quinta-feira, 30 de junho de 2011

Billy Joel - Piano Man

Vou introduzir aqui algo que, não sendo inovador, pelo menos aqui neste local é diferente. A partir de agora, depois de cada texto meu, irei partilhar com os leitores uma qualquer música à minha escolha. Se assim quiserem, podem ouvir enquanto lêem os textos, prometo escolher sempre algo adequado a tal. Senão, simplesmente apreciem o que decidir partilhar convosco.

Erro de cálculo

Em Portugal há sempre diferentes formas de analisar as mais diversas situações. Sentido de unidade? Tal expressão não existe por entre o velho(ou novo?) vocábulo nacional. Finge-se, por exemplo, que tal existe quando se realizam determinadas greves para defender determinados direitos de determinados grupos. Na verdade, cada indivíduo quer dar a sua colherada. Não condeno, o oportunismo nunca esteve tão na moda, e ganha cada vez mais preponderância neste contexto em que vivemos. Quem quer triunfar tem que deixar de parte, por "breves" instantes, muitos dos valores que os papás ensinaram desde pequenino. O "Mau" é o novo "Bom".

Mas sem querer entrar demasiado em devaneios filosóficos do real passo directamente ao assunto que aqui me trouxe.
Ontem foi divulgado pelo INE o valor do défice do primeiro trimestre deste ano, revelando uns preocupantes 7.7%. A tentativa de reduzir o défice das contas públicas para 5.9% até ao final do ano prevê-se agora mais complicada. Falo de diferentes análises porque, nos primeiros meses do ano, a Direcção Geral do Orçamento tinha proclamado um bom andamento nas contas do Estado. Afinal, segundo os dados fornecidos pelo INE, as coisas não são muito bem assim. Para perceberem a diferença, a DGO sugeria um excedente nas contas, contra um défice de mais de 3 mil milhões de euros agora revelado pelo Instituto Nacional de Estatística.
Ao que parece, as duas entidades utilizam métodos de cálculo distintos. A DGO a "contabilidade pública", e o INE a "contabilidade nacional". Esta última já inclui, não só as contas de empresas públicas, como o registo de despesas feito no momento do compromisso com os fornecedores e não no do pagamento. Isto significa que aqui são contabilizadas as dívidas que o Estado tem vindo a acumular.

A DGO quereria, portanto, enganar alguém. Um engano inconsequente, pelos vistos. Ou talvez não, tendo em conta a disparidade dos valores apresentados. Mas por cá tudo é feito em virtude de algo maior que a própria vontade. De resto, o governo de Sócrates estava recheado de pequenas extrapolações da realidade como esta. Mas também não deposito demasiadas expectativas em relação a este novo executivo. Nunca o fiz anteriormente. A história recente mostra que teria saído tremendamente defraudado. Resta-me apenas esperar para ver...

quarta-feira, 29 de junho de 2011

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Sentimo-nos rodeados de problemas como quem se sente borbadeado por aviões militares. Na verdade, com tantos problemas que temos de enfrentar, ninguém se pode preocupar muito com os acontecimentos na Líbia; com "preocupar muito" entenda-se ir para além da preocupação mundana, mediática, formada em silêncio na sociedade. Temos demasiados problemas para pensar mais profundamente na questão. Quando o egoísmo humano anda de mãos dadas com a muito lusa capacidade de extrapolar as consequências dos nossos problemas, o resultado é simples. O ego não o permite admitir, mas tudo aquilo em que pensamos provém do que ouvimos e vimos das outras pessoas, tudo é influenciado por aquilo que os outros à nossa volta dizem e fazem, e o processo de assimilação de tudo isto - filtrado pelo tal egoismo congénito - é que faz parecer que as conclusões que tiramos da vida, e da Líbia, são fruto do nosso brilhante intelecto.
Perdoem-me o aborrecimento que me querer esclarecer bem, mas quando eu enuncio todas estas propriedades da mente humana, aparentemente depreciativas, não pretendo afastar-me delas. Afectam-me a mim, como afecta a todos por igual. Este espírito partilhado por todos, que molda a verdadeira consciência comum, não é palpável; é, no entanto, perceptível. Difícil de definir, por certo, mas que todos podem sentir se forem um bocadinho mais além. Em silêncio, desafio o leitor a fechar os olhos e limpar estas ideias da cabeça. Não consegue, por acaso, ouvir esta aura comunitária, partilhada, silenciosa construtora do senso comum?
Eu consigo; pelo menos assim creio. Ou será o barulho de aviões militares a bombardear a Líbia?

terça-feira, 28 de junho de 2011

A companhia aérea de todos nós

Nos últimos anos, multiplicam-se as notícias que profetizam o lento declínio da nossa transportadora aérea nacional, a TAP. Inserida num mercado onde tem pela frente a concorrência feroz e desigual das companhias low-cost, encostada à parede pela intransigência dos sindicatos que unem os seus trabalhadores, a TAP terá muitas dificuldades em escapar do mesmo destino que já espera a RTP – a privatização.

Infelizmente, a lista de problemas da transportadora é ainda mais longa. As operações da empresa são fortemente influenciadas pelo seu estatuto de empresa pública e, em Portugal, isso significa que qualquer processo de mudança ou reforma que seja necessária encontra uma oposição mesquinha de interesses ocultos. Enfim, o jeitinho português de fazer negócios.

Apesar disso, eu lembro-me de outros tempos, com uma outra TAP, que existia num país diferente, mais optimista, longe dos fantasmas da troika e da perspectiva aterradora da bancarrota. Eu lembro-me de pensar na TAP e ver mais do que uma companhia aérea. Eu lembro-me de pensar na TAP e ver além dos aviões, aeroportos, pilotos, comissários e hospedeiras de bordo.

Eu lembro-me de tempos mais simples em que a TAP apenas representava Portugal e os seus aviões eram pedaços de um país distante. As três cores da fuselagem – o branco imponente e as faixas orgulhosas de verde e vermelho - traziam algum conforto aos emigrantes e ajudava a anestesiar a sensação terrível de saudade infinita.

Eram tempos em que a comida servida nos aviões não provocava repulsa. As hospedeiras de bordo eram senhoras lindas e delicadas, verdadeiras rainhas e embaixadoras, mães e enfermeiras de todos os passageiros. Vestidas nos seus uniformes verdes impecáveis, com o cabelo arranjado num estilo antiquado e formoso, eram elas que nos consolavam da separação abrupta do lar perdido.

Voar pela TAP era uma experiência familiar, quase religiosa, e atrevo-me mesmo a dizer, agradável. Não existiam os medos irracionais associados aos aviões, cruzávamos os céus sem nunca tirar os pés do chão, da terra que nos criou, onde, um dia, ansiávamos voltar.

Agora, os tempos são outros. A realidade é outra. O país é outro. O tempo para romantismos e para nostalgias acabou. Acabou no dia em que começamos a pagar a dívida nacional com o dinheiro emprestado pelo FMI. Não nos podemos dar ao luxo de manter empresas públicas deficitárias como a TAP. Mesmo que ela seja muito mais do que apenas uma empresa.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

(As últimas publicações remetem para temas sociais, políticos, literários, religiosos e filosóficos. Não necessariamente por esta ordem. Confesso que sou complacente com um enfoque também direccionado para temas menos proeminentes e com uma diminuta implicação directa no dia-a-dia das pessoas, mas vejo-me na obrigação de trazer para escrutínio algo que estará, por certo, a remoer, nem que seja minimamente, um abrangente universo de 6 milhões de pessoas.)

Nuno Gomes, ao que tudo indica, estará mesmo a caminho do Braga. Durante o dia de ontem já foi inclusivamente dado como certo no clube arsenalista por alguns órgãos de comunicação. A capa de hoje do Correio da Manhã dá conta de um eventual egresso entre as duas partes, por questões salariais, o que me faz acreditar ainda mais que o acordo, se não estiver já consumado, estará preso por pequenos detalhes, sendo, então, uma questão de tempo a sua oficialização.

Já tinha sido com pesar que tinha presenciado a sua saída do Benfica. O avançado português foi uma das figuras maiores do clube no passado recente – provavelmente apenas equiparado com Rui Costa. Com Simão poderá até ser cotejado a nível desportivo, mas nunca a nível institucional. Desportivamente, a sua qualidade nem pode sequer, quanto a mim, ser contestada: apesar de o ser, até mesmo por adeptos encarnados. No entanto, a forma como sempre honrou a camisola e, também, a braçadeira do clube é simplesmente indiscutível e louvável. O altruísmo com que actuava, colocando a equipa num patamar de relevância superior ao seu rendimento individual, também não me parece deixar muitas dúvidas. Recordo ainda uma entrevista passada – já não me lembro quando nem porquê. Mas as minhas reminiscências destacam uma passagem em que a sua mulher (presumo) aconselhava, num tom reprovador, que deveria pensar mais nele próprio e menos na equipa, ao que simplesmente redargue que era aquela a sua forma de jogar. É pena que o Zé Povinho não queira saber disso para nada. Nuno Gomes nunca foi um goleador na verdadeira acepção da palavra, nem nunca o precisou para ser um grande jogador. A sua inteligência em campo destacavam-no dos demais.

A gestão inepta que Jesus fez da sua situação foi mais condenável que alguns desaires mais custosos, mas ainda assim naturais no mundo atípico do futebol. Vê-lo na condição de suplente dos suplentes, atrás de filisteus como Kardec e Weldon, foi uma hilariante afronta ao desporto-rei, uma perversa patacoada de todo o tamanho. Ainda assim, nem neste contexto impróprio o Nuno deixou de ser fiel aos seus valores e à sua verdade. Não criou ondas, não destabilizou, não reivindicou quando qualquer outro provavelmente o teria feito e, quando entrava, fazia-o como sempre na sua carreira: incansável, com vontade e com paixão. E com golos. A porta por onde saiu não foi, de todo, condizente com aquilo que deu ao clube nas 12 épocas que esteve ao seu serviço.

Que seja, agora, feliz nesta última etapa da sua digna carreira. Ele, apenas ele. Porque assim bem o merece.

domingo, 26 de junho de 2011

A Reforma segundo Jesus Cristo

Acho que já é oficial: a religião terminou o seu trabalho. Bravo, digo eu. A faina foi árdua, os selvagens foram cristianizados e por toda parte existem belos monumentos que pela eternidade representarão uma herança cultural notável – a matriz judaico-cristã.

Com ela veio um código moral civilizado, um manual de bons costumes e a culpa católica que todos necessitamos quando estamos prestes a cometer pecados. Sabemos agora que não se deve matar, roubar e acima de tudo, não se deve cobiçar a mulher e os escravos do próximo.

Com isto, acho que é possível reafirmar: a religião terminou o seu trabalho. Lembremo-nos sempre das suas filosofias e dos seus escritos. Exaltemos a sua procura exaustiva de respostas para questões irresolúveis. Mas todo o resto pode e deve ser dispensado como vudu, magia e superstição.

O meu primeiro contacto com a realidade da inexistência da Deus aconteceu ainda em criança quando descobri que Deus tinha o hábito irritante de responder às perguntas com um silêncio vigoroso e irredutível. As orações passaram a ser meras palavras vazias e a missa transformou-se num ritual milenar arcaico e inútil.

Sempre achei particularmente assustador o momento da cerimónia em que os fiéis se ajoelham. Ainda mais assustador quando suplicam ao Cordeiro de Deus pela sua piedade e misericórdia. Nas suas mentes, só Ele poderá salvá-los do pecado e levá-los à vida eterna. Em troca, pede apenas uma coisa – submissão. Algo que devidamente analisado revela uma dimensão perturbadora.

A maioria das pessoas vive as suas vidas ignorando por completo vários dos mandamentos que dizem subscrever. Somos todos mentirosos, gulosos, orgulhosos e avarentos. Somos todos católicos de Domingo, seres ambiciosos e criaturas egoístas. Aquilo que nos move não é desejo de salvação eterna. O que nos move são os desejos pessoais e a busca incessante pelo prazer.

O que mais me impressiona é a estupidez necessária para pegar na espiritualidade e utilizá-la para justificar a negação das leis mais básicas da física. Não é preciso ser um génio para saber que não existem milagres e aparições. Não será São Judas que irá curar os tumores de um leproso. Não será Santa Rita de Cássia que irá fazer ver os cegos. Os milagres que existem são o resultado do engenho e da audácia dos Homens.

O Universo não é apenas indiferente aos nossos anseios. A indiferença implica um julgamento moral, um atestado de desinteresse precedido por uma análise. O Universo é um nada, um vazio desprovido de qualquer significado inerente do qual nós fazemos parte.

A vida, para não ser desperdiçada, não deve ser vivida como uma fase de preparação. A vida é uma dádiva demasiado preciosa para ser resumida a um curriculum vitae acumulado com a esperança de passar no derradeiro exame – a morte.

Com um bocado de honestidade e coragem, podemos admitir que ninguém tem todas as respostas. E muito provavelmente, nunca as teremos. A razão pela qual estamos aqui sempre será um enigma. Ainda bem.

Acho que, no fundo, todos sabemos isso. Acho que, nas situações mais importantes, em casos de vida ou morte, a razão e o senso comum prevalecem. Na luta em prol da causa maior do Homem - a felicidade - somos todos ateus.

sábado, 25 de junho de 2011

É tudo uma questão de capital.

(Boa-tarde. Os Protagonistas – que, com toda a amabilidade sobejamente reconhecida nos seus precursores, agraciaram com viva vontade a minha inclusão neste espaço – pediram-me para fazer um texto introdutório à minha nuper-participação. Não há muito por onde pegar, até porque dispenso veemente exercícios frívolos de auto-promoção. Felizmente, sou uma pessoa absurdamente normal que espaçadamente irá mandar, então, as suas larachas no blog, no alto do (não-)conhecimento dos seus 19 anos – que, para o Leandro, são na verdade apenas 16. Para mais informações consultem a página homónima no Facebook, que foi para isso que a actualizei num longínquo dia qualquer.)

Já todos sabem o estado em que Portugal se encontra imiscuído. A ladainha não só é bem conhecida como o é experienciada. Muito menos será preciso falar da sociedade capitalista em que vivemos, secundarizando a condução política de um país do principal direito e fundamento de qualquer indivíduo: direito à vida; que, actualmente, é um conceito facilmente confundido com o da existência. E falo em secundarizar com total consciência, dado que as decisões capitais (ora, capital até quer dizer principal) são tomadas com fins meramente lucrativos, materiais e impessoais. Posto isto, é com algum sentimento de iniquidade que vejo que, na quase totalidade dos ensejos, quem aparece a escrutinar temas de manifesta índole social e de inexorável sensibilidade são executivos endinheirados, devidamente armados com os seus fatos e pastas. Quando isso acontece, a minha mente prega-me, inevitavelmente, sempre a mesma partida: surge-me de imediato um largo ser, tipicamente americano, acabado de sair vitorioso de um concurso de quem consegue comer mais cachorros quentes, com um choro tépido e ensaiado após ter sido inquirido acerca da quantidade incomensurável de fomenicas que pisam o solo africano.

Ainda assim, por mais dificuldades que passemos, por mais que a nossa conta mensal seja coarctada, nada é comparável a uma existência sem um lar próprio. Eu ainda tenho um. Posso até lhe pegar fogo, se assim o entender. A Sónia Brazão fê-lo. É certo que a minha mãe não acharia muita piada, mas é-me concedida essa possibilidade, que, arrisco dizer, a ninguém deveria ser negada. É, diga-se, particularmente impossível ficar indiferente a estes casos de desalojamento para quem, como eu, frequentemente vagueia pela zona da Boavista. A quantidade de pessoas que coexistem nestas condições é reveladora e assustador. Ou melhor, é assustadoramente reveladora. Por essa mesma razão, quando por lá passo de dia e sou interpelado no desejo de um cigarro, nunca o consigo recusar. Que espécie de ser humano seria se o fizesse? Um cigarro custa o quê, uns 20 cêntimos? (Não me apetece efectivar as contas e prefiro ter a oportunidade, por mais ínfima que seja, de acertar sem o fazer; seria notável) Exactidões à parte, é relativamente comportável para mim, de qualquer maneira. E, como diria oportunamente a minha avó, estou graças a Deus longe de imaginar qual será o verdadeiro valor de uma meia dúzia de passas de nicotina para aquela pessoa. Ainda assim, é quando a situação chega a um ponto em que, não tendo nenhum exemplar no maço para disponibilizar, me é requisitado o resto do que me encontrava a fumar, que se nota a ululação exasperante pelo travo de uma vida mundana. Investir desta forma na contribuição para uma aproximação, por mais efémera que seja, destes dois mundos tão contrastantes, é também, confesso, um acto egoísta. Pelo simples acto da cedência do resto do cigarro, lá vou eu, depois, a pavonear-me rua abaixo, congratulando-me pelo meu aparente altruísmo e quase ousando até exteriorizar uma cantiga sibilante qualquer.

Ontem, vi uma cara bem conhecida destas lides - precisamente a senhora que me pediu o resto do cigarro -, superiormente acompanhada. Encontrava-se numa conversa informal com três profissionais da comunicação, área que (ainda) almejo, devidamente identificados com o símbolo da SIC nas suas vestimentas e já com máquina de filmar em sentido para quando assim fosse requerido. Num abrupto e indefinível trecho de tempo, esquecido o contexto social, admito o meu pecado capital (lá está o bandido novamente): conservei-me, contemplativo, com um ingénuo e inconsciente sentimento de inveja. Quem diria que até uma pessoa na condição mais miserável e indigna de um ser-humano seria capaz de suscitá-la?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Mandamentos


Fico honestamente impressionado com a espiritualidade da raça humana. Impressiono-me facilmente com coisas estúpidas, facto que ainda me surpreende um pouco por saber que vivi rodeado de coisas estúpidas toda a minha existência e que as minhas mais vincadas mudanças de personalidade foram todas forçadas pela minha consciência se aperceber cada vez mais da quantidade de coisas estúpidas que existem. Reparando eu ou não, as coisas estúpidas tentaram alterar a minha percepção mais básica do mundo, contaminando-me a razão e querendo-me fazer acreditar que as coisas estúpidas são as mais importantes. E com estas considerações fatalistas, passo-vos a falar de espiritualidade, um tema vago, enigmático, já devidamente documentado e, ainda assim, surpreendentemente polémico. Mas o engenho que possuo com as palavras e a consciência que tenho das suas limitações não me permitem aventurar de ânimo leve por um tema de repercussões filosóficas, metafísicas, científicas e religiosas. Fá-lo-ei com tempo. Por agora, inclinemo-nos um pouco sobre a percepção que as pessoas obtêm perante este debate espiritual.
O que as pessoas captam, antes de mais, é que pode haver vida após a morte. Pode haver. Isto, desde logo, acalma-as profundamente e põe-nas relutantes a alterar a sua perspectiva para algo mais prático, factual e, consequentemente, mentalmente mais reconfortante. Os grandes movimentos espirituais, nos quais incluo as religiões, surgiram todos de dois fardos essenciais: a ignorância e o medo de morrer. O povo Maia, diz-se, adorava e venerava o Sol, pela sua grandiosidade, importância, mas essencialmente pelo desconhecimento da sua origem. Os avanços astronómicos permitiram chegar à conclusão que aquele era um corpo celeste, como tantos outros, como o calhau em que vivemos, e como tal tem de haver algo que nos transcenda a nós e ao Sol. Se além de atentarmos a esta falácia interpretativa, tivermos em conta que o instintivo medo de morrer, enterrado na mais básica das consciências, nos afecta persistentemente, é fácil compreender o fenómeno espiritual. Digo espiritual, não religioso. A existência de algo superior ao humano é premissa aceite dentro de todos os movimentos espirituais, mas surge de formas diferentes. Para uns é um velho numa nuvem que promete felicidade eterna a quem passe infeliz pela terra, mas se porte bem; outros ressuscitarão num corpo de outro ser; outros acreditam apenas na capacidade meditativa que permita a elevação da mente um degrau acima dos demais, de forma a observar os conceitos de morte e eternidade com maior amplitude.
É importante registar que eu, como todos, também tenho um medo medonho da morte. Mas a vida não me assusta particularmente. A única razão pela qual eu tenho medo da morte é porque tenho cem por cento de certeza que significará o fim. Daí que os mais sagazes homens que já partilharam connosco as suas ideias tenham sido homens com uma consciência de finitude enraizada, destruidora, cancerígena. É preciso haver morte para haver bons pensadores e, nessa perspectiva, se o medo da morte significar consciência do fim, então há motivos para pensar que a morte, afinal, nos pode elevar o discernimento.
Mas não para uma larga maioria das pessoas. Na sociedade ocidental, há uma intolerância enorme à dor provocada por buracos espirituais, por dúvidas concretas de resposta inalcançável, pelo que há que tapar essa dor com histórias de moral, céus e infernos, vinhos e cobras, mares e maçãs, gafanhotos e cruzes. As pessoas aceitam estas histórias pela sua simplicidade, pela nobreza das suas palavras, pela importância dos afectos, pela perspectiva de vida eterna.
A religião anuncia o que o povo ambiciona: eternidade, bondade e ilusão, um conjunto irresistível que alimenta o ego e afoga perspectivas de verdadeira iluminação.
Contudo, a grande maioria das pessoas não tem nesta crença um verdadeiro alicerce de actuação moral. Têm, isso sim, a aparência. A distinção padronizada e simplificada do bom e do mau: roubar, beber e gozar é mau; ajudar, aconselhar e perdoar é bom. Aqui assenta a frágil e superficial perspectiva moral da sociedade moderna: uma mistura de valores religiosos e modernas circunstâncias, minada de frequentes desobediências e actuações de gosto duvidoso. É instável, mas acaba por ser confortável: não dá muito trabalho, é de certa forma indiferente o critério com que se interpreta este código moral, desde que a aparência lá esteja, e a vida pode continuar a correr com a sua desrespeitosa indiferença.
Limitar-nos à condição de seres cuja evolução permitiu ter uma perspectiva adulterada pela consciência daquilo que é o tempo, o espaço e nós próprios parece ser pouco ambicioso. Mas não convém esquecer um profundo egoísmo nisto tudo: a devoção à divindade nada mais é do que ambicionar ser uma. Ambicionar ser intemporal, desmedidamente sabedor e emocionalmente desapegado – precisamente as três propriedades que faltam ao ser humano para deixar de sofrer.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

"Statu quo" em português

Neste país esperam-se meses e anos por uma operação cirúrgica, mas veja bem estas rotundas, tão organizadas que são, veja estes estádios de futebol, as nossas equipas são as melhores do mundo, veja estas turbinas eólicas, quão limpa é a nossa energia, veja como a fibra óptica é brilhante, vai ver como daqui a um mês “mais de trezentos canais” vai lhe parecer pouco, sinta como os subsídios são generosos, compre um café e um pastel de nata com o cheque, vá a uma repartição das finanças, saiba que a nossa função pública é um negócio de família e os nossos funcionários públicos gostam das suas gorjetas em envelopes brancos, se lhe parecerem meio sonolentos, não se aflija, é normal, eles têm mais medo de você do que você deles, conheça os nossos padres, certamente nenhum é pedófilo, aqui nem se imagina tal coisa, eles sabem latim, diga lá se isso faz sentido, homens eruditos, homens de letras, homens humanistas como esses não se dariam a essas poucas vergonhas, não se esqueça de provar o bacalhau, todos os trezentos e sessenta e cinco modos de confecção, não se preocupe, não se vai fartar, com o tempo a gente habitua-se a estar farto, acontece a todos.

sábado, 18 de junho de 2011

Velho rezingão


Saramago teve o azar da ousadia. Uma ousadia bem mais burlesca que as dos demais génios literários.
Descansem os mais pudicos. Quando falo de ousadia, estou muito longe de referir as considerações que Saramago fez sobre o fenómeno religioso, mormente o judaico-cristão. As vozes que condenam tais blasfémias são incultas ao ponto de ignorar que aquilo que Saramago evidenciou já havia sido manifestado há muito tempo. O facto de Saramago ser condenado, no áureo e próspero século XXI, pelas suas hereges interpretações de episódios e ensinamentos bíblicos, choca se analisarmos cruamente, mas está longe de espantar.
Também não falo da presumida falta de portugalidade de Saramago. Apenas em Portugal o sentimento patriótico, herança inegável do nacionalismo colonial, se consegue sobrepor à grandeza literária. Quem leu Saramago sabe que este amou Portugal com desmedida gratidão. Quem absorveu Saramago sabe reconhecer que, navegando no mar de sarcasmo embriagante que são os seus livros, os grandes sobressaltos surgem exactamente nos momentos de reflexão, consideração, descrição, condenação ou exaltação do povo português. É a falar de Portugal, ou, mais sorrateiramente, do povo lusitano, que a escrita de Saramago mais atinge uma arrebatante perfeição expositiva. Bem vistas as coisas, Saramago – o escritor, bem entendido – só poderia ser português. A oralidade da sua escrita só poderia ter sido herdada da expressividade discursiva de um português. Um português fala sem parar; Saramago escreve sem parar. Parece-me indissociável.
Quando vos falo de ousadia, falo-vos de uma em particular que, pela raridade, merece que seja lembrada. A ousadia de Saramago foi nunca se ter refugiado na grandeza dos seus livros.
Passo a explicar: Saramago tem uma eloquência prosaica sem par na recente literatura nacional. Considerando a irreverência temática e gramatical, única característica captada pelos mais distraídos, à qual acrescentamos o sempre dúbio prémio da academia sueca, é natural a mediatização da sua figura. Aqui assenta o dilema: ou o escritor se esconde da esfera mediática, limitando a sua imagem pública àquilo que o seu engenho artístico concebe; ou, por outro lado, encara o mediatismo como um processo bidireccional, em que as suas palavras – de Saramago pessoa, não escritor – poderão ter alguma repercussão no povo que as ouve.
Saramago optou pela segunda hipótese. E, ao fazê-lo, fez o que todos fazemos perante outros seres humanos: construiu uma persona e deixou-se orientar por ela diante dos demais. A máscara que escolheu, essa, é questionável. O seu radicalismo trotskista é incomodativo, tremendamente irritante até, e o seu idealismo humano, ainda que louvável, é atípico num homem de tal sagacidade. Mas há sobretudo que destacar que Saramago optou por se expor com estes hiperbólicas assumpções, indo para além daquilo que foi a sua mensagem escrita, mais do que suficiente para o consagrar.
Dirão os leitores, sempre atentos, que não é rara a utilização da fama para a criação de uma máscara persuasiva. Discordo; este abuso é raro, sim. Entre os génios. E Saramago foi um. Mais um que se poderia ter abrigado no reconforto de uma obra reconhecidamente de excelência e de uma jornalista espanhola que tratava dele como de um marajá. Não o fez, ousou extrapolar a sua dificilmente superável palavra escrita com ideias faladas, e ter-se-á dado mal, pelo menos em Portugal, país que abandonou por não aceitar histórias de cobras falantes e insuspeitos milagres com a passividade desejada.
Era um homem terrivelmente exagerado. Provavelmente, nem sequer era boa companhia. Fez, porém, um estonteante malabarismo entre a fama e a eternidade. É importante separar, assim, valores distintos. Há valores humanos, políticos e espirituais. E há o valor literário. Se Saramago tivesse sido um ateu comunista, mas dos idiotas - e eles existem - poderia ser lembrado pela controvérsia. Mas a grande literatura tem a peculiar capacidade de sobreviver às mais apocalípticas histerias. E quando passar a tempestade que Saramago – humano - provocou com as suas acintosas apreciações, restarão sempre as lombadas beges de Saramago – escritor - para lembrar que aquele fervoroso e impertinente velho rezingão era, no fundo, um apagado sonhador.