quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Extorsão

Aqui e aqui, amigos.

É oficial. Vivemos em tempos malucos, de especulação financeira absurda que, depois de uma crise tão épica, deveria pelo menos ter incitado a um ímpeto de reforma do sistema económico.

Nada de delírios de esquerda, no entanto. O assunto agora é fraude, é extorsão e sei lá, não tendo o mínimo conhecimento do quadro legal da compra de títulos de dívida portuguesa, arriscaria na mesma que algum crime, ou pelo menos uma irregularidade ocorreu aqui.

O procura de títulos de dívida portuguesa superou a oferta. São simples princípios económicos aqui em jogo. Quando a procura da dívida supera a oferta, um atestado de qualidade do emissor, os juros naturalmente baixam.

Alguém, um ser qualquer pegajoso, decidiu parasitar nas costas do português, que já há tanto tempo andam vergadas pelo peso da sua história. Alguém deveria fazer alguma coisa, portanto. Cavaco gosta tanto de realizar discursos mediatizados pelo pânico passivo do Presidente da República, poderia pelo menos, não sei, agraciar-nos com algumas palavrinhas sobre este assunto.

Falem com quem for necessário, partam algumas cabeças, despeçam algumas pessoas, demitam-se, não se demitam, façam alguma coisa. A crise há muito que já passou a ser uma piada de mau gosto. Qual crise, qual quê.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Turismo Trivial

O meu turismo ideal é uma recriação da vida quotidiana em outro país. Em termos mais simples: gosto de tentar viver no país onde estou, mesmo que seja por alguns dias. Em Paris não quero ir ao Louvre ver a Mona Lisa, não quero ir às catacumbas nem ao Arco de Triunfo.

Quero, antes, acordar numa hora preguiçosa, mas responsável, como as dez horas da manhã, dirigir-me a um café francês pretensioso qualquer, para tomar um pequeno-almoço lento e jocoso.

No Interrail, lembro-me de olhar de relance à Torre Eiffel, à Torre de Londres, ao Big Ben, ao Coliseu e todas os outros monumentos de postal da Europa, e pensar “grande merda”. Gostei, sim, dos bairros judeus em Praga, da vista do Estreito de Dover, dormir na rua em Londres e ser acordado pela polícia.

Em Veneza gostei de andar pela cidade às seis da manhã, sem mapa, e mais importante ainda, sem turistas, sem a companhia intrusiva e armada de câmaras fotográficas das famílias asiáticas de férias. A melhor coisa que fiz na Escócia foi a viagem de comboio até lá. Em Viena comi chocolate e passei três dias com o estômago quentinho, cheio de café e chocolate quente.

Em Marselha, comi um Big Mac na estação de comboios que, depois de quase dois dias sem comer, foi a melhor refeição da minha vida, peço desculpa, mãe e avós. Em Edimburgo passei uma tarde inteira enfiado na cama, debaixo de mantas, a ver televisão escocesa, numa estalagem local assombrosa.

O melhor concerto da minha vida foi em Praga. Numa das inúmeras pontes da cidade, mesmo no meio, tocava uma banda de velhos. O vocalista a marcar o ritmo com duas panelas, o saxofonista, um homem de longa barba branca sentado numa cadeira de praia, de calções e chinelos, de óculos escuros e chapéu e um homem de alta estatura a tocar contra-baixo. Tocavam “What a Wonderful World” de Louis Armstrong num estilo recaído e moroso de felicidade domingueira. Foram os únicos músicos de rua a quem dei dinheiro.

Enfim, não subi à Torrei Eiffel, não entrei na Casa de Anne Frank e não fui ao Loch Ness. Esses ficam para depois. Ficam para um Inverno frio, mas sem turistas.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ler pela incredulidade

Eu conheço as conotações negativas da expressão “a juventude de hoje está perdida”. Assim como o mundo do pós-guerra de 1920 desmanchou-se em lamúrias e condenação dos hippies da geração de 1960, também esses riem-se agora da juventude fútil e preguiçosa dos dias que correm. Mas a verdade é simples. Os jovens de hoje simplesmente não lêem.

Não lêem jornais, não pegam num livro, não são interessados em política, vêem demasiada televisão e passam demasiado tempo no computador e no telemóvel. É esse o discurso de sempre, normalmente vindo de intelectuais e académicos.

António Lobo Antunes disse que a sua ânsia de escrever nasceu da leitura, não de autores clássicos, mas das simples bandas desenhadas, Flash Gordon. O meu gosto pelos livros nasceu de forma semelhante. Como se diz na minha língua natal, o brasileiro, eu devorava “revistas em quadrinhos”. A infância foi perdida no meio da Turma da Mónica e em mergulhos imaginários na piscina de moedas da caixa-forte do Tio Patinhas.

Ler acabou por se transformar num hábito, cultivado pela sorte de ter uma feira de livros a 200 metros de casa. Tive sorte em ter uma tia que me presenteava no aniversário com livros ao invés de Playstations e Gameboys.

É difícil perceber o porquê do desinteresse na política, desconhecimento da existência de jornais, revistas, livros ou mesmo sites noticiosos. Generalizações à parte, a verdade é que já se sentem os efeitos. Nas últimas eleições legislativas foram registadas as taxas de abstenção recorde. Parece algo benigno mas condiciona gravemente a instituição democrática.

Isto não é só apenas sobre a falta de hábitos de leitura. É sobre pais e mães que largam os filhos colados na televisão durante dias inteiros. Ver televisão não requer qualquer esforço mental e a ciência já veio dizer que a actividade cerebral quase cessa durante essa actividade.

Leio porque o caos do Universo ditou que comprasse livros do Jorge Amado, Érico Veríssimo e Monteiro Lobato e depois descobrir, num choque de incredulidade, que eu não era o único que conhecia esses autores. É mesmo assim. Eu leio pela incredulidade.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Costela à Comunista


Nunca me considerei comunista, mas como todo jovem rebelde, tive uma costela de esquerda revolucionária. No entanto, a única coisa que ficou foi a crítica filosófica do capitalismo como sistema económico. O capitalismo aliena o indivíduo – é tão simples como isto.

O capitalismo, uma orquestra ditada pelas leis do mercado livre, é simplificada pela interacção entre a oferta e a procura. Isso significa que a produção é ditada pelos bens e serviços que a sociedade aprova e quer usufruir.

O resultado está à mostra. Prédios históricos caem como dominós no Porto enquanto nascem moradias geminadas e prédios meramente paralelepipédicos. O comércio local e tradicional morre lentamente, sendo agora apenas um elemento de curiosidade breve de turistas pretensiosos.

Ninguém realmente se interessa pelas esculturas de barro tradicionais de um vilarejo português qualquer. O povo se interessa por centros comerciais grandes como bisontes e lojas absurdas em corredores intermináveis.

O que me preocupa é o progresso social ser visto como uma corrida. A classe política desmancha-se em lamúrias pelos custos da Saúde e da Educação, num Serviço Nacional de Saúde lento e cheio de boas intenções. As escolas agora juntam-se em mega agrupamentos, pequenas vilas de estandardização de crianças.

Sim, gastamos muito dinheiro em hospitais e escolas, mas meu deus, qual é a alternativa? Deixar o povo morrer ignorante? Sim, eu sei, é necessário diminuir a despesa pública nessas áreas, mas coisas tão básicas e essências podem não representar procura, mas representam necessidade.

Ou um homem, José Sócrates, que aprova o plano para a construção de uma barragem pela EDP que irá submergir a linha do Tua, que, parafraseando a personagem Seth do filme Superbad: é como dar uma chapada a deus por ter oferecido uma coisa maravilhosa.

O problema do comunismo é que apesar de criticar o capitalismo lindamente, oferece-se como a única alternativa válida, solução sacrossanta e salvadora. A própria existência do comunismo como ideologia nas sociedades actuais é fruto do ambiente capitalista.

Grande parte da máquina comunista actual está relacionada os símbolos: a cor vermelha, a fotografia icónica de Che, frases icónicas de Che, o martelo e a foice interligados, estrelas e revoluções. Todos eles convenientemente impressos em t-shirts vendidas em cadeias de lojas de roupa e shoppings que surgiram pelas leis do mercado.

Já estivemos muito mais perto de ser um regime comunista. No Verão Quente de 75 estivemos na vertigem de uma fabulosa guerra civil entre o norte moderado e o sul radical. Numa coisa, no entanto, parecemos iguais ao regime comunista da Coreia do Norte. Foi noticiado que o treinador da selecção norte-coreana foi enviado para um campo de trabalho depois dos maus resultados no Mundial. Portugal apressou-se a imitar a nação irmã. Entre o deserto mediático onde largaram Carlos Queirós e um campo de trabalho, o diabo que escolha.