tiramos da vida, e da Líbia, são fruto do nosso brilhante intelecto.
Perdoem-me o aborrecimento que me querer esclarecer bem, mas quando eu enuncio todas estas propriedades da mente humana, aparentemente depreciativas, não pretendo afastar-me delas. Afectam-me a mim, como afecta a todos por igual. Este espírito partilhado por todos, que molda a verdadeira consciência comum, não é palpável; é, no entanto, perceptível. Difícil de definir, por certo, mas que todos podem sentir se forem um bocadinho mais além. Em silêncio, desafio o leitor a fechar os olhos e limpar estas ideias da cabeça. Não consegue, por acaso, ouvir esta aura comunitária, partilhada, silenciosa construtora do senso comum?
Eu consigo; pelo menos assim creio. Ou será o barulho de aviões militares a bombardear a Líbia?

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