domingo, 29 de agosto de 2010

The Dark Knight

Ao contrário de 90% do mundo civilizado, eu apenas vi o The Dark Knight ontem. Retiro tudo o que já disse sobre filmes sobre super-heróis. Eu até aceito o facto de o Super-Homem usar cuecas por cima do collant.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Jornalismo do Século XXI

Identifico em certas notícias e artigos do Público uma certa ingenuidade na escrita e aleatoriedade na organização estrutural do texto. Enfim, chagas de quem não sabe do que raio está a falar.

Imagino a breve consulta que fizeram na Wikipedia e a despreocupação geral de que o que importa não é o que dizemos, mas sim dizer alguma coisa com nexo.

Carrego a mesma cruz, caros amigos. Esta arte surgiu com a realização de trabalhos à última hora, uma capacidade de procrastinação superior ao comum mortal, de encontrar alegria e prazer na mais simples e básica das tarefas - lavar as mãos, cortar as unhas, comer e projectar olhares vazios para o horizonte, mesmo que seja um aterro sanitário.

Na Faculdade, as apresentações de trabalho são entrevistas políticas. O objectivo não é explicar e postular, não é mostrar o domínio absoluto da matéria. O objectivo é distrair imitando o efeito da televisão.

Durante cerca de quinze minutos da apresentação divago, atraso e imponho obstáculos no caminho da percepção da audiência. É hipnotizar com uma canção tocando uma flauta para as cobras indianas da audiência. Refiro curiosidades históricas distantes, mostro conhecimentos profundos sobre outras ideias irrelevantes e apenas olho para o professor quando liberto os pequenos blocos de conhecimento que tenho sobre o verdadeiro tema.

Toda e qualquer actividade é mais importante do que a actividade que de facto é a nossa obrigação. Somos seres anárquicos, enjaulados pela vida moderna, apesar de sermos cidadãos poluidores, globalizados e mundanos como os outros. Não é pela tarefa ser difícil. É por ter sido imposta.

Preguiçosos do mundo, uni-vos!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Praga dos Subúrbios

Com a crescente existência de subúrbios e áreas exclusivamente residenciais, a morte arquitectónica do Porto parece estar a ser atentada progressivamente. Os subúrbios limpos, de relvados geométricos e fezes de cão a serem recolhidas com saquinhos plásticos por donos a fazer jogging.

Pelos prédios originais do centro do Porto delineiam-se pedras escurecidas pelo tempo e gastas pelo povo português mais obstinado. No granito observa-se gárgulas, brasões, cruzes, santos, virgens marias e meninos Jesus.

Enfim, memórias de Porto longínquo, comercial e liberal mas temente a Deus. Pontualmente, essas memórias são interrompidas pela visão de um prédio moderno. Na frente, está erigido um cartaz gigante a gritar por T3 e T4 a preços competitivos com uma família plenamente feliz no fundo da imagem.

O que peca e o que condena esta arquitectura à morte é a falta de carácter, de animus e de abertura ao mundo. São pequenas cápsulas geminadas, caixões claustrofóbicos que segregam ainda mais os viajantes para vida insossa das classes médias.

Sei que parece dramático, retirar ilações tão generalistas apenas sobre a arquitectura. Mas o Porto do Império nunca se permitiu ser como os outros. Gaia já é uma cidade dessa espécie. Apenas prédios de 30 andares, com duplex e garagem, acesso fácil à auto-estrada, situados numa zona segura e perto de boas escolas.

Matosinhos, principalmente na zona costeira, os sinais são os mesmos. O espaço outrora ocupado por casas e solares e palacetes burgueses, agora e ocupado pelo delírio artístico de empresas de construção civil.

Ir dos arredores para a Baixa do Porto, é mais do que uma viagem, é uma travessia. O mapa demográfico das cidades agora formam “donuts”, dizem, os centros das cidades têm custos de vida mais caros.

Citando Vinícius de Moraes num outro contexto: “as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. A arquitectura moderna dos prédios residenciais nos grandes centros urbanos é pobre. São linhas rectas completando formas geométricas perfeitas, preenchidas por cores modernas. É ergonómico. E também enjoativo.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Genial, pá!

Blasfémias

Sobre a esquerda bloquista e comunista.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A Sócrates o que é de Sócrates

De Sócrates, tudo se falou. Se era corrupto, sobre as manchas de suor, sobre o vício do tabaco, dos familiares e da formação académica. Até as férias da pobre criatura estão sob escrutínio mediático agora.

O editorial da Revista Sábado desta semana refere que os Primeiros-Ministros de Espanha e Reino Unido vão limitar as suas férias a "alguns dias". Dizem que, face à decisão de José Sócrates de desfrutar de 15 dias de férias num hotel de Luxo no Algarve, ninguém pode impedir os portugueses de julgá-lo.

O texto diz ainda que Sócrates deveria ter sido solidário com o povo a quem retirou os apoios sociais. Deveria ter encurtado as férias. No fim referem que não é demagogia - é bom senso.

Bem, eu leio a Sábado todas as semanas. No entanto, nunca levo a sério o que escrevem. É impossível respeitar uma publicação que utiliza ironia barata em editoriais.

Sócrates tem o direito inalienável a desfrutar de 15 dias de férias. No final do dia, debaixo de toda a treta, detrás de todas as notícias, está lá um homem. Um homem que desempenha uma função, para a qual foi eleito duas vezes.

Alguém que, na sua condição de ser humano, tem uma vida finita. Um homem que no final do dia, quando se fazem as contas, está simplesmente a manejar o barco da melhor maneira que pode.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Berço do meu bom humor

Já perdi a conta de quantas vezes fiz, refiz e fiz outra vez o trajecto Portugal-Brasil, Brasil-Portugal. Por esta altura eu já consigo recitar o menu da TAP a dormir e consigo imitar o discurso do capitão, palavra por palavra. Por vezes, quando estou bêbado, consigo fazer uma imitação perfeita das hospedeiras de bordo da TAP.

Olhando para baixo da janela do avião, vejo o Estádio da Luz, depois o Estádio de Alvalade, e depois oceano e mais oceano, num azul infindável que só acaba 9 horas depois. No momento que o meu pé toca o solo brasileiro, o meu humor muda completamente. O chão é mais quente, o ar é mais quente, as pessoas são mais quentes. Dá vontade de beijar o chão. Tudo faz-me sentir em casa. Aqui, todas as pessoas usam roupas leves, estão de bom humor e em questão de sorrisos e cordialidade, aqui é Natal todos os dias. O Brasil é o berço do meu bom humor.

Logo na chegada ao Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro/Galeão – Antonio Carlos Jobim é possível notar uma diferença. Os passageiros do voo, maioritariamente divididos entre portugueses e brasileiros, são separados para o controlo alfandegário. Brasileiro para um lado, estrangeiro para o outro. É sempre engraçado observar os meus pais, na fila gigante de portugueses, de passaporte na mão, à espera de poder entrar em terras tropicais. Se algum decidir seguir a carreira de criminoso, sempre posso fugir para o Brasil, à la Fátima Felgueiras.

A existência por lá pacifica e divertida. Os únicos momentos frenéticos que para mim existiram foram a andar de carro. Não tenho a certeza, mas acho que a minha mãe aprendeu a conduzir no caos do trânsito carioca. A habilidade da minha mãe como condutora de carros é algo assombrosa. Conduzir no Rio é um desafio aos sentidos. Carros por todas as direcções, não se respeitam leis de trânsito, o que ali impera são as leis da selva. É um chamamento de Darwin, na natureza só sobrevivem os que melhor se adaptam.

Lembro-me dela a buscar-me na escola, ouvindo o rugido do motor do nosso carro. Era um Chevrolet Kadett humilde, mas sob o controlo das mãos e pés da minha mãe, qualquer carro ganha imediatamente pujança extra. Numa tarde qualquer no Rio, ao observar o carro da frente a ser assaltado numa paragem de sinal vermelho, a minha mãe rapidamente encetou por uma corrida desenfreada no passeio, desviando-se de sinais de trânsito e pessoas.

Mas não é na violência social que se nota a diferença entre Portugal e Brasil. É na língua.

Falar português do Brasil é um exercício de fluidez e simplicidade. O brasileiro fala como quem deixa cair coisas. É sem querer, não existe uma intenção. É um acto automático, um reflexo pavloviano possuído de sentimento humilde e caloroso. O Eça já o disse, é “português com açúcar”.

Falar português original é como declamar poesia, com extremo cuidado nas entoações, na poupa e na atitude com que se fala. Há uma espécie de relação colonizador-colonizado que é possível sentir quando um português conversa com um brasileiro. O português de Camões é telúrico e aristocrático. Mesmo o português ignorante das aldeias isoladas do Minho é quase um cântico religioso em latim. É pomposo, mas singelo na sua graça.

O português fala como se tivesse um peso nas costas, uma cruz que carrega na crucificação do dia-a-dia. O brasileiro fez questão de deixar o fardo masoquista bem longe. Mais precisamente, a sete mil quilómetros de distância, com um oceano inteiro entre o caminho.

Muita gente reclama da violência do Brasil. Eu, já habituado a isso, confirmo e aceito. Mas dê-me aquele medo de passar na Linha Vermelha, ou aquele frio na barriga quando vemos de relance a entrada de uma favela, porque eu prefiro isso ao tédio intragável da resignação. O Rio de Janeiro é uma cidade em guerra, mas por lá, luta-se pela felicidade. E se analisarmos bem a questão, é única luta que vale a pena lutar.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Dizem que nalgum lugar, algures em Vila Verde, vive um homem feliz

Os meus pais são originários de duas aldeias em Vila Verde, Braga. São as aldeias de Oriz São Miguel e Ponte de São Vicente, uma seguida da outra, uma exactamente igual a outra.

As estrelas no céu de Oriz São Miguel e Ponte São Vicente são como os brinquedos pendurados no berço de uma criança. Ainda me lembro da minha avó a apontar para o céu e destacar três estrelas seguidas em linha.

- São as Três Marias, filho.

E eu, a apontar também o dedo à constelação, ingénuo sobre a superstição popular.

- Não apontes, que nascem-te verrugas nos dedos, filho.

Nessas terras existem apenas dois cheiros na natureza. O cheiro da terra molhada, sempre acompanhada do som da água a correr nos regos. O cheiro arbóreo e herbáceo, de campos de margaridas e bouças de pinheiros.

Já avisam no nome da cidade. Em Vila Verde, os campos verdejantes lustram a paisagem num contínuo galopante que desafia os limites do olhar humano. O sinal que marca a entrada em Vila Verde grita: “Respire fundo, está em Vila Verde!”.

Os vilaverdenses são assim, é um povo que cumprimenta com pontos de exclamação. Nas romarias e bailaricos, Baco olha orgulhosamente para os seus súbditos, encharcados em vinho tinto caseiro e, por isso, com grande teor alcólico. Potenciadas pela música popular de concertinas e cavaquinhos, as festas vilaverdenses ganham às vezes contornos de orgia e depravação, como se aqueles pequenos homens de Deus contivessem a alegria ao longo do ano duro, cheio de milho para plantar e mato para roçar.

As mulheres são matriarcas existenciais, muitas vestidas de preto em luto, outras de lenço à cabeça. Os homens de Vila Verde são dramáticos. Discutem política com a polémica a correr nas veias, com vozes operáticas e ânimos exaltados, num espectáculo que todos assistem indiscretamente. Para um vilaverdense é tudo uma questão de vida e morte.

Eu, nessas terras, sou sempre uma criança a correr pelos campos de milho enquanto estão a ser irrigados no Verão, a beijar a pouco higiénica Cruz de Cristo na Primavera, a andar pelos tapetes de folhas secas e crocantes no Outono, e a jogar cartas à lareira no Inverno. Vida simples, vida fácil, vida feliz. Não há muitos outros locais do planeta sobre o qual eu possa dizer isto.

domingo, 1 de agosto de 2010

O único pecado grave que cometi (Desculpe, Padre Fernando!)

Uma vez roubei uma carteira quando tinha oito anos. Não magoei, nem ameacei ninguém. Simplesmente peguei numa carteira que tinha sido esquecida numa mesa momentos antes.

A justiça é cega, ou funciona mal, já nem sei bem como é esse ditado. Mas, para a justiça, cega ou inútil, aquilo seria um crime. Um crime premeditado, planeado e executado por uma criança de 8 anos, de nome Leandro, no bairro de Ipanema na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, em 1998.

Sei que hoje roubar é quase cultura. Todos roubam chiclets, ou um brinquedo inútil numa loja dos chineses. Mas o meu crime sempre me pareceu com uma piada cósmica, algo engendrado pelo próprio Deus, um sinal, um pequeno prenúncio do destino, um aviso para o que o futuro poderia ser.

Transgredi um código social moral, um mandamento cristão, judeu, árabe, um acto imaturo e desonrado segundo os princípios budistas, taoistas e hindus. Pior, no mundo muçulmano ficaria sem uma mão. Na minha casa, teria levada umas palmadas.

No meu lar infantil as ameaças de castigo dos progenitores eram bastante peculiares. Lembro-me da minha mãe, inflada de raiva, a dizer que poria pimenta na minha língua se eu não parasse de falar palavrões. Era sempre uma confusão. O meu pai a pedir-me para dizer palavrões, quando eu era muito pequeno, provocando a risota generalizado dele e dos meus numerosos tios. A minha mãe não reagia da mesma forma, antes ameaçava temperar a minha língua para churrasco.

As ameaças da minha mãe eram vazias, claro, consigo-me lembrar claramente de observá-la, de avental, na sala, deixando escapar um riso, quando eu disse o meu primeiro “foda-se”, reagindo à derrota do Vasco da Gama frente ao Flamengo, na final do Campeonato Carioca de 1996.

Os meus tempos no Brasil, sempre me pareceram memórias de uma vida exótica. O Brasil, pelo menos na minha cabeça, era uma colónia portuguesa, tal era o tamanho do contingente da Família Silva por aqueles territórios.

E a carteira? Estava vazia, não tinha absolutamente nada, dei-a à minha mãe. Ela, que na sua gratidão ingénua, pensou ter recebido um presente genuíno. E os palavrões? Continuam presentes no meu discurso, talvez em demasia, mas foda-se, às vezes um homem tem que mandar as regras para o caralho. Mesmo sob a ameaça de pimenta na língua.

A minha pátria é ser português

Há no povo português uma individualidade extraordinária. Não vemos o nosso país de origem como uma figura paternal ou maternal, detentora do nosso respeito e obediência. Vemos a nossa nacionalidade como uma condição genética, inerente ao sangue, algo que verte pelos poros.

A alma dos portugueses não é uma ideia religiosa. A alma dos portugueses é a alma lusitana – uma ideia patriótica. É um imaginário cultural complexo cheio de predisposições melancólicas e saudosistas. Os portugueses vêem-se como donos de um país inferior e que de algum modo, este deverá merecer que os portugueses habitem o seu solo.

Nas costas arqueadas e frágeis do português, a Cruz de Cristo já palmilhou mundo e meio. Inventamos uma globalização, criamos um império maior do que os sonhos, que caiu em declínio, mas deixou uma marca: a imensidão da alma portuguesa.

Basta um português no Burkina-Faso, para esse país se transformar numa colónia portuguesa. Não é um homem, é um contingente português, portento de poderes legislativos, judiciais e executivos. O povo português é uma rede diplomática, todos são representantes máximos em pleno direito não de Portugal, mas da nacionalidade portuguesa.

No entanto, cada português faz tudo por si. Não o faz pela pátria, não o fez por Portugal, fá-lo por causa de ser português. E ser português é uma luta. Uma luta contra um egoísmo pessoal, um exercício prolongado de responsabilidades inerentes à condição portuguesa. É um povo que poderia viajar para qualquer lugar do planeta e recomeçar uma história quase completa.

É isso, caros compatriotas. A nossa pátria não é Portugal. A nossa pátria é uma acção, não um estatuto. A nossa pátria é ser português.