quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Manifesto Papel Higiénico

Eu rio-me quando leio comentários de portugueses irados com o estado do seu país. Portugueses desapontados com o estado em que isto chegou. Não merecemos este país. O nossos políticos são todos corruptos e estamos a falhar os valores de Abril, seja lá o que isso for.

O estado a que isto chegou, caros amigos, a bela merda em que estamos metidos foi criada por nós. A generalização é meramente uma solidariedade patriótica. O "nós" são os portugueses que se revoltaram em Abril, os mesmo que "construíram" este país.

Foram eles que decidiram tudo isto. Foram eles que quase enfiaram o país numa guerra civil no Verão Quente de 75. Foram eles que esbanjaram milhares de milhões de subsídios europeus em quilómetros intermináveis de auto-estradas que ligam cidades desérticas e decadentes. Foram eles que pegaram no dinheiro do investimento e do futuro e transformaram-no numa farsa, num aumento artificial da qualidade de vida.

Foram os nossos pais e tios e avós e amigos e conhecidos que decidiram isto. Foram eles que aceitaram os subsídios generosos do "Estado Social" uma criação fabulosa da esquerda portuguesa. A mesma que agora anda agarrada ao poder. A mesma que agora só sabe reclamar. A mesma que só sabe opor, criticar, destruir e distorcer.

Foram os emigrantes que decidiram isto. Foram eles que saíram numa enxurrada de milhões à procura de uma vida melhor longe da letargia e do marasmo e da puta da saudade. Que nação é esta? O nosso valor nacional é a saudade, sentida por pessoas que estão em casa.

Foram os políticos que decidiram isto. Foram eles que criaram uma função pública monstruosa, lenta e ineficiente, aliada a um sistema de justiça falhado numa nação inteira que aceitou de bom grado os mais de trinta anos de cunhas, abuso de poder, falta de ética generalizada, corrupção descarada e politiquices calculadas.

Foram os portugueses, de esquerda, centro e direita, todas as alas e todas as facções, miúdos e graúdos, ricos e pobres, portuenses e lisboetas, açorianos e madeirenses, todos foram os perpetradores deste crime.

Os filhos da Revolução, esses desgraçados, sim, esses vão pagar a conta da mariscada e do champanhe, dos submarinos e comboios de alta velocidade. Aqueles que nasceram nos anos setenta, oitenta e noventa, esses vão ficar com a batata quente nas mãos. Esses vão andar a maior parte das suas vidas adultas a pagar pelas férias dos pensionistas de Abril.

Crescemos num mundo bastante melhor do que o vosso. Tivemos desde sempre o direito à liberdade, saúde e educação. Mas isso não vos concede o direito de não só hipotecar o nosso futuro, como destruir qualquer hipótese de conseguirmos pagar um dia o raio da hipoteca.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Austeridade para Todos



“Portugal é um país traduzido do francês em calão” – Eça de Queirós

Frases destas são comuns no universo literário português, dentro do espectro da crítica social e da crónica jornalista. Sempre calamitosas e pejorativas, estes pequenos aforismos procuram resumir uma determinada característica do espírito português, mesmo representando generalizações crassas sem contexto factual ou empírico.

Apesar disso, como muitas outras coisas erradas, são extremamente divertidas. Há um fatalismo trágico inerente na condição de ser português. Uma vida de probabilidades pessimistas sobre as quais é batalhada a noção eterna de que somos os mais atrasados entre o mundo desenvolvidos.

O português não confia no próximo, desconfia cegamente e crê que os políticos roubam todos numa vida que é feita a partir do desenrascanço e do chico-espertismo. Para o tuga habitual o perigo está sempre à espreita, a conspirar numa esquina qualquer para privar o povo de mais um das “conquistas de Abril”. A silly season não está circunscrita ao Verão, prolonga-se ao longo do ano, entupido de soundbytes, polémicas e crises que, lentamente, empurram a agenda política.

Com a chegada do início do ano lectivo, a crise na Educação está de volta, aliás, nunca partiu. Esteve silenciosamente à espera. Estatuto do Aluno, Magalhães, Mega-Agrupamentos, Avaliação dos Professores, A Aluna Que Queria o Telemóvel de Volta, Novas Oportunidades – o repertório é vasto e, se deus quiser, muitas mais virão.

O que é sempre positivo. Não sei se será pela ingenuidade natural da juventude, mas a minha visão da política e o meu interesse na situação da economia e do país é meramente desportiva. Interessa-me a discussão absurda dos problemas impossíveis de resolver, das crises políticas artificiais que, de vez quando, lufam bafos de ar fresco na cenário nacional.

Como no futebol, a excitação vem da polémica e das pequenas doses de adrenalina que se obtêm em discussões irracionais. O Benfica vencer já não me chega. Agora o Benfica deve vencer, com uma grande penalidade mal assinalada e pelo menos duas expulsões. É assim, os desempregados que me perdoem, mas às vezes, mesmo quando tudo parece irrecuperável, é possível encontrar divertimento.

Eu sei que anda tudo por aí, com náuseas e dores de estômago, revoltados com o PEC III e com o fim da festa dos subsídios e apoios sociais. Pensem no lado positivo: PS e PSD estão ao rubro na luta pelo título, a CGTP já marcou a greve geral, a Irlanda está cada vez pior e, se tudo correr bem, o FMI vem meter o bico.

Agora, com a aprovação do terceiro pacote de austeridade estou à espera de muitas novidades e entretenimento. “Austeridade”, aliás, que bela palavra, o assessor que cunhou o termo é um génio. Se ele por acaso for um português Socialista, tenho a certeza que já arranjou um bom emprego numa empresa qualquer com participação do Estado.

No dicionário a palavra "austeridade" está associada à integridade e rigor. Na realidade, bem, é o que se vê. Austeridade também está associada ao estoicismo. Por outras palavras, implica fechar a boca e não demonstrar emoções, neste caso, a revolta.

Este é o verdadeiro problema. Os portugueses sabem reclamar como verdadeiros campeões. Agora, "revolta", no sentido verdadeiro da palavra, não significa isto nem isto.