quarta-feira, 30 de junho de 2010

Manifesto Anti-Espanha

Até hoje ainda apreciava uma paella ocasional, mas esta realidade irá mudar drasticamente. Já há muito tempo que tinha abandonado os calamares fritos, vomitado face ao azeite espanhol e ficado intrujado com o vinho lamacento que nuestros hermanos produzem.

O escárnio, aliás, o ódio visceral, que os espanhóis causaram, depois desta falta de respeito com a nação lusitana, será a próxima febre a assolar Portugal de lés a lés.

A partir de agora nunca mais prestarei atenção aos anúncios da SEAT com músicas da Shakira, rezarei por um acidente mortal ao Fernando Alonso, pedirei ao Professor Bambo para lesionar Rafael Nadal para a eternidade e gritarei, enquanto tiver boca e dedo, que os espanhóis são o povo mais mesquinho e insípido do mundo.

Proponho uma imediata declaração de guerra da República Portuguesa ao Reino Espanhol, a anexação da Galiza e Olivença, a recuperação de Ceuta e o bombardeamento de Madrid, Barcelona e Guernica, para dar aos pintores cubistas novas imagens de crianças espanholas desfiguradas.

Se for necessário iremos às últimas instâncias, aliar-nos-emos à ETA, aos Taliban e à Al-Qaeda, venderemos as nossas almas ao diabo, e tudo o mais que contribua para a morte, destruição e aniquilação dos espanhóis.

Deixaremos sacos cheios de merda em chamas nas portas do Corte Inglès e da Corporación Dermoestética, retiraremos o nosso dinheiro do Santander e daremos aos nossos antepassados gloriosos, motivos de regozijo, desta vez não com tácticas do quadrado e com alas de namorados.

Desta vez não pararemos na fronteira, abandonaremos toda a diplomacia e cordialidade pois esta jornada apenas acabará na absoluta e total destruição do Estado Espanhol. Quando tivermos acabado, o Almodóvar já estará a planear um filme sobre a Ribeira do Porto.

PS: Este post foi escrito com raiva, sim, mas justificada. Nunca perdoarei os espanhóis, depois de descobrir que eles vendem o afamado Presunto de Pata Negra como um produto espanhol, apesar de os porcos serem nascidos e criados no Alentejo. Um homem apenas pode aceitar a humilhação até um certo do ponto, e eu tenho o meu limite quando assassinam o carácter sagrado do presunto português.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Portugal à imagem de Ronaldo

Portugal fez hoje,de longe, o pior jogo deste mundial. Não tinha jogado muito contra a Costa do Marfim, mas neste abusou da nossa paciência. A selecção jogou um futebol desconjuntado e apático. Perdemos por 1-0, mas no final do jogo senti-me como se tivessemos levado 4 ou 5. Foi, mais que uma derrota, uma humilhação.

E o Ronaldo jogou tão mal que ainda agora no final do jogo mandou os jornalistas perguntar a Queiroz porque não o tinham tirado de campo.Realmente até para ele próprio parece lúcida essa decisão. O mundo do Cristiano na selecção deve mudar completamente. Parece que não tem nada a mostrar ou a dar à equipa. Em vez de levar a equipa ao colo, como estupidamente dizem, arrasta-a cada vez mais para o precipício, como hoje. Está sempre mal colocado no terreno e parece nunca conseguir fazer uma simples finta. E os remates parecem apontar aos fotógrafos de jogo.

Os 7-0 à Coreia do Norte mostraram-se falso factor de motivação, mas a expectativa foi crescendo e de repente a selecção até parecia jogar bem. Mas nunca deixou de apenas parecer, embora o empate frente ao Brasil tivesse mostrado algumas aparentes melhorias. Melhorias que caíram aos pés da Espanha e da sua irritante troca de bola.

Não tinha grandes expectativas para esta campanha de Portugal, mas depois de passarmos a fase de grupos confesso que as minhas esperanças de sucesso aumentaram, ainda que de forma bastante ligeira.
Não tenho grandes palavras para descrever o meu desânimo e raiva (sobretudo centralizada no Ronaldo). Caímos frente à Espanha. De joelhos. E o Ronaldo fez questão de desapertar a braguilha alheia.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Maradona em funções pela Selecção da Argentina



Para quê perceber de táctica, se podes bater palmas como um pai babado?

sábado, 26 de junho de 2010

Um post preguiçoso sobre um Interrail



Barcelona é melhor do que alguma vez se tentou descrever. O Sul de França é assustadoramente bonito. As praias de Nice são piscinas gigantes. Pena que vivam lá franceses. Veneza é a cidade mais encantadora do mundo apenas durante 5 e 6 da manhã, enquanto os turistas dormem e a Praça de São Marcos é um deserto.

O Duomo em Florença faz qualquer igreja ou monumento português parecer um barraco numa favela. O único ponto negativo é a quantidade avassaladora de quadros da Virgem Maria a segurar o menino Jesus. O Vaticano é uma loja de recordações católica gigante. O Papa tem uma equipa de marketing excelente. Fui ao Coliseu em Roma pensando entrar por alguns momentos no Gladiator, mas na realidade aquilo apenas me pareceu um monte de pedras engraçado.

Bari é deslumbrante - pena que tenham construído a estação de comboios a 6 quilómetros do porto da cidade, obrigando-me a percorrer essa distância de mochila às costas no calor abrasador. Viena é uma cidade em que me bastou estar lá durante algumas horas para perceber que gostaria de morar lá. O sofá do Freud pareceu-me ser bastante confortável.

Praga é surreal, fora de qualquer proporção. E têm uma moeda fraca, deus os abençoe. Berlim tem um muro sujo e a melhor cadeia de fast-food do mundo. Pena que o Diogo origine destas terras.

Amesterdão tem parques naturais no meio da cidade e o povo mais simpático do mundo e falam todos inglês fluente. Bruxelas é cinzenta e demasiado profissional. O Norte de França continua a ter franceses, mas eu gosto da 2ª Guerra Mundial e por isso foi bastante interessante.

Londres é a melhor cidade do mundo, ponto final. Glasgow parece Lisboa, o que é mau, mas tinha um cemitério onde os túmulos descreviam a vida e a morte das pessoas. Quando morrer quero um igual. Paris tinha muitos africanos a vender miniaturas da Torre Eiffel. E também tinha franceses.

Resumidamente, durante 33 dias passei por 11 países onde desesperei com o sono, passei fome, morri de sede, fiquei com o pé em bolhas, rebentei bolhas com um canivete, apanhei escaldões na forma de bronze de trolha, corri atrás de comboios, perdi comboios e cheirei mal - tudo isto enquanto carregava uma mochila de 25 quilos durante quilómetros sem fim sob sol de 40ºC. E foi a experiência de uma vida.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sobre a Portugalidade do Desenrascanço

O site americano Cracked elegeu há uns tempos a palavra “desenrascanço” como a palavra mais “cool” que deveria existir na língua inglesa.

A publicação argumenta que o desenrascanço, à semelhança do MacGyver (que consegue construir um míssil balístico com um caneta e fita adesiva), é a arte de conseguir arranjar uma solução arrojada no último minuto, face a uma situação imprevisível.

Em detrimento da preparação, nós confiamos na nossa habilidade de nos desenrascarmos, mas isto, ao contrário do que possa parecer, não é bom. Na realidade, é bastante mau, no sentido que exerce uma influência desmedida sobre a cultura portuguesa.

O desenrascanço não é, como foi referido pelo site, arranjar uma solução para um problema inesperado. Isso é apenas a definição de dicionário, uma bela teoria. O desenrascanço português consiste em adiar a resolução dos problemas, no despreparo premeditado, na confiança ingénua de que, sabendo que correndo o risco de sermos medíocres, arranjaremos uma solução não arrojada, mas que apenas baste para emendar levemente o problema.

O desenrascanço português é antes um exercício da ignomínia, é um estímulo ao marasmo numa ode ao amanhã. Não entra nesta equação o estudo metódico, o calculismo, a precisão e o rigor. É atrasar a resolução, é ganhar tempo para desperdiçar.

O desenrascanço seria positivo se, de facto, face a um problema complicado e acima de tudo, inesperado, conseguíssemos arranjar uma solução. O site refere ainda que mesmo com o desenrascanço, conseguimos construir um império do Brasil até às Filipinas. Revejam os vossos livros de história do 5º ano, caros amigos, porque o Império Português foi o resultado de preparo, de audácia, de ir “por mares nunca dantes navegados”.

Hoje o nosso desenrascanço é um mero laxismo face à realidade. É a resignação de contentarmo-nos com pouco. É engraçado que o sentimento cultural português resume-se ao Sebastianismo, à letargia, à saudade e ... ao desenrascanço. Já dizia o povo, “é o que se arranja”.

PS: Eu próprio escrevi isto enquanto deveria estar a estudar Ética e Deontologia Profissional. Mas prontos, não tenho culpa. Foi assim que me ensinaram. Depois desenrasco-me.

domingo, 20 de junho de 2010

O Comunismo vive

Numa altura em que o comunismo, como sistema económico, político e social, não existe verdadeiramente em nenhum país, existem ainda pequenas tendências e indicadores que mesmo assim revelam uma realidade assustadora, nomeadamente em Portugal.

Actualmente em Portugal, apenas três partidos têm hipóteses realistas de chegar ao poder. O Partido Socialista e o Partido Social-Democrata foram os únicos partidos até hoje capazes de deter a chefia do governo sem recurso a coligações.

Historicamente, desde o final do Estado Novo, este país vive num ambiente político e social ligado à esquerda. As chamadas “conquistas de Abril” infectam o imaginário português, com ideias demasiado utópicas de solidariedade social.

O Estado-Social, ou Estado-Providência, é conceito indulgente que consiste no papel do Estado em assegurar as necessidades básicas para o bem-estar social dos seus cidadãos. No entanto, as capacidades do Estado-Social devem ser asseguradas pelo progresso económico de uma economia liberalizada, o que envolve o fomento da iniciativa privada e uma lei laboral notoriamente mais flexível.

A denominada política da “presença do Estado em sectores estratégicos” preconizada pelo Partido Socialista fica muito bonita no papel, em manifestos e em programas partidários. Em Portugal essa política, representada na PT e EDP, apenas dissemina monopólios em sectores estratégicos, que por sua vez apresentam um serviço tépido, com custos altos para o consumidor.

Na política partidária, a bipolarização entre PS e PSD, juntamente com a representatividade significativa de BE, PCP e CDS, poderia ser um modelo progressista, se os partidos dessem prioridade ao diálogo e à cooperação.

Proeminentemente, PS e PSD apresentam também uma tendência assustadora de tentar assegurar a permanência constante no poder, algo que mascarado pela realização de eleições, tem contornos de autoritarismo.

Os verdadeiros conceitos políticos de responsabilidade, serviço público e patriotismo não existem. O que existe é política partidária, máquinas partidárias e figuras do partido. Ninguém chegará ao poder sem o pantanoso apoio partidário, mesmo que o indivíduo disponha das melhores capacidades individuais.

PS e PSD tomam decisões políticas, em grande parte, para a obtenção de capital político, não para o desenvolvimento do país. É raro existir uma decisão política em Portugal que seja popular e ao mesmo sendo absolutamente necessária.

Ambos os partidos lutam incansavelmente pelo unipartidarismo, à semelhança de Estados autoritários. Os partidos dominantes de países como a China, Cuba, Vietname, Laos, Angola, Guiné-Bissau e Coreia do Norte afirmam que sendo os seus partidos aqueles que conseguiram assegurar a “liberdade” e “independência” da nação, são eles que devem manter o poder. Poderemos estar mais perto deste países do que pensamos.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Meo, o comando é meu (versão desportiva/religiosa)


Por acaso, tenho sorte. O meu irmão é, tal como eu, um amante do desporto-rei e, entre as inúmeras discussões com que alegramos o nosso lar, nenhuma delas se relaciona com o canal da televisão a ver quando está a dar um jogo do Mundial. Mas mesmo que essa discussão ocorresse, temos também a sorte de possuirmos duas televisões, pelo que a questão morreria aí, com salomónica resolução, cada um vê o que quer no seu televisor.
Mas nem todos têm a sorte de partilhar preferências televisivas, nem de ter duas televisões em casa, tão-pouco de viver numa sociedade com valores que, ainda que questionados, têm em geral uma fronteira rígida no que toca a brutalidade conjugal ou paternal.
Na África do Sul, pleno país-organizador do Campeonato do Mundo, nem todos terão sido, como foi o caso dos portugueses em 2004, infectados pela febre. Um pai foi espancado até à morte pela própria família, no decorrer de uma luta por um comando de televisão. O pobre queria ver o Alemanha-Austrália, enquanto o resto da família queria ver um programa religioso que, azar dos azares, tinha horário coincidente. A devota família não aceitou de bom grado a insistência paternal e uniu-se de pronto contra o sujeito, enfiando-lhe a cabeça na parede. Morreu, justificadamente, um impiedoso herege. Em que mundo vivemos em que um homem, diabo o leve, prefere ver a Mannschaft golear em vez de se querer deleitar com a sacra palavra do senhor? Bem fez a família, crente, justiceira, aplicou justiça pelas próprias mãos, contra o infiel tirano.
Há uma hierarquia de valores a respeitar. A religião, essa, domina o top. Supera o futebol e, aparentemente, a família. Ora, eu sempre pensei que, para os crentes, a religião não devesse estar acima de tudo, mas em tudo. Aparentemente, não acontece. Matar o patriarca que, raios o partam, prefere o Messi ao Padre Borga, é possível.
Ou isto, ou a hierarquia de valores é completamente anárquica, e a religião ainda consegue baralhar mais esta salgalhada ética. Estou mais virado para esta segunda opção.
Assim sendo, dada esta incompatibilidade de futebol e religião, cada vez me convenço mais que aquela conversa do Maradona da "mão de deus" é uma treta. O senhor não ia colocar a sua sagrada mão em tão compurscado desporto.
Seja como for, estou convencido que aprendi algo com isto. Futebol é a minha religião. Se o meu irmão, porventura, algum dia quiser ver algo que não a bola, à hora do jogo, tudo o que for abaixo do fraticídio será castigo demasiado leve. Com a minha religião também não se brinca.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Sobre fazer aquilo que é necessário

"A professional politician is a professionally dishonorable man. In order to get anywhere near high office he has to make so many compromises and submit to so many humiliations that he becomes indistinguishable from a streetwalker." - H.L. Mencken

Sabendo que Sócrates é um político hábil sempre cercado pela seu exército privado de assessores e tendo igualmente em conta o carácter resiliente e teimoso do nosso Chefe do Governo, é fácil prever que ele continuará em São Bento até ao final do mandato.

A outra ilação, igualmente fácil de prever, é que Pedro Passos Coelho, por mais que esconda, mal consegue esperar pela hora de formar governo. Portanto, talvez no próximo ano, poderemos acordar um dia de manhã com os jornais a salivarem pela moção de censura, que muito provavelmente, será aprovada com votos a favor da oposição em peso.

Eu espero, sem esperança e com desespero, que o indivíduo que assuma a liderança do país nas próximas eleições, tenha o discernimento e o pragmatismo suficiente para afirmar que: "Temos que ser realistas".

Depois do PREC, da democratização lenta e confusa, tivemos os governos de Cavaco, Guterres e Sócrates, aqueles que, pela sua maior duração, deixaram marcas profundas e quase indeléveis em Portugal.

Os governos de Cavaco e Guterres cometeram as duas principais infracções. Cavaco, com o seus projectos de desenvolvimento sem uma visão a longo prazo, aumentou bastante a dívida pública. De igual modo, no fim da ceia, aumentou os salários da função pública, que já aí demonstrava a sua ineficácia e dimensão monstruosa. Guterres aumentou incrivelmente o número de funcionários públicos, que até hoje, assumem uma fatia assustadora dos encargos nacionais.

Portanto é um questão de dívida. Como têm dito por aí, é uma questão de "viver com aquilo que não se tem". O próximo Primeiro-Ministro de Portugal deve ser realista, pragmático, sem medos e de preferência, com menos gabinetes de comunicação.

Os salários reais de Portugal devem ser diminuídos por uma razão simples. Os salários não reflectem a nossa competitividade. Os salários prejudicam a nossa competitividade. Com a entrada sem restrições de mercadorias chinesas na UE, Portugal perdeu bastante na exportação de produtos manufacturados e têxteis.

O país, tristemente infectado pela esquerda, parece ter a noção de que os benefícios surgem antes do trabalho. E eu sei que os críticos de costume, PCP e BE, dão o discurso da precariedade que é assustadoramente díspar da realidade. Os benefícios que todos queremos - reformas, pensões, saúde, qualidade de vida - só surgem num plano permanente, quando a estratégia económica do país assim o reflecte.

Eu também sei que, saídos de uma ditadura longa e algo violenta, o populacho se sentiu injustiçado e atraiçoado, mas isso, por si só, não constitui uma razão para desbravarem qualquer hipótese de desenvolvimento do país. Lá por estarmos geograficamente na Europa, isso não significa que atingiremos um estatuto automático de nação socialmente desenvolvida e economicamente estável.

Primeira vem a estabilidade da economia, depois o desenvolvimento social. Caso contrário, estaremos a hipotecar permanentemente o futuro das próximas gerações. Os problemas para sempre serão adiados. O futuro de Portugal estará sempre adiado.

Sejamos realistas. Vivemos num mundo onde o liberalismo económico impera. Por isso, vou repetir, primeiro vem a estabilidade da economia, depois o desenvolvimento social. Temos de viver como os pobres desgraçados que somos por algumas décadas. Para que depois, possamos florescer como os sortudos que realmente somos.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

'Tá tudo jodido!


O grupo H do Mundial, que hoje viu serem disputados os seus primeiros jogos, seria à partida um grupo previsível. A Espanha limpava e jogava com Portugal nos oitavos, o Chile passava em segundo, a Suíça incomodava e as Honduras perdiam os três jogos. Seria, à partida, um dos grupos menos valiosos nas casas de apostas.
Mas, como qualquer história dramática - e futebol, minhas meninas, é drama - o enredo sofreu uma reviravolta. Aliás, para ser mais correcto, nem se tratou de uma reviravolta. Foi somente um início incalculável.
Os nossos irmãos mostraram que a sua utilidade vai para além da aprovação do TGV. Com este resultado, ajudam-nos, e de que maneira, a evitá-los na próxima eliminatória, caso Portugal passe esta fase. Até vou mais longe: com o Chile a jogar o futebol como o tem vindo a fazer, a Espanha pode nem passar esta fase, pois ainda vai defrontar os sul-americanos na última jornada. Mas ainda mais decisiva que essa partida, é a que opõe Chile e Suíça na próxima ronda. É que, em caso de empate, a Espanha está completamente jodida, já que está praticamente obrigada a vencer o Chile. Ora, para quem não conhece o adversário do nosso siamês ibérico, e tem apenas como referências o resultado da magra vitória contra as Honduras e a nulidade que é Matías no Sporting, pode considerar que a missão da Espanha está longe de ser hérculea.
Acontece que esta equipa chilena encanta. Eu odeio ser um daqueles Nostradamus de futebol que acertam uma em cem previsões e fazem questão de realçar como são visionários quando essa previsão, por obra do acaso, se confirma. Mas eu tenho vindo a dizer, quando falo com conhecidos sobre o Mundial, que o Chile joga muito à bola. Apesar da minha ocupadíssima agenda, com tarefas tão diversas como comer ou medir o meu pé, ainda consegui arranjar tempo para assistir a alguns jogos do Chile no apuramento sul-americano e posso atestar a qualidade.
Uma das principais referências é o craque Valdivia que se desperdiça nos Emirados ou no Koweit ou na Arábia Saudita, não sei bem qual foi, mas esteve por lá na Guerra do Golfo. Ainda que indisciplinado, tem uns pés incríveis.
O maestro da equipa é o Matías Fernandez, o mesmo que é suplente no Sporting, e que na selecção se transfigura, faz lembrar um Deco mais jovem e mais ágil.
O Humberto Suazo é o ponta-de-lança, que está lesionado mas deverá recuperar para a Espanha. Rápido e goleador, foi o melhor jogador sul-americano de 2009.
Alexis Sanchez é, também, um muito bom avançado, e normalmente um epicentro do perigo chileno (lamento a utilização aqui de uma metáfora sísmica quando falo de um país tão afectada por esses terremotos). Ágil, tecnicista e com um bom remate. Joga na Udinese, onde já começa a mostrar de que é feito.
A isto acrescente-se um excelente médio, Medel, menos mediático, mas de grande qualidade. E ainda jogadores como Beausejour, Vidal, Mauricio Isla ou o supersónico Mark González.
No entanto, o que distingue esta equipa é que, para além da qualidade individual, tem um jogo colectivo extraordinário. Assemelha-se a um jogo de clube, e não de selecção, tal o entrosamento. Ao lado do Chile, o trabalho de equipa da equipa das quinas torna-se liliputiano.
Se Portugal apanha a Espanha nos oitavos, muita surpresa será que sequer dê luta. Mas, se por acaso apanhar o Chile, não pensem que não estamos igualmente jodidos.
A nossa única hipótese é apanharmos a neutra Suíça, que ganhou à Espanha, mas com uma sorte que só pode ser deus a premiar a tranquilidade de um país sem guerras. Lo que será, será.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Movimento Limpar Portugal

Há uma expressão da cultura judaico-americana que é referida como "Jew Guilt". Não sei aqui também existe, mas numa tradução livre é "culpa judaica". Quem gosta do Woody Allen sabe do que estou a falar. É essa culpa que me faz levar o lixo lá para fora quando a minha mãe diz "Pronto, se não queres levar o lixo lá fora, tudo bem, levo eu que apenas tenho uma grande dor-de-cabeça".

O Movimento Limpar Portugal conseguiu fazer-me sentir algo que eu nunca senti: culpa pela minha preguiça. Os sintomas da minha preguiça manifestam-se consistentemente todos os dias desde os meus 10 anos. É, de facto, um dos grandes males da Humanidade, mas poucos azarados sofrerão realmente desta maleita.

Eu gosto de dormir cerca de 14 horas por dia. Gosto de uma sesta no meio da tarde. Tarefas tão simples como lavar a loiça, levar o lixo lá fora, varrer o chão, comprar comida, carregar o telemóvel, ir às aulas, e habitualmente todas os actos que constituem a vida humana - levam a um meloso e rastejante ócio. Por vezes, não sei se cumpro os requisitos suficientes para ser considerado um ser vivo.

É um dos pecados capitais, já sei, mas a sua doce sedução, o modo como a minha cama se transforma num oásis quando acordo de manhã são irresistíveis. O atleta olímpico, Marco Forte, que depois da sua paupérrima prestação nos Jogos de Pequim, declarou numa sentença universal marcante: "De manhã está-se bem é na caminha". É assim tão simples e ao mesmo tempo tão envolvente. A preguiça é um ópio, é uma rendição à inevitabilidade do passar das horas, sempre tão moroso, nem sempre agradável, mas sempre fácil. E o fácil chega-me, pois não anseio pelo muito bom e complicado. Simplesmente sacio-me com o bom e simples.

Por essas e muitas outras razões, o Movimento Limpar Portugal afectou-me. Pessoas, mais do que isso, portugueses aceitaram limpar e recolher o lixo causado por outrem. Eu gozo com o Holocausto, Fome em África, massacre de índios, terremotos, enchentes, furacões, guerras, quedas, acidentes de avião e de carro - mas estes bravos cruzados debruçados sobre o lixo conseguiram me fazer sentir inadequado. Até o Cavaco apareceu para a fotografia.

Quero dar os parabéns ao Movimento Limpar Portugal. Conseguiram me fazer sentir culpado por ter passado o meu sábado de manhã na cama. Tanto que depois acordei e fui ler o Público enquanto tomava pequeno almoço às 3 da tarde. Sabem o que aparecia na televisão nesse preciso momento? Pessoas a limpar Portugal.

domingo, 13 de junho de 2010

Mau; Péssimo; Ainda pior

Hoje vou falar do mau, do péssimo e do ainda pior. Carlos Queiroz, Raymond Domenech e Maradona. São três caras controversas e que reúnem opiniões distintas. Para mim é simples: são os três piores treinadores presentes no Mundial da África do Sul. Nenhum deles parece perceber muito nem de táctica nem de sistemas de jogo, nem motivação dos jogadores, nem perspicácia, inteligência ou objectividade na análise de jogo. Resumindo, são, na generalidade, maus treinadores. Um deles nem pode ser considerado treinador de futebol, é apenas um palhaço famoso. Ainda por cima é estúpido.

Começando pelo que é nosso, Carlos Queiroz. O seleccionador nacional português, contratado em 2008 para substituir o tão querido Scolari, tinha como principal missão qualificar Portugal para este Campeonato do Mundo. Conseguiu-o, mas de forma extenuante. Portugal jogou mal, e foi com sorte que alcançou o segundo lugar no grupo que permitiu a passagem ao play-off. Contra a Bósnia fez o que tinha a fazer. Uma das maiores críticas ao técnico foi a convocatória para a fase final do Mundial, que foi completamente deslocada da realidade. Convocar 9 defesas e deixar jogadores como Quim ou João Moutinho de fora seria motivo de risota antes da convocatória, mas Queiroz fez questão de transformar uma anedota em realidade.
Independentemente da táctica utilizada, não consegue que a equipa produza bom futebol e, mais importante, golos. Não sei o que falta, e também é verdade que a selecção já estava em decadência quando Queiroz lhe pegou, mas também é verdade que este não conseguiu produzir qualquer tipo de reviravolta que motivasse os jogadores, e a juntar ao resto, faz dele, pelo menos, pior que Scolari.

A segunda vítima é o treinador da selecção francesa, Raymond Domenech. Este homem é, a todos os níveis, um arrogante de merda. Uma coisa é ser arrogante tendo razões para isso, como Mourinho. Outra coisa é ser arrogante e só fazer merda, como o Domenech. Admito que em 2006 levou a França à final do Mundial na Alemanha. Mas foi na altura em que ainda tinha um Zidane que quase podia jogar sozinho. O mesmo Zidane que transformou uma final entediante num espectáculo não de levar as mãos à cabeça, mas de levar a cabeça ao peito.
Um dos principais defeitos deste técnico parece ser provocar mal-estar dentro do grupo de jogadores. Os próprios jogadores criticam Raymond, que nos últimos amigáveis empatou e perdeu com a Tunísia e China, respectivamente. O mérito da qualificação francesa nem é de Domenech, já que teve de pedir uma "mãozinha" a Henry.
O melhor de tudo é que o treinador francês vem para o Mundial já sabendo do seu afastamento da selecção depois da competição, o que faz do homem um autêntico "poupée".

Por último, temos um atrasado mental disfarçado de treinador. Aviso já que não tenho adjectivos suficientes para criticar Maradona, por isso posso repetir-me um pouco. Este troglodita é um Deus na Argentina, pelo que fez como jogador da bola. Aceito isso de forma clara, foi dos melhores jogadores de sempre e fez coisas mágicas com a bola nos pés. Mas isso não é razão para o porem à frente de uma selecção que tem aspirações claras a ganhar este troféu. A fase de qualificação não foi fácil, e a Argentina foi mesmo a última selecção sul-americana a apurar-se directamente para o Mundial, à frente do Uruguai.
Mas o mais escandaloso foi a convocatória para o Mundial. Eu sei que dá ideia de ter sido um miúdo de 10 anso com trissomia 21 a fazer a escolha dos jogadores, mas ao que parece foi mesmo o Maradona. O que me leva a reafirmar: ele só pode ter uma deficiência mental. Que o digam Cambiasso ou Lucho. Deve ter ficado alterado depois de tanta droga.
Seja como for, é sem dúvida o pior treinador a marcar presença neste Campeonato do Mundo (ainda me custa chamar-lhe treinador). Ainda por cima promete correr nu se ganhar o Mundial. Que tipo de jogador consegue encontrar motivação nisto?

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Mundial, dia 1 - Tshabalala


Quando o autor do golo inaugural dá pela singular graça de Tshabalala, temos Mundial. Sentiu-se, apesar do ensurdecedor ambiente fervoroso das simpáticas vuvuzelas, um riso contido nos comentadores ao pronunciarem o nome do sul-africano. Tal como a Alemanha tem um Thomas, a França tem um Patrice, a Inglaterra tem um John e Portugal só não tem um João porque Queirós preferiu o Rúben Amorim, a África do Sul tinha de ter um Tshabalala. Há algo de contagiante na forma como a língua se revolve nas duas últimas sílabas. Naquele golo, houve magia africana no remate - e que remate - mas também no nome estampado na camisola daquele que, por momentos, foi herói nacional.
Tshabalala é o nome do médio-ala-esquerdo que mandou aquele bilhete espantoso, como podia ser o refrão da musica que os sul-africanos dançaram alegres ao entrar em campo. Experimente, caro leitor, repetir o nome Tshabalala, acrescentando-lhe apenas o pouco ritmo que lhe falta, enquanto abana incansavelmente todo o corpo. Nunca mais vai querer parar. Eu, de resto, estou neste momento a fazê-lo.
Neste Mundial, somos todos Tshabalala. Quando eu tiver um filho, ou uma filha que seja, chamar-se-á Tshabalala.
É por personificar toda a alegria contagiante com que os africanos nos presenteiam incessantemente, que Tshbalala é já o meu jogador favorito do Mundial(de entre aqueles que não actuam no F.C. Porto.)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Anúncio futebolístico

O Mundial de futebol está prestes a ter início e Os Protagonistas™, amantes da bola que são, começam aqui uma extenuante, profissional e integral de todos os acontecimentos que terão lugar na África do Sul. Cobrindo todos os acontecimentos que terão lugar na África do Sul não nos cingimos, portanto, ao futebol. Há, naquele país, um sem-número de situações de relevo que, atentos, nos prontificamos a expor.
Como estudantes de jornalismo que somos, este será um excelente exercício para mostrar que não só o Shot pode tirar o lugar ao Rui Santos no domingo à noite. E falamos de Rui Santos porque, bons mas conscientes, temos noção que tirar João Vieira Pinto do pedestral que já ocupa no jornalismo desportivo português, é missão que, não sendo impossível, soa a utopia. Um pouco como as hipóteses de Portugal no Mundial.
É provável, portanto, que no decorrer das próximas semanas, aquelas que eram brilhantes divagações sobre temas tão diversos como a política, a economia, a sociedade, o existencialismo, o prazer e as fezes - estas últimas já exploradas em simultâneo - dêm lugar a algo mais específico, possivelmente não tão intelectual, mas nem assim com menos para explanar, porque a ciência é muita no trabalho que envolve meter a bola na baliza.
É natural, então, que o mundo, vendo-se momentaneamente privado da nossa mordaz marcação e observação, aproveite esta distracção da bola para fazer realmente das suas. Se o Executivo de Sócrates prima pela sagacidade, não deixará de aproveitar o Argélia - Eslovénia de Sábado para voltar a aumentar os impostos. E deus sabe que não há melhor timing para começar os incêndios de Verão que, digamos, o Suiça - Honduras de dia 25, que ainda por cima é em canal aberto.
O mundo não-futebolísitico pode respirar um pouco de alívio nos próximos tempos, pois Os Protagonistas ™ estarão distraídos. Mas, quais astutos golfinhos, nós também deixamos um olho aberto durante o sono. O Mundial é, para nós, uma hibernação em pleno Junho. Mas nada nos impede de olhar pelo canto do olho para algo que não a televisão se, porventura, o mundo decidir fazer das suas à descarada.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Apontamento breve, antes do anúncio oficial


A FIFA atravessa um desnorte terrível. Atacada por todos os lados, e por todos os motivos, tem acumulado erros e decisões polémicas: a bola do Mundial parece que desobedece às leis da física; as vuvuzelas foram aprovadas e obrigam a ver os jogos em mute; a própria escolha da África do Sul como anfitriã dá origem a situações destas. Isto tudo a dois dias do ínicio de uma competição que não promete, até pelo número de vítimas que o bruxo espanhol que lesionou Cristiano Ronaldo estará, neste momento, a deitar por terra nas diversas selecções.
Mas o que mais me preocupa é o parco sentido de oportunidade. A Federação Internacional de Futebol decidiu realizar um controlo antidoping surpresa à selecção portuguesa. Isto quando é óbvio para todos que, de todas as drogas que os jogadores portugueses possam estar a consumir, não são, definitivamente, as que melhoram o rendimento desportivo. Atenção FIFA: não se fazem operações-relâmpago de combate ao tráfego de armas na casa da minha vizinha de baixo, idosa e decrépita. Há que ter bom-senso neste tipo de acções.

De resto, em breve será oficialmente anunciado o acompanhamento exaustivo e integral do campeonato do mundo por parte d'Os Protagonistas. Aguardem, amantes da bola.

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Charme da Preguiça

Numa altura que começam os exames, quero apenas apontar aqui aquilo que passa pela minha cabeça uma semana antes de um exame.

1 mês antes do exame:
"Este semestre vou-me esforçar como deve ser. Vou mostrar que sou capaz de tirar boas notas. Vou investir no meu futuro. Vou estudar com pelo menos uma semana de antecedência."

7 dias antes do exame
"Uma semana a estudar, meu deus. Seis dias a estudar chega perfeitamente. Não sei o que estava a pensar. A tomar esta decisão estou não só a ser responsável, como estou a dar a mim próprio uma merecida recompensa de um dia extra de descanso depois dum semestre tão trabalhoso."

Seis dias antes do exame
"Cinco dias a estudar chega. Dois dias a seleccionar a informação e a preparar o estudo. Dois dias de estudo intenso. Um dia de revisão. É isso, amanhã é um novo dia."

Cinco dias antes do exame
"Quatro dias a estudar parece-me mais adequado. Quatro é um número par, o que é muito mais agradável. Assim sempre posso ver um filme e relaxar. Não sei porquê, dormi treze horas, mas estou cheio de sono. A decisão responsável claramente é adiar o estudo. Amanhã acordo cedo, com a mente fresca, pronto para estudar."

Quatro dias antes do exame
"Três dias a estudar parece melhor. Se eu estudar 8 horas por dia, acabo por acumular 24 horas de estudo, o que somado é equivalente a um dia inteiro a estudar. Ainda bem que isto me ocorreu, estou mesmo cansado hoje, não sei porque razão..."

Três dias antes do exame
"Dois dias chega perfeitamente, não sei mesmo o que me passou pela cabeça. Uma dia a conhecer a matéria, outro dia a rever. Fantástico. Acho que vou tirar boas notas neste semestre. Meus pais devem estar mesmo orgulhosos. Sou uma pessoa com um sentido de responsabilidade inabalável."


Dois dias antes do exame
"Um dia é bastante tempo. Hoje fico a relaxar, leio o jornal, vejo mais uns episódio de uma série qualquer. Um dia inteiro dedicado ao estudo. É mesmo isso."

Dia anterior ao exame
"Se calhar, é melhor cortar as unhas antes de começar, sempre fico mais confortável. Por segurança, vou escovar os dentes novamente. Já agora faço a barba. Vou levar o lixo lá para fora. Ei, olha ali a vassoura. Eu já limpava o apartamento. Depois vou fazer um bocado de jogging, que até estou fora de forma. Não temos leite, é melhor ir ao Pingo Doce comprar. Já que estou no Pingo Doce, vou dar uma volta, que está um dia nublado tão lindo. Às 5 da tarde começo a estudar, sem falta."

Dia anterior ao exame - 17h
"Acho que vou acabar de ver a temporada toda desta série. Assim estudo menos distraído. À meia-noite estudo mesmo. Mais vale fazer uma directa. Faço um café saboroso e vou estudar como nunca estudei na vida."

Dia do exame - Meia-Noite
"Agora estou tão cansado, mais vale dormir e acordar amanhã bastante cedo, e estudar. O exame só começa às 15h. Posso acordar às 6 e estudar 9 horas."

Dia do exame - 10h
"Ei, meu deus, que caralho aconteceu? São 10 horas! Foda-se! Caralho! Merda! Puta que pariu! Foda-se o caralho da merda da puta que pariu esta merda deste exame. Onde estão os apontamentos? Quê? Comunicação não-verbal quê? Que raio de matéria é esta? Proxenética? A pessoa que fez estes apontamentos deve estar a gozar com a minha cara! Esta merda existe mesmo? Foda-se! Vou antes tomar banho, tomar um pequeno-almoço especial no café e estudo três horas mesmo, mesmo, mas mesmo a sério!"

True story.

PS: Este semestre, juro, juro que vou ser diferente. O exame é amanhã mas eu vou mesmo acordar às 6h. Se não acordar, a culpa é do despertador. Ainda bem que Deus inventou o recurso.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Quem é que topa a Europa?


Cada vez mais odeio a Europa, e a Europa cada vez mais me dá motivos para a odiar. Cada vez mais se revela como exemplo macro-escala do "Vamos todos para parecermos muitos" que eu aplicava com os meus colegas do ciclo para não sermos assaltados.
O fatídico dia de 1 de Janeiro de 1986 marcou uma nova era em Portugal, com a integração na Europa. Para um país saído recentemente de uma ditadura, com as conhecidas consequências economicas e sociais, agravadas por uma eficaz guerra colonial - eficaz porque conseguimos perder tudo - a CEE soava efectivamente como um El Dorado. Mas tal como os navegadores do século XVI, que por ganância perdiam a vida no mar, também o Estado não ligou às contrapartidas, tão entretido que estava a saborear as vantagens, os apoios externos. De facto, houve desenvolvimento (inevitável, acrescento, pior do que o que estávamos só para sul de Gibraltar). Não houve foi desenvolvimento de mentalidades.
Continuámos, até hoje, a ter uma política fiscal a roçar o naif. É mais fácil ficar a dever dinheiro ao Estado do que um pequeno-almoço numa confeitaria. A aposta no crédito fácil fez disparar o endividamento familiar, e eu sei do que falo, pois moro quase paredes-juntas com o oportunista El Corte Inglés. E depois há dinheiro em offshores cujo combate é nulo e uma função pública com salários congelados até que alguém tome consciência de que o Estado não paga muito a cada um, paga é a muita gente.
Porém, o que me irrita mais na Europa - e confesso que estou fascinado por me referir à Europa como me refiro a uma qualquer colega de faculdade - são os ideais de uniformização. Querem criar um grande país chamado "União Europeia" que se transforme na segunda superpotência e combater a hegemonia norte-americana, mas é tão utópico que faz o comunismo parecer exequível. Faz-me comichão um sistema europeu, capitalista e liberal, que aposte tanto em políticas tão irreais. O Tratado de Bolonha é um exemplo flagrante. A ideia era uniformizar o ensino na europa, facilitando a migração dos estudantes. Temos, isso sim, um sistema de ensino superior fraco, assolado por um sistema de faltas absurdo, cada vez mais burocrático, curto, pouco formador e ainda mais competitivo - e competitivo no sentido em que há mais hipóteses de figurarmos nas estatísticas de desemprego da OCDE. O facilitismo dá nisto. De que adianta facilitar a entrada na faculdade? Se todos entrarem, dá no mesmo. De que adianta facilidade no mestrado? Se todos tiverem, vale o mesmo.
Deixem de tentar ser um país único. Cada um tem indiossincrasias incontronáveis. Os alemães têm o rigor, os dinamarqueses a produtividade, os portugueses, bem..., o Cristiano Ronaldo e cortiça. Sem uma liderança que tenha força e, acima de tudo, com legitimidade política, é impossível colocar tantos países, tantos governos, tantas mentalidades, tantas culturas, a remar para o mesmo lado. E, como os países se começam a aperceber disto, aproveitam, como Portugal, para retirar as vantagens, e não ligar às obrigações. Finalmente, Bruxelas foi obrigado a pôr-nos de castigo, e agora temos quase todos os países a apertar o cinto, alguns até bem mais do que Portugal. Somos uma família disfuncional, mas feliz.
Somos o Velho Continente, mas essa velhice já se torna senilidade.

domingo, 6 de junho de 2010

A Nova Aliança Portuguesa

Supostamente, nós temos a mais antiga aliança do mundo - Aliança Luso-Britânica - celebrada em 1386, que de mais nada serviu senão deixar os ingleses violarem as nossas vinhas do Porto. Vá lá, até nos protegeram dos franceses, mas actualmente essa aliança de nada mais serve, senão talvez figurar no Livro do Guiness.

Se antigamente, poderíamos figurar entre os proeminentes poderes mundiais (e por "antigamente" diga-se séculos XIV, XV e XVI), actualmente somos vistos pelo mundo como uma pequena extensão de território que deveria fazer parte de Espanha.

No entanto, agora temos aqui um parceiro à nossa medida - a Venezuela. Era pedir demasiado ser amigo de uma nação tão influente como a Inglaterra. Nós não somos parte do grupo dos "fixes". Nem sequer podemos nos considerar geeks. Somos apenas estranhos.

Enquanto a crise anda por aí a debelar tudo o que resta deste país, Sócrates esteve pela Venezuela, na tentativa de fechar bons negócios. A Venezuela, tão mal vista no mundo civilizado, tem apenas um único e verdadeiro aliado - nós. Nesta parceria verifica-se um verdadeiro quid pro quo.

E em troca recebe barcos que ninguém quer, computadores para crianças que ninguém quer e fábricas que ninguém quer. Chávez pode ser maluco, mas não é estúpido. O negócio, à partida, não parece muito vantajoso para a Venezuela. Mas assim mantém um precioso aliado dentro da UE. E nós, bem, apenas ficamos com a ilusão de que ainda há esperança.

sábado, 5 de junho de 2010

Burros Sobredotados

A mais recente ideia do Ministério da Educação, liderado pela querida Isabel Alçada, é de dar uma oportunidade aos repetentes do 8ª ano de se autoproporem a exames do 9º e passar automaticamente para o ensino secundário, sem sequer passar pelo último ano do ensino básico.

Isto não é só uma medida facilitista, como muitos já andam por aí a dizer, é também, e mais que isso, uma medida absurda e deslocada da realidade do nosso sistema de educação. Se existem problemas com as taxas de aprovação dos alunos, de que forma isto vai ajudar a resolver o problema? Provavelmente vai meter mais burros no secundário. E realmente é estúpido que alguém que reprove no 8º ano possa passar para o 10º saltando o 9º (sim, eu sei que esta frase tem números a mais). Mas de facto, quem termina o 8º vai para o 9º, quem não o termina pode ir para o 10º. Tem lógica, não acham?

A Ministra da Educação diz que esta medida não é facilitista, mas sim "uma possibilidade de percurso pessoal". Vamos lá ver: um aluno de 15 anos no 8º ano, por si só, não pode ser extremamente inteligente, em condições normais andaria já no primeiro ano do secundário. Mesmo que não, já reprovou pelo menos um ano, certo? Até aqui tudo bem. Porque raio querem passar um burro (atenção, não quero fazer generalizações falsas e injustas, por isso ressalvo alunos de 15 anos que tenham passado dois anos em voluntariado em África) directamente para o 10º? Se querem apressar a sua saída do ensino, que acabem com os 12 anos de escolaridade obrigatória. Além disso, se esse aluno reprovou é porque não tem capacidades para progredir, vai fazer o quê para o secundário? Ficar ainda mais burro? Basicamente esta ideia serve para recompensar os burros. Nada mais. E mais um pormenor: se o aluno, até então, não conseguiu progredir além do 8º ano e já tem 15 nos, alguém acredita que ele vai conseguir passar o exame do 9º ano? É contraproducente e não serve para nada.

Tal como li num cartoon no JN de hoje, seria bom que Portugal também se pudesse autopropôr a uma passagem semelhante à 2ª fase do mundial, sem ter de jogar a fase de grupos.
A próxima ideia talvez seja passar os alunos do 11º para o ensino universitário, ou dar-me um diploma de licenciatura agora que estou a terminar o 2º ano de curso. O sistema de ensino português nunca me agradou, mas agora sim está no seu auge. Isto não é so ridiculo, também é muito estúpido. Estúpido como ter 15 anos e continuar no 8º ano. Mas não tão estúpido como estar no 10º sem ter feito o 9º simplesmente por se ser burro. Se calhar foi esta complicação de números que baralhou o cérebro da Isabel Alçada. Ou se calhar também saltou um ano à frente na escola, não sei...

terça-feira, 1 de junho de 2010

Camarão à la Meireles

Pois é, a bola é coisa de apetites. Hoje Portugal lembrou-se (finalmente) de fazer um joguito mais ou menos. Talvez o nome do país adversário tenha feito salivar os jogadores, particularmente ao Raúl Meireles que, apesar de franzino e magricelas, provou ser capaz de encher a barriga (e o pé) como um homem grande. Ainda por cima, parece que pôs na conta do guarda-redes Kameni. E se os Portugueses ficaram com àgua na boca, acredito que o seleccionador dos Camarões (aquele que escolhe os melhores para o pitéu), tenha ficado com a cabeça em água. Por seu turno, os defesas camaroneses bem podem admitir que Cristiano Ronaldo e seus pares lhes deram água pela barba.

Eu, mesmo após ver este jogo razoavelzinho e relembrando a mediocridade do jogo com Cabo Verde e do anterior jogo com a China, continuo a achar que a metodologia de Carlos Queiroz mantém as minhas perspectivas em águas de bacalhau, sinónimo de que aposto zero euros num brilharete de Portugal quando começar o Campeonato do Mundo.

Resta-me espera que não seja o cada vez mais temido Rooney norte-coreano a afundar o barco, caso contrário afogarei as minhas mágoas numa garrafinha de água-pé ou, consoante as sucessivas sovas, num garrafão de aguardente.