Numa fatídica noite, eu, o Diogo e o Shot estávamos a fazer um trabalho para a universidade. No meio da correria que às vezes a vida nos pode infligir, aconteceu de só podermos fazer o trabalho no dia anterior à data limite de entrega.
Nesse dia tomamos a nossas posições e iniciamos a tarefa hercúlea e começamos a aumentar o passo para a maratona de 10 horas que se iria seguir. A primeira hora passou rapidamente – até conseguimos descobrir qual era o tema do trabalho. Mas na hora seguinte o ímpeto de trabalhar rapidamente desvaneceu e foi substituído por um misto de sono, tédio, preguiça, marasmo, letargia – estávamos às portas da morte.
São nessas horas que normalmente se iniciam as discussões pseudo-filosóficas intermináveis que costumamos ter. Os assuntos são variados: existencialismo, o estado político da nação, os atributos do mercado livre, passando por peidos e a infindável discussão da batalha Sagres x Super Bock.
Foi nessa noite que o Diogo disse aquele que é provavelmente o seu melhor aforismo: “Antes levar no cu do que levar no espírito”.
A interpretação metafórica é clara. A dor mental pode ser, em certas ocasiões, muito pior do que a dor física. Foi aí, nessa frase, que vi a razão pela qual estudo jornalismo.
Eu quero ser jornalista porque gosto de tudo mas também de nada em especial.
Eu quero perceber porque raio Portugal é um falhanço eterno. Eu gosto de política e economia e filosofia e história e literatura e cinema e sociologia. Mas não queria estudar nenhuma destas coisas em específico.
Jornalismo é engraçado. É um curso que te permite ser preguiçoso se compensares desalmadamente nas vinte e quatro horas antes da data-limite de entrega de um trabalho ou do dia do exame. É um curso em que metade do caminho é feito em piloto automático.
Há um desemprego brutal, é verdade. Mas eu, pelo menos por agora, sou irresponsável. E planeio ser por mais algum tempo.
Eu sei que o meu caminho depois do curso, depois do mestrado é incerto. Não faço a mínima ideia para que lado a minha vida vai verter. Mas no fim destas andanças todas espero que me saiba bem ter o conhecimento de que pelo menos tentei.
Poderei acabar o curso e arranjar emprego. Ou não. Posso conseguir ser jornalista. Ou não. Mas a verdade é que só tenho a certeza de uma coisa. Não suportarei ter um emprego normal. Por isso não fui para Economia ou Engenharia. Sei que me arrisco a conduzir táxis, ou entregar pizzas, ou fazer tele-marketing, ou instalar Meo na casa das pessoas.
Se eu conseguir ser jornalista sei que vou receber mal. Sei que vou ser explorado. Sei que será um caminho gigante e esburacado. Mas sei que se o conseguir, não quererei outra coisa.
Vou ser jornalista. Vou ser pobre. Que se foda. Antes levar no cu do que levar no espírito.
10 comentários:
foi tão lindo que partilhei no facebook.
poetas, eu diria.
Muito Bom!!!!!! Adorei! E também vou partilhar no Face.
A gerência agradece.
revejo-me =)
Muito bom!
Talvez o melhor post deste blog! Gostei!
"gostei bébé"*
Gostei *
Nem mais, Leandro.
Gostei mesmo disto. está genialmente certo.
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