sexta-feira, 30 de julho de 2010

Psicanálise Nacional



Um homem chamado Miguel Torga realizou uma psicanálise à pátria que chamamos Portugal.

O resultado está inscrito neste fabuloso e prodigioso livro.

"- O Porto? - dizia ela. - O senhor já viu no mundo terra mais bonita e gente mais séria?"


"Se todas as terras do mundo tinham o seu cartaz gustativo - queijadas, ovos moles, arrufadas, morcelas e pão-de-ló, para dar alguns exemplos -, o Porto tinha dois. Um, grosso, terroso, sujo como a trivialidade da natureza - as tripas; outro, subtil, etéreo, imponderável como a própria magia - o vinho fino. Um para a exigência das nossas pançadas lusitanas; outro para a sede sem fim da secura universal."

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Diálogo interior sobre a entrada da Guiné-Equatorial na CPLP

- A Guiné-Equatorial quer entrar na CPLP.
- Não sabia que se falava português lá.
- Pois, aquilo já foi uma colónia. O Presidente decretou a língua portuguesa a 3ª língua oficial.
- O que isso quer dizer?
- Quer dizer que o português vai ser ensinado nas escolas.
- Que escolas?

terça-feira, 27 de julho de 2010

Morra o Calor, morra! Pim!

Aqueles que não acreditam no aquecimento global já não têm justificação para tal descrença. As temperaturas já não são altas. As temperaturas já fugiram de qualquer escala ou possível medição. Antes, ir à praia era uma actividade horrível. Era um sofrimento redutor. Consistia simplesmente em ir ao ponto de intersecção entre a terra e o mar, retirar as vestes e deixar que o sol fizesse o seu trabalho.

No entanto, por estes dias sair de casa já é um suicídio, quanto mais ir à praia. Alguém que telefone a São Pedro, ou mesmo ao Diabo, e façam o favor de lhes dizer que alguma coisa está a correr mal. Não sei se São Pedro estragou o termóstato ou se o Diabo finalmente chegou à Terra e trouxe o Inferno junto com ele.

Ontem fugi de Braga para o Porto, pensando que teria um alívio do calor assassino. Nada está mais longe da verdade. Em Braga estão 40ºC, no Porto estavam 38. A minha mãe, que é pessoa para ficar o dia inteiro, do nascer ao pôr-do-sol, está eufórica.
Corro o risco de morrer, não de insolação, mas de fome, visto que as temperaturas só estão agradáveis por volta da meia-noite. Ir ao mercado já não está no horizonte. A água que bebo sai da torneira, às vezes amarela, outras vezes avermelhada, mas este tempo não dá para luxos.

Assim que o meu corpo atravessa a porta do prédio, o calor que se sente não é forte ou simplesmente quente: é desértico, é apocalíptico. Sou criatura caseira, bem sei, já tentei lutar contra esta maleita, mas não adianta, o ócio fala sempre mais alto. Com essa predisposição não há remédio. Só me dou bem sob temperaturas amenas, não adianta lutar.

É tortura. O tuga madruga nas férias para apanhar o solzinho matinal, mas eu, meu deus, só me vêem lá quase contrariado. Peço desculpa aos amantes de praia, mas eu nunca quis participar num assado colectivo. No momento que a pele encontra os raios de sol, imagino bolhas vermelhas de ebulição a surgirem em mim, já consigo observar-me 10 anos depois a enfrentar o olhar de reprovação do dermatologista ao verificar que o sinal nas costas é mesmo melanoma.

Vejo as peles vermelhas, as pessoas já parecem lascas de bacon a fritar na frigideira e o mar, que poderia ser salvação, é a ponta contrária do desespero. A água não é refrescante, não acalma, não apaga o fogo. A água do mar congela, chega até aos ossos tal é o carácter negativo da temperatura.

Praia apenas existe para mim quando besuntado com protector solar factor 1000. Mesmo fora dela, o suplício não cessa. Os cafés se transformam em oásis refrescantes, o ar-condicionado é um convite à inactividade. À sombra de uma simples árvore imagino-me num bosque verdejante e musgoso, com brisas frescas e perfumadas a ecoar pelos troncos ocos de árvores.

Vejo as pessoas com toalhas enroladas na cabeça e percebo que para isto se tornar num deserto só nos faltam os camelos. Alguém que avise a Galp. Não me surpreenderia se encontrassem petróleo no Alentejo.

Céu Limpo

Meteorologia não é assunto que interessa a qualquer um. Tirando a previsão meteorológica e os furacões, a maioria dos mortais não se interessa pelo engraçado campo da meteorologia.

A expressão “céu limpo” sempre me apaixonou. É a língua portuguesa a fazer das suas, com as subtileza e doçura que Cervantes uma vez a qualificou.

O céu, azulzinho e sem vestígios de nuvens, aqui chama-se “limpo”. Em inglês a expressão é “clear skies” ou “céu nítido” ou “vazio” ou “visível”. Em português o céu é limpo como se as nuvens fossem sujidade, e como tal, indesejáveis.

Como se as nuvens devessem ser eliminadas, o que é irónico, porque a limpeza normalmente é associada ao branco, a cor geral das nuvens. Em Portugal é assim. O branco é azul. O limpo é azul. Em Portugal, o céu azul é limpo e as nuvens brancas são sujas.

O céu azul é lindo, mas foda-se, como eu não suporto praia.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Bancos e Exames Rectais: Uma História de Amor

Acabei de chegar de uma ida ao banco. Por favor, matem-me, dêem-me um tiro na cabeça, cortem-me a garganta, atropelem-me, afoguem-me, atirem-me a um precipício, alguma coisa, qualquer coisa que faça a dor parar.

Os bancos são locais assustadoramente monótonos. Ouvem-se teclas de computador a serem prensadas, cliques de rato, riscar de canetas, tocar de telefones, separar de folhas e o irritante e torturante guincho das cadeiras de escritório. As cadeiras nos bancos são todas iguais. Ligeiramente ergonómicas, minimamente confortáveis e de qualidade estética duvidosa.

Existem apenas dois tipos de pessoas que trabalham nos bancos. Uns têm aspecto de 20 e poucos anos, provavelmente acabaram de começar a trabalhar, mas já se nota, já se nota o desgaste e o consumo da alma e da vivacidade humana. Os outros têm aspecto de 60 anos, são todos iguais, grisalhos ou não, com bigode ou não, carecas ou não, são todos iguais, acabados de sair da fábrica.

As frases nunca são declarativas: são arrastadas. Os diálogos são forçados a sair pela obrigação do trabalho. O ar é tóxico, como um consultório médico, cheira a cartão, tinta, papel e químicos que, com alguma certeza, devem ter propriedades soporíferas.

As filas de espera prolongam-se pela eternidade, desafiam o contínuo espaço-tempo, as leis da física e foda-se, desafiam o divino. Se Deus visionou os bancos durante os dias da Criação, com certeza teria pensado duas vezes. Provavelmente teria antes criado uns seres diferentes em Marte ou Vénus.

A interacção com um agente bancário é ver o monstro no fundo do abismo. No final da operação bancária, depois de tantos números e termos técnicos, eu já nem quero o meu dinheiro. Eu só quero sair com a minha dignidade intacta.

Chegarão os dias dos exames rectais, pois sendo homem, disponho de uma próstata (mais um falhanço do Nosso Senhor Jesus Cristo). Milhares de anos de evolução, inventamos aviões, fomos à Lua, chegaremos à Marte, mas caralho que me foda, ainda não inventaram um exame à próstata que não consista em enfiar dois dedos lubrificados pelo cu acima.

Pois, estava a falar de bancos e perdi o fio à meada. Chegarão os dias dos exames rectais e apenas aí existirá outra experiência que me retire as réstias de dignidade.
Sejam eles da Caixa ou do BCP, podem enfeitá-los com anúncios de crédito habitação com imagens de família felizes e bonitas, podem-me oferecer dinheiro, sexo e poder, mas meu deus, caralho e foda-se, evitarei todas e quaisquer oportunidades de ir ao banco.

O excesso de palavrões é feio, admito, mas não há palavras, juro que não há palavras para descrever o quão agoniante, entorpecente, calamitoso e mortificante é a experiência de abrir aquelas portas.

Quando chegar a minha hora e verificar que não há mesmo lugar para mim no céu, que o meu lugar é mesmo no Inferno, entrarei naqueles portões com o pé direito, passarei por aqueles portões feliz e extasiado. O Diabo com certeza não me vai falar das vantagens do Plano Poupança Reforma. Pois depois de ter passado pelas portas de um banco, nada me mete medo, com a excepção já referida dos exames rectais. Quanto aos exames, bem, resta-me ter esperança na raça humana.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Regras das mães d' Os Protagonistas

Os Protagonistas conversaram brevemente e notaram um série de semelhanças nas orientações ideológicas das suas respectivas mães:

1 – Nunca abrir nada que esteja por abrir quando já há alguma coisa igual aberta.
Ex: Abrir uma garrafa de Coca-Cola fresca quando já há uma garrafa só com o resto final sem gás e quente

2 - Toalhas e chão molhado não são dois conceitos compatíveis.

3 – Arrumar a cama tanto é apreciado, como obrigatório.

4 - Tirar os sapatos e cheirar o chulé não é um comportamento humano.

5 – Quando uma mãe oferece o fundo da panela durante uma refeição o filho deve obedecer cegamente e comer o resto.

6 – Os legumes no teu prato são para comer, não peças de Lego para arrumar.

7 - Deitar fora pão é pecado. Mas migalhas no chão é sacrilégio.

8 – O lugar de embalagens vazias é no lixo.

9 – O tampo da sanita deve ser mantido livre de urina, levantado durante o acto, e baixado no final.

10 - Os castigos a aplicar aos filhos variam da seguinte forma:
3 anos – Uma leve palmada na fralda
5 anos – Retirar o Game Boy
7 anos – Uma chapada mexicana
10 anos – Retirar as revistas pornográficas
12 anos – Ameaça de inclusão num colégio militar
14 anos – Prisão domiciliária à sexta-feira
16 anos – Expulsão de casa
18 anos – Cortar apoio financeiro
20 anos – Cortar relações


Regras do pai:

1 - Fazes merda, levas no focinho.

2 - Quando o pai pede ao filho para ir buscar uma cerveja, não é um pedido.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Uma composição de 9º Ano sobre os Descobrimentos

Há tantas coisas sobre as quais eu gostaria de poder escrever. Poder poderia, a criatividade tem mangas de sobra, mas seria como quebrar uma lei. Escrever sobre os exploradores portugueses, por exemplo.

Por mais que se fale dessa altura, de naus e caravelas, nunca existiu nenhuma retratação exacta do que se devia passar nesses barcos. Uma altura onde homens ficariam anos numa caravela, sem saber para onde iriam, numa altura em que crenças católicas e medo religioso impunham uma dimensão assustadora ao mundo, o mundo do desconhecido e o incerto.

Como se devem ter sentido esses homens, a maior parte deles pobres e socialmente inferiores. Como devem ter sido as privações de comida e água. O espaço pequeno que os sustinha na terra por tanto tempo. A pouca comida, a doença, a libido, o desespero e a loucura. Como se devem ter sentido esses homens, Vasco da Gama e Álvares Cabral e muitos outros. Formados para liderar homens, mas com certeza atormentados sobre se teriam a força para liderá-los.

Como deve ter sido as sensações dos marinheiros. Ora o pânico nas tempestades, a bravura na partida, a resignação com o tempo, a loucura imposta pela monotonia incerta e a saudade, não só dos entes queridos, mas especialmente de um simples contacto humano novo. A impossibilidade de descrever a emoção que os deve ter atingido quando depois de anos sob uma caravela, entraram na Baía do Rio de Janeiro, e testemunharam a beleza virginal desse lugar. Deus existe, devem ter pensado.

Por estas e muitas outras coisas, nunca poderei escrever sobre os Descobrimentos.

Pois esta, é a maior das aventuras de todos os tempos.

Neil Armstrong e Kennedy que me perdoem.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Uma celebração

Parabéns, Isaltino.

O Mundial da treta

Terminou mais um campeonato do mundo. Enfim, foi o que foi. Foi mesmo uma merda. Não tenho muitos termos de comparação com outros mundiais. O primeiro que me lembro conscientemente de ver foi o de 1998, ganho pela França. Mas mesmo assim foi fácil perceber que este realizado na África do Sul foi uma valente merda em termos futebolísticos. Ganhou a equipa que jogou menos mal, não a que jogou melhor. Parece um pouco paradoxal, mas não é, porque deixo algumas equipas de parte, as que jogaram realmente bem, e sem essas, a Espanha foi a que jogou menos mal, mas não a que jogou melhor. Lá está. Mas dessas falo no parágrafo seguinte. A espanha foi fazendo sempre o estritamente necessário até chegar ao título, o que mete muito nojo, principalmente tendo em conta que também perdemos contra os espanhóis. Apesar disso, não lhes quero retirar mérito, e admito alguma justiça na atribuição deste troféu. E apesar de ter torçido pela Holanda, foi-me completamente indiferente o resultado final. O último jogo desta copa foi a imagem perfeita daquilo que ela foi. Entediante, aborrecida e desmotivadora. Poucos jogos me despertaram o mínimo interesse, e menos foram aqueles que me deixaram verdadeiramente empolgado.

A Alemanha ficou em terceiro lugar. Outra vez. Mas merecia mais. Apesar de não ser mau de todo, o terceiro lugar não passa disso. A Alemanha apareceu em território sul-africano renovada, com uma equipa mais jovem, mais dinâmica e mais atractiva. Gostei de ver. Tive pena que não chegassem à final, mas, como já disse antes (eu e mais 500 mil pessoas), o futebol é mesmo assim. Foi por isso uma das poucas equipas que jogou bem. Acabou por ganhar a um Uruguai com garra e vontade de ganhar surprendendo tudo e todos. Por isto são a segunda equipa na minha curta lista de boa equipas deste mundial. E mesmo perdendo no jogo de atribuição de terceiro e quarto lugar, saíram de cabeça erguida, inclusive Forlán, que apesar daquela triste bola à trave no último minuto levou para casa o troféu de melhor jogador. Nada mau para uma equipa que teve de disputar o playoff para chegar à África do Sul.
Outra das equipas que surpreendeu bastante pela positiva foi o Gana. Adorei ver esse país africano a jogar. Tive muita pena que não chegassem mais longe, e teria gostado de os ver disputar um lugar na final com a Holanda, como aliás mereciam. As duas últimas equipas que integram este meu lote pessoal de equipas "fixes" são o México e o Chile. Ambos perderam nos oitavos de final, mas gostei de ver.

Uma das maiores surpresas, para mim, foi a Eslováquia. Num grupo complicado, que contava com a Itália (que merda valente!), acabaram por surpreender chegando aos oitavos. Não está na minha lista anterior, mas foi uma boa surpresa.

A maior desilusão foi, apesar de tudo, a nossa selecção. Podia falar da França (que merda valente!), mas, sem me querer armar em polvo, já previa antes do mundial que uma merda do género acontecesse. Não contava que a Itália (que merda valente!) fizesse uma campanha tão má, mas também não quero saber. Se calhar deviam olhar um pouco para o exemplo da Alemanha e remodelar a equipa. Mas como português a minha maior tristeza foi mesmo Portugal. Por tudo o que toda gente já fez questão de frisar, e por isso não me adianto muito mais neste assunto. Mas não queria deixar de atirar um cagalhão mental à cara do Ronaldo. Fica a nota.

Também como português, uma das maiores alegrias foi a goleada frente aos norte-coreanos (que merda valente!). Foi de resto a única coisa que me alegrou na campanha dos "navegadores". Mas também fiquei super contente com a derrota argentina (que merda valente!) por 4-0 frente à Alemanha, como já fiz questão de evidenciar num texto anterior. Merdona, perdão, Maradona foi para casa com o rabinho inflamado. Que delícia!

De resto, este mundial serviu para mostrar que Sneijder merece disputar a Bola de Ouro da FIFA, assim como Xavi e Iniesta. David Villa mostrou que o Barcelona vai ser, provavelmente, ainda mais mortífero na época futebolística que se aproxima. Forlán mostrou que devia, no mínimo, voltar ao Man United. Cristiano Ronaldo mostrou que tem um cagalhão em vez de um cérebro e que não é tão bom jogador como o pintam. Messi comprovou que na selecção também não faz nada de jeito.

E calo-me porque fiquei farto de falar desta treta que foi o África do Sul 2010.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Pero que mala suerte

Consigo entender a espectacular exibição do tal que dará pontos ao Benfica, frente ao Sion. Para quem viu o jogo, deve ter reparado que o equipamento do guarda-redes(?) dos "futuros-bicampeões-de-Portugal-e-do Mundo-e-do-Universo-e-béu-béu-pardais-ao-cesto" era completamente verde, o que já de si explica muita coisa.

Para a próxima, sugiro a este rapaz que adopte a metodologia do guarda-redes mexicano Oscar Pérez e treine com bolas de rugby, para se habituar ao terror redondinho que é a Jabulani. De certa forma seria útil, já que o rugby, para mim, é desporto de gente bruta e meio tosca, pelo que tenho a certeza que o futuro clone do namorado da jornalista espanhola boazona se sentiria galvanizado e teria mais "ganas" de agarrar bem a "pelota" em forma de melão. Um melão do tamanho daquele com que ficou Jorge Jesus depois de assistir à performance deste fabuloso "portero". Hmmmmm talvez porteiro seja uma boa profissão para ele, já que no futebol...

Em Madrid, lá para os lados do Vicente Caldéron, o senhor Flores já deve estar as esfregar as mãozinhas, tal o assalto feito aos cofres da Luz. Por isso, acho que para mim o guardião(?) da baliza benfiquista, até prova do contrario, vai chamar-se "Rouberto".

A boa notícia é o que o Moretto assinou dois anos pelo Olhanense. Como tal, estou ansioso para assistir ao épico tête-à-tête que será o duelo entre o Benfica e os algarvios. Nesse dia estarei longe de substâncias que façam rir, ou arrisco lesões graves nos maxilares e no torax.

domingo, 11 de julho de 2010

Polvos e periquitos videntes

Se não tivesse bastado a febre das vuvuzelas, agora também tinha que vir isto e isto.

É como diz o meu avô: em que raio de manicómio vivemos nós?

sábado, 10 de julho de 2010

Who's your daddy?

Carlos Queiroz sobre as suas declarações sobre Cristiano Ronaldo: "Há algum pai neste país que nunca tenha dado uma reprimenda a um filho?"

Carlos, colega: os portugueses não estão chateados por tu castigares demasiado o Ronaldo; o problema é precisamente castigá-lo pouco. Ele não é um menino disciplinado; é mimado e insubordinado. Tu ao lado do Scolari, não o reprimendes; dás-lhes doces quando ele chora, permites que ele deixe comida no prato e fica acordado até às horas que quiser, até porque pode ir para a escola de helicópetro no dia seguinte.
Scolari defendia os meninos quando estes estavam prestes a apanhar de um sérvio. Mas definitivamente não os defendia quando, como o Ronaldo, viravam as costas à bola. E as reprimendas não era públicas, eram no conforto de um balneário que, ainda que não tão cheiroso como uma sala de imprensa, é bem mais recatado.
Scolari, como treinador, está ao nível de um Chalana, não apenas no que toca a questões tácticas e metódicas, como no que a pelos faciais diz respeito. Mas puxava de tal forma as orelhas dos jogadores que Ronaldo, com aqueles brincos magnânimos, não teve outra hipótese senão dar o litro.
Eu compreendo a aversão a dar cachaços num cabelo tão empastado de brilhantina, mas é para isso que serve a velha fivela do cinto.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Uma interpretação cultural da golden share na PT

De acordo com uma sondagem online realizada pelo Público, cerca de 70% das pessoas inquiridas concordam com a decisão do Governo de vetar a aquisição da Vivo por parte da Telefónica, utilizando os direitos especiais conferidos pela golden share.

No entanto, a maior parte dos artigos de opinião de economistas e afins que tenho lido, em blogs e jornais , é contra o veto. Estas opiniões podem ser sintetizadas do seguinte modo:

1 - A venda da PT foi aprovada pela grande maioria dos accionistas
2 - A proposta da Telefónica representava quase a totalidade da capitalização bolsista da PT
3 - A utilização da golden share foi uma medida quase ou mesmo ilegal, na medida, que vai contra o princípio da livre circulação de capitais dentro da UE

É fácil interpretar ambos lados desta discussão. A maior parte dos portugueses concorda com o uso da golden share através da racionalização que basicamente pode ser reduzida a estupidez: a maior parte dos portugueses desconfia dos espanhóis que estes querem roubar a Vivo.

A outra parte desta racionalização portuguesa é igualmente simples e estúpida. É melhor para nós e para a economia portuguesa que basicamente a Vivo seja de uma empresa portuguesa. Porquê? Porque sim. Pela mesma razão que uma criança não deixa outra brincar com seu brinquedo novo. Porque é meu. Porque é nosso.

Eu sou bastante leigo em economia, mas acho que a decisão do Governo de vetar o negócio foi tão estúpida como os portugueses que representa. Como foi aqui referido, apesar da Vivo contabilizar 72% dos clientes da PT, esta apenas representa 40% dos lucros. O mercado português representa 28% dos clientes mas 60% dos lucros.

A PT, que gere um monopólio protegido pelo Estado, apresenta um serviço muito caro para o consumidor. Como todas as outras coisas em Portugal, o serviço da PT é muito mais caro do que realmente deveria ser. A única coisa entre a PT e o consumidor são os reguladores. O Estado cumpre a sua parte e afasta toda e qualquer concorrência.

Sócrates pode muito bem andar por aí a gritar "interesse estratégico" ou "interesse nacional". Pode acusar o PSD de ser neoliberal pelas posições que tomou face ao negócio e face à discutida reforma constitucional. Eu, por mim, nem sei muito bem. Mas acho que antes ser neoliberal do que estúpido.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Red Bull No Race


Deus, a existir, escreve efectivamente direito por linhas tortas. A omnipotência do sujeito permite estes luxos, e o Senhor parece querer mesmo agradar a todos. Eu, de resto, não me posso queixar do que ele tem feito por mim, e ainda mais grato fiquei depois de ler a notícia de que a etapa do Red Bull Air Race que se ia realizar nas margens do Douro foi cancelada, sem apelo nem agravo. Depois de toda a espectacular polémica envolvendo o local do evento, num braço de ferro ao qual eu chamo "Batalha dos Aviões" na Guerra Porto-Lisboa, eis que a justiça fez das suas e aparentemente ficam todos a perder.
Todos menos eu. Acontece que eu moro a quinze minutos a pé do cais de Gaia, e a aglomeração é tal que, no dia do evento, não posso ir comprar o jornal sem ser apanhado por uma fortíssima corrente em direcção a um imenso mar de cabeças, suor e garrafas vazias. Desde a primeira vez que o evento se realizou cá, 2007 salvo erro, que tenho de passar um fim-de-semana por ano a levar com uma banda sonora de tal forma saturante que a vontade é colocar o som de vuvuzelas no mp3 e não tirar os phones. Aviões deixaram de ser interessantes para mim a partir do momento em que fiquei muito velho para os fazer usando enunciados dos testes, na sala de aula.
Receio, no entanto, uma onda divina por uma justiça igualitária. Nesta batalha da guerra Porto-Lisboa, acabou por não se ficar ninguém a rir de satisfação (excepto eu). No caso da transferência do Moutinho para o Porto, receio que essa busca por decisões salomónicas o leve, por exemplo, a lesionar o jogador. Se assim for, que um dos aviões do Red Bull voe mais alto e lhe acerte num olho.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Uma breve mensagem para Larissa Riquelme



Larissa Riquelme, também conhecida como a bela mulher paraguaia que guarda o telemóvel entre os seios, acabou de garantir que, mesmo com a eliminação do Paraguai no Mundial, ela vai manter a promessa de desfilar nua em homenagem ao valioso e heróico esforço da sua selecção.

Eu gostaria de lhe enviar a seguinte mensagem:

Em primeiro lugar, gostaria de lhe dizer que tenho a certeza que milhões de homens à volta do globo estão a rejubilar com esta notícia. Eu próprio admito de bom grado que este acontecimento não me desagrada nem um pouco.

No entanto, chegará um dia, não muito distante, em que o mundo ficará farto dos teus seios. Se aconteceu à Pamela Anderson, pode muito bem acontecer a ti.

Por isso, minha querida, aproveita bem estas tuas duas semanas de fama. Com sorte amealharás dinheiro suficiente para comprar uma daquelas bolsas para guardar o telemóvel. Com muita sorte poderás mesmo aprender que os bolsos que tens nas calças servem para guardar coisas.

Mas caríssima Larissa, por favor não digas que te vais despir pela Selecção do Paraguai. Tu vais desfilar nua por ti e pelas capas de revistas masculinas que com certeza vais conseguir. Acima de tudo, vais desfilar pela tua conta bancária. Beijinhos.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Liga Carbonatada

Ora após longo interregno com fins meditativos heis que o desporto me forçou novamente a escarrar novo palavreado. O último mês tem sido longo e aborrecido em termos futebolísticos, mas hoje voltou a despertar-me a atenção. E não foram os principais palcos do desporto-rei a despertar o meu interesse. O apelo veio daquele campeonato, por costume, a cinco jornadas do fim os 7/8 primeiros estão ainda e apenas separados por meia duzia de pontos e que, apesar das fortes emoções subjacentes, raramente se juntam mais que, vá, umas 1000 pessoas para assistir a esses jogos nos estádios. Pois é, é a Liga de Honra Portuguesa, que hoje já me tirou o sono quando li o comunicado oficial que anunciou a mudança de nome da mesma.

Sempre achei que Liga Vitalis até era um nome com estilo, ao contrário da outra Liga, que pelo nome, pode dar a entender aos menos esclarecidos, que se trata de um campeonato composto apenas por equipas de certa localidade algarvia.

O contrato com a empresa de água engarrafada acabou e qual o novo patrocinador? A empresa de refrigerantes Orangina. Portanto a Liga Vitalis passa a chamar-se Liga Orangina...

Não é nada de verdadeiramente relevante mas, pelo menos eu, covilhanense de nascença, não poderei voltar a dizer "Hey o Sporting da Covilhã não vai descer da Vitalis". Vou passar a dizer "Este ano o Sporting da Covilhã ganha a Orangina". Quanto a mim substituiu-se a pontinha de estilo do nome Vitalis por ahmmm, diria um je ne sais quoi de parvoeira. Já imagino as conferências de imprensa de Augusto Inácio, treinador do Leixões, com uma garrafinha de suminho Orangina ao lado do microfone.

O contrato de patrocínio da Carlsberg à Taça da Liga também terminou recentemente. O que é que vem aí? Frisumo Cup? Taça Joy? Taça Água das Pedras?

Para terminar deixo uma sugestão aos restantes autores deste blogue: que tal experimentarem trespassar-se uns aos outros com os respectivos orgãos fálicos?

Só falta o David Luiz

João Moutinho é mesmo reforço do F.C.Porto. Foi confirmado ontem à noite e os valores envolvidos nem me parecem descabidos. Aliás, até acho que foi um bom negócio. Para os dois clubes. O Sporting ganha algum fôlego financeiro e um jogador com bastante margem de progressão (Nuno Coelho), sobre o qual recaem algumas expectativas elevadas sobre o seu futuro, além de aliviar a tensão que crescia entre o próprio clube e o jogador que agora se despede de Alvalade. E o Porto ganha um elemento importante numa altura em que urgia a necessidade de colmatar a quase certa saída de Raul Meireles - deve estar para breve- e que o meio-campo dos dragões parecia ficar algo fragilizado.

Parece que muitas figuras de proa sportinguistas e mesmo adeptos ficaram bastante aziados com a saída do médio proveniente das camadas jovens leoninas. Alguns até se lembraram de começar a criticar o agora jogador do Porto.
O que não podem esquecer é que o Moutinho foi um dos jogadores mais importantes nas últimas épocas do Sporting, senão mesmo o mais preponderante. A sua polivalência no meio-campo salvou Paulo Bento de muitos problemas, e mesmo nesta última época o jogador foi essencial. Fez cinco épocas ao mais alto nível, sem lesões (?!) que afectassem não só o crescimento dele no seio da equipa como o da própria equipa.

Na minha modesta opinião, houve três pedras fundamentais na equipa do Sporting que impediram muito provavelmente que equipa ficasse abaixo da "linha de água" - que para um clube grande será sempre o último lugar a dar acesso a uma competição internacional -, e por pedras leia-se jogadores. Foram eles Moutinho, Liedson e Ismailov. O primeiro já saiu, e o segundo já parece acusar o peso da idade, apesar de ainda dar para marcar alguns golos num campeonato tão competitivo como o nosso. Resta o último. Fico curioso para ver como Paulo Sérgio irá montar a equipa, ele que pelos vistos quer uma verdadeira revolução no plantel.

Eu não elogio o Muotinho por de repente o ver como jogador da minha equipa, sempre achei que era um bom jogador. O único defeito que sempre lhe apontei, e que por vezes me dava vontade de lhe bater, é o facto de ser um verdadeiro "chorão". Atirava-se para o chão ao minimo toque adversário e se possível arrastava-se até à grande área inimiga, procurando a sorte através da birra. Espero realmente que isso se resolva por cá, porque tirando isso é o reforço ideal para o Porto.
Mas também fico algo apreensivo com o investimento feito pelos dragões nesta paragem de verão. Já gastaram 13 milhões, e os valores da transferência de James Rodriguez ainda não foram oficializados, não devendo ficar abaixo dos 5/6 milhões. Se juntarmos à equação as possibilidades Walter e Kleber, mais de 20 milhões serão gastos certamente. Dinheiro que terá obrigatoriamente de obter retorno desportivo, porque, tendo falhado o Campeonato e a Liga dos Campeões, a equipa não tem muita margem de manobra.

Apesar disso, e digam que disseram, João Moutinho é sem dúvida o melhor reforço dos dragões neste defeso. É o jogador ideal para completar o meio-campo azul e branco, e com a recuperação de Ruben Micael parece surgir uma dupla portuguesa espectacular, com Fernando atrás a segurar o jogo. Esperemos que sim. Agora, com a provável saída de Bruno Alves, só me resta esperar pelo David Luiz.

domingo, 4 de julho de 2010

Toma lá, Maradona!

Nem o menino prodígio de Maradona lhe serviu de grande ajuda. Uma Alemanha pujante e decidida deitou por terra a fixação do técnico argentino em ser campeão mundial de futebol enquanto treinador da selecção alvi-celeste. 4 golos sem resposta foi mesmo o resultado ideal. Nem em sonhos tinha desejado algo tão delicioso. Ver Maradona "agarrado" à mensagem de Deus que a Argentina iria ganhar este mundial e a levar com 4 golos no focinho foi dos melhores momentos até agora na competição.

Este parece mesmo ser o mundial da Alemanha, independentemente do que acontecer. Segurança na defesa, excelente condução de bola na transição defesa-ataque, rapidez no contra-ataque e eficácia na concretização. São essencialmente estes os atributos que compõem uma equipa alemã que pela primeira vez gosto de ver jogar. Confesso nunca ter sido grande fã dos germânicos. Aliás, sempre foram uma espécie de "ódio de estimação" em todas as grandes competições internacionais de futebol. Nem sei bem porquê, mas queria simplesmente que perdessem. Mas isso mudou. Agora desejo que ganhem o mundial, não só porque merecem mas principalmente porque golearam a Argentina.

O Brasil já voltou para casa. É pena, mas deixem lá. Nós também voltamos. Irmãos unem-se nos momentos difíceis. Este foi um mundial completamente distinto para os brasileiros. Digo isto porque se apresentaram com um futebol super pragmático e também eficaz, embora não tanto como teriam gostado. Era de todas as equipas sul-americanas a que mais jogava ao estilo europeu. Se calhar a única, até. Com uma forte coesão defensiva e maior aposta no contra-ataque que no futebol espetáculo a que nos habituaram, o Brasil parecia apesar de tudo estar a adaptar-se bem a esse estilo de jogo. Cumpriu os requisitos mínimos para passar o respectivo grupo sem grandes dificuldades, e com o Chile parecia estar a subir para o ritmo necessário para chegar à final. Mas uma Holanda personalizada, a jogar um futebol a que também não nos habituou, abateu os brasileiros de forma impecável.
Enfim, da próxima jogam em casa. E nós também, porque somos da família.

O Uruguai-Gana foi possivelmente o melhor jogo deste mundial. Nenhum penalty alguma vez me deu tanta vontade de rir como o que foi concedido à equipa africana mesmo a acabar o tempo de prolongamento. Não só pelo desperdício como pela falta em si. Hilariante e tranquilizador para uruguaios e de cortar os pulsos para ganenses. De resto, o Gana fez, na minha opinião, o suficiente para merecer a passagem às meias-finais, mas o futebol é mesmo assim.

Já a Espanha cometeu dois sacrilégios em dois jogos. Primeiro mandou-nos para casa de pila murcha, e ontem tirou a todos os homens a possibilidade de observar a já famosa adepta do Paraguai Larissa Riquelme desnudada, ou pelo menos em trajes menores. Nada que uma busca no Google não resolva, mas não deixa de ser estúpido da parte dos espanhóis. Espero que saiam goleados da meia-final.

E se diziam que este seria o mundial da América do Sul, bem que se enganaram. Eu próprio cheguei a acreditar nessa possibilidade, mas a verdade tornou-se clara ontem ao inicio da noite: 3 equipas europeias nas meias-finais, contra uma sul-americana que não terá grandes aspirações a ganhar a "copa". A "Velha Europa", embora já de moletas, pregou uma rasteira a uma jovem América Latina, que, iludida com o fulgor jovial do início do campeonato, pareceu não querer ver a realidade: ainda que moribundos, os europeus - e falo sobretudo de holandeses e alemães - talvez tenham encontrado um antídoto para a morte: capacidade de adaptação e desenvolvimento progressivo. Portugal também precisa desse antídoto, urgentemente, mas não não me parece que o Queiroz deva ser o médico com a seringa.

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sexta-feira, 2 de julho de 2010

"Assim não ganhamos, Carlos" - Cristiano Ronaldo, um génio

Quando, ao vislumbrar a substituição de Hugo Almeida no minuto 58 do jogo Portugal - Espanha, Cristiano Ronaldo disse a Queirós - "Assim não ganhamos, Carlos" - o jogador parece não se ter apercebido do brilhantismo dessa sua frase desabafada. É a frase que resume toda a experiência portuguesa neste Mundial, mas já lá chegaremos.

Ronaldo, depois das últimas três épocas de glória, sucesso e masturbação mental, chegou ao Mundial com um estatuto, não de melhor jogador do mundo, mas de jogador de futebol mais pesquisado no Google. No Mundial, pareceu-me algo frustrado com a sua incapacidade de desempenhar a mais simples das tarefas - correr.

Ronaldo jogou bem em alguns momentos, mas a sua participação pode ser resumida como um esforço infrutífero, um conjunto de exibições tépidas, não por aquilo que o jogador fez mal, mas por aquilo que ele nem sequer tentou fazer.

No jogo com a Espanha, deus sabe que tivemos alguns bons momentos, onde Hugo Almeida desfere um sprint messiânico pela ala esquerda quase originando um golo. Almeida foi substituído pouco minutos depois.

Ronaldo, irado pela sua inacção, irado pela substituição de alguém que estava a retirar-lhe algum peso dos ombros, disse a pérola: "Assim não ganhamos, Carlos". Esta frase tem tudo: a resignação com que foi dita, o carácter pessoal com que foi tratado o treinador (minimizando-o a um nome próprio) e a certeza de que esta frase foi, de algum modo, dita por todos os portugueses a ver o jogo.

Ronaldo, apenas limitou-se a difundir a voz do povo, que como se sabe, no que toca a futebol, é a voz de deus. Foi uma catarse geral ao reconhecermos que nos deixamos levar por anúncios do BES e da McDonald's.

Esta história poderia ter um final feliz. Um final de aceitação. Mas não. Sabendo que a selecção chegaria às cinco da manhã no aeroporto de Lisboa, um grupo considerável de pessoas foi receber os náufragos.

Eu simplesmente não sei como existem pessoas neste mundo, que se dão ao trabalho de acordar de madrugada e dirigirem-se ao aeroporto para receber a Selecção, que depois brindarão com insultos brandidos com um megafone. Pessoas sem mais nada para fazer, decerto. Pessoas que vêem a selecção com um explosão concentrada de patriotismo, que é mal direccionado e acima de tudo, infantil. Cá está a realidade dura: somos um país de bebés patriotas. "Assim não ganhamos, Carlos", já dizia o poeta.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Lista de coisas que não deveriam existir

Pessoas que dizem que adoram a vida. Pessoas que dizem que vivem a vida ao máximo. Pessoas que dizem que vivem cada dia como se fosse o último. Bacalhau e todos os pratos relacionados com bacalhau, excepto bacalhau à Brás. Guimarães. Japoneses e sushi. Pessoas que iniciam todas as suas frases com a palavra “tipo”. Pessoas com pins e autocolantes a dizer “Free Tibet” ou "Legalize". Pessoas que usam t-shirts do Che Guevara. Pessoas que não pagam os impostos mas cantam “A Portuguesa” nos jogos da selecção. Pessoas com sotaque lisboeta. Monárquicos. Comunistas. Fascistas. Pessoas que dizem que Jesus é o seu salvador. Cristãos que são sardónicos ao dizer a uma criança que Pai Natal não existe. Natal, já agora, e Páscoa também. Cristãos evangélicos. Pessoas com tatuagens tribais. Pessoas com o nome dos filhos tatuado no braço. Pessoas com uma borboleta ou golfinho ou águia ou dragão ou sereia ou tubarão tatuado em qualquer parte. Vinho tinto. Whisky de cinco euros. Adultos que tocam vuvuzelas. Descoberta da falta de papel higiénico depois da consumação do acto. Próstata. Séries televisivas juvenis sem drogas, sexo e palavrões. Mulheres de fato e gravata. Pessoas que citam ou referem constantemente Fernando Pessoa, Bruce Lee, James Dean, António Gedeão, José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto, Nicola Cafés e Sumol. Idosas a contar moedas de um cêntimo na caixa do Pingo Doce. Homens de meia-idade com sapatilhas All-Star. Hip-Hop tuga. Pessoas que se manifestam quando um traficante de droga aleatório morre na Cova da Moura ou em qualquer outro lugar aleatório. Adolescentes vestidas de laranja quando o Dino morreu. Pessoas carinhosamente apelidadas de “J.P.”. Filmes de animação. Gorjetas. Vegetarianos. Globos de Ouro portugueses. Bárbara Guimarães. Artur Agostinho. Programas televisivos matinais com a presença de portadores de trissomia. Pizzas com ananás. Comer ao acordar. Ladrões que dizem: “Ei, ó colega, empresta-me um euro”. Bebidas gaseificadas. Leite frio. Pessoas que dizem que o Hulk é grande jogador. Chá de cidreira. Papas de sarrabulho. Pombas e gaivotas. Paulo Coelho. Fogos-de-artifício de meia-hora do São João. Blogs com uma música automática. Anúncios automáticos em sites. Comédias românticas, com a excepção de Annie Hall. Bancas de best-letters em aeroportos e bombas de gasolina. Kuduro. Discotecas em geral. Surf, bodysurf, windsurf, kitesurf, couchsurf. Palhaços. Uma menina de 5 anos a segurar uma boneca pelos cabelos num local abandonado. Recém-divorciadas de 50 anos. Reality shows. Malucos do Riso. A expressão “mano”. Nike Shox. Caixas de música. Grávidas que passam à frente na fila do supermercado. Pessoas que trabalham em bancos, repartições de finanças e Lojas do Cidadão. Broca de dentista. Turistas asiáticos. Pessoas com mais de dois nomes próprios. Truques de magia. O-Zone. “Apita o comboio” em casamentos. Autocolantes em carros a dizer “Cuidadinho, aí, vão miúdos aqui”. Gajos de meia-idade num BMW Z3. Pessoas que tratam os pais por “você” ou pelo nome. Pessoas que reclamam por férias. Livros digitais. Caixinhas de esmolas para meninos com lepra em África. Mini-Cooper. Carros eléctricos. Filmes do Bruce Lee, Jackie Chan, Chuck Norris, Steven Seagal e Jean-Claude Van Damme. Programas televisivos de passatempos que passam de madrugada. Inverno e Verão.

Ah, e a Golden-Share do Estado na PT.

Fica para a próxima uma lista de coisas que não deveriam ter sido inventadas.