terça-feira, 28 de junho de 2011

A companhia aérea de todos nós

Nos últimos anos, multiplicam-se as notícias que profetizam o lento declínio da nossa transportadora aérea nacional, a TAP. Inserida num mercado onde tem pela frente a concorrência feroz e desigual das companhias low-cost, encostada à parede pela intransigência dos sindicatos que unem os seus trabalhadores, a TAP terá muitas dificuldades em escapar do mesmo destino que já espera a RTP – a privatização.

Infelizmente, a lista de problemas da transportadora é ainda mais longa. As operações da empresa são fortemente influenciadas pelo seu estatuto de empresa pública e, em Portugal, isso significa que qualquer processo de mudança ou reforma que seja necessária encontra uma oposição mesquinha de interesses ocultos. Enfim, o jeitinho português de fazer negócios.

Apesar disso, eu lembro-me de outros tempos, com uma outra TAP, que existia num país diferente, mais optimista, longe dos fantasmas da troika e da perspectiva aterradora da bancarrota. Eu lembro-me de pensar na TAP e ver mais do que uma companhia aérea. Eu lembro-me de pensar na TAP e ver além dos aviões, aeroportos, pilotos, comissários e hospedeiras de bordo.

Eu lembro-me de tempos mais simples em que a TAP apenas representava Portugal e os seus aviões eram pedaços de um país distante. As três cores da fuselagem – o branco imponente e as faixas orgulhosas de verde e vermelho - traziam algum conforto aos emigrantes e ajudava a anestesiar a sensação terrível de saudade infinita.

Eram tempos em que a comida servida nos aviões não provocava repulsa. As hospedeiras de bordo eram senhoras lindas e delicadas, verdadeiras rainhas e embaixadoras, mães e enfermeiras de todos os passageiros. Vestidas nos seus uniformes verdes impecáveis, com o cabelo arranjado num estilo antiquado e formoso, eram elas que nos consolavam da separação abrupta do lar perdido.

Voar pela TAP era uma experiência familiar, quase religiosa, e atrevo-me mesmo a dizer, agradável. Não existiam os medos irracionais associados aos aviões, cruzávamos os céus sem nunca tirar os pés do chão, da terra que nos criou, onde, um dia, ansiávamos voltar.

Agora, os tempos são outros. A realidade é outra. O país é outro. O tempo para romantismos e para nostalgias acabou. Acabou no dia em que começamos a pagar a dívida nacional com o dinheiro emprestado pelo FMI. Não nos podemos dar ao luxo de manter empresas públicas deficitárias como a TAP. Mesmo que ela seja muito mais do que apenas uma empresa.

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