sábado, 25 de junho de 2011

É tudo uma questão de capital.

(Boa-tarde. Os Protagonistas – que, com toda a amabilidade sobejamente reconhecida nos seus precursores, agraciaram com viva vontade a minha inclusão neste espaço – pediram-me para fazer um texto introdutório à minha nuper-participação. Não há muito por onde pegar, até porque dispenso veemente exercícios frívolos de auto-promoção. Felizmente, sou uma pessoa absurdamente normal que espaçadamente irá mandar, então, as suas larachas no blog, no alto do (não-)conhecimento dos seus 19 anos – que, para o Leandro, são na verdade apenas 16. Para mais informações consultem a página homónima no Facebook, que foi para isso que a actualizei num longínquo dia qualquer.)

Já todos sabem o estado em que Portugal se encontra imiscuído. A ladainha não só é bem conhecida como o é experienciada. Muito menos será preciso falar da sociedade capitalista em que vivemos, secundarizando a condução política de um país do principal direito e fundamento de qualquer indivíduo: direito à vida; que, actualmente, é um conceito facilmente confundido com o da existência. E falo em secundarizar com total consciência, dado que as decisões capitais (ora, capital até quer dizer principal) são tomadas com fins meramente lucrativos, materiais e impessoais. Posto isto, é com algum sentimento de iniquidade que vejo que, na quase totalidade dos ensejos, quem aparece a escrutinar temas de manifesta índole social e de inexorável sensibilidade são executivos endinheirados, devidamente armados com os seus fatos e pastas. Quando isso acontece, a minha mente prega-me, inevitavelmente, sempre a mesma partida: surge-me de imediato um largo ser, tipicamente americano, acabado de sair vitorioso de um concurso de quem consegue comer mais cachorros quentes, com um choro tépido e ensaiado após ter sido inquirido acerca da quantidade incomensurável de fomenicas que pisam o solo africano.

Ainda assim, por mais dificuldades que passemos, por mais que a nossa conta mensal seja coarctada, nada é comparável a uma existência sem um lar próprio. Eu ainda tenho um. Posso até lhe pegar fogo, se assim o entender. A Sónia Brazão fê-lo. É certo que a minha mãe não acharia muita piada, mas é-me concedida essa possibilidade, que, arrisco dizer, a ninguém deveria ser negada. É, diga-se, particularmente impossível ficar indiferente a estes casos de desalojamento para quem, como eu, frequentemente vagueia pela zona da Boavista. A quantidade de pessoas que coexistem nestas condições é reveladora e assustador. Ou melhor, é assustadoramente reveladora. Por essa mesma razão, quando por lá passo de dia e sou interpelado no desejo de um cigarro, nunca o consigo recusar. Que espécie de ser humano seria se o fizesse? Um cigarro custa o quê, uns 20 cêntimos? (Não me apetece efectivar as contas e prefiro ter a oportunidade, por mais ínfima que seja, de acertar sem o fazer; seria notável) Exactidões à parte, é relativamente comportável para mim, de qualquer maneira. E, como diria oportunamente a minha avó, estou graças a Deus longe de imaginar qual será o verdadeiro valor de uma meia dúzia de passas de nicotina para aquela pessoa. Ainda assim, é quando a situação chega a um ponto em que, não tendo nenhum exemplar no maço para disponibilizar, me é requisitado o resto do que me encontrava a fumar, que se nota a ululação exasperante pelo travo de uma vida mundana. Investir desta forma na contribuição para uma aproximação, por mais efémera que seja, destes dois mundos tão contrastantes, é também, confesso, um acto egoísta. Pelo simples acto da cedência do resto do cigarro, lá vou eu, depois, a pavonear-me rua abaixo, congratulando-me pelo meu aparente altruísmo e quase ousando até exteriorizar uma cantiga sibilante qualquer.

Ontem, vi uma cara bem conhecida destas lides - precisamente a senhora que me pediu o resto do cigarro -, superiormente acompanhada. Encontrava-se numa conversa informal com três profissionais da comunicação, área que (ainda) almejo, devidamente identificados com o símbolo da SIC nas suas vestimentas e já com máquina de filmar em sentido para quando assim fosse requerido. Num abrupto e indefinível trecho de tempo, esquecido o contexto social, admito o meu pecado capital (lá está o bandido novamente): conservei-me, contemplativo, com um ingénuo e inconsciente sentimento de inveja. Quem diria que até uma pessoa na condição mais miserável e indigna de um ser-humano seria capaz de suscitá-la?

1 comentário:

Paulo disse...

Gostei muito do estilo e da honestidade também!

Parabéns pela estreia, grande abraço.

E, por pouco, já não me apresentava: sou o pai do Diogo.