domingo, 31 de janeiro de 2010

Tanque de guerra feminista



Este anúncio, com o intuito de recrutar mais jovens para a carreira militar, foi retirado do site do exército austríaco por ordem do Ministro da Defesa. A justificação foi..."sexismo".
Tenho de dizer que não vejo qualquer atentado à mulher neste anúncio. Pelo contrário, as mulheres presentes no anúncio fazem papel de mulheres atraentes e eu não as acho assim tão bonitas. Estão até, portanto, a ser sobrevalorizadas. As únicas mulheres que se podem sentir afectadas pelo anúncio são as mulheres realmente bonitas que não foram convidadas.
Mas há outro aspecto: as mulheres são atraídas por homens, os homens são atraídos por mulheres. Isto, salvo as excepções que tanto vêm agora á baila, é uma permissa da natureza humana quase geral. Criticar a representação desta atracção é retirar a naturalidade da relação homem/mulher. Porque é que representar mulheres atraídas por um homem fardado é sexismo? "Ai, porque dá uma imagem fútil e superficial da mulher". Aqui, eu sinto-me ofendido. O reclame da menina de gás da GALP, que se pavoneava de calções curtos perante o olhar babado de todos os homens que passavam na rua, e do meu aqui em casa, também demonstra uma imagem fútil que o homem não tem. O homem, como toda a gente sabe, prefere uma boa cabeça e um bom sentido de humor a umas boas pernas. Por favor, multem a Galp Energia por, através de uma rapariga de pernas à mostra, tentar trasmitir uma imagem tão errada dos interesses masculinos.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Morangos com açúcar

"Morangos com açúcar" tornou-se impreterivelmente um conceito que quase por si só define a geração adolescente actual (não só a camada adolescente, mas esta corresponde à maioria e é aquela sobre a qual mais se denotam os efeitos). A verdade é que estas palavras entraram de tal forma no subconsciente de toda a gente que eu próprio cheguei ao ponto de deixar de gostar de verdadeiros morangos com açúcar. Continuo a apreciar uns moranguinhos maduros com umas natas bem cremosas, mas apenas com açúcar tornou-se algo demasiado banal.
Hoje em dia sou "atacado" pelos morangos de todas as formas e feitios. Seja na televisão, nos monólogos irritantes da minha irmã em frente ao computador enquanto comenta fotos das amigas no Facebook, no autocarro onde os jovens se pavoneiam todos com o mesmo estilo e a mesma forma de falar, ou até mesmo da parte da minha avó, que insiste em comentar o lixo televisivo que essa série, telenovela ou como lhe queiram chamar representa.

O mais irritante é a forma como a maioria dos jovens acha que a forma de pensar e agir que vê transmitida na televisão é a mais correcta. Quem não vê ou age segundo os "critérios" da maioria, não é deste mundo, não segue as "ondas da moda" nem merece ter amigos. A minha irmã diz que tenho mentalidade de "velho" porque critico coisas como os "Morangos com açúcar", que não transmitem valores de nenhuma espécie, e porque não ouço músicas de dj's com nome de cão ou de cantores que começam as suas músicas a gritar o próprio nome.

Seja pela banalidade, pela formatação psicológica a que se submetem ou até mesmo pela pura idiotice, a verdade é que os jovens são cada vez mais iguais entre si. Não se dão ao trabalho de pensar um pouco, muito menos de agir, parecem feitos em série numa fábrica qualquer, um pouco como os chineses.
Não vejo "Morangos com açúcar" nem quero ver. Apenas quero que me deixem pensar que continuo a ser uma pessoa normal por não o fazer.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Conceito de Poder

Google x China

Quando dois gajos de 30 e tal anos podem mandar a China para o real carvalho, eu penso:

Mas que raio vou eu fazer na minha vida?


Actualização de última hora:

Já sei o que vou fazer. Vou cuidar dos milhares de órfãos do Haiti.

Nota: O título dessa notícia não é jornalismo. É chantagem emocional.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Bons portugueses

"A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não tinha inventado a roda." (Mário Quintana)

Diverte-me a forma como nós, portugueses, fazemos uma interpretação tão literal desta frase. Não deve haver povo no mundo que consiga fazer uma mistura tão deliciosa de preguiça e estupidez como nós.
Uma das coisas que mais me diverte é o facto de o português partilhar tudo o que é doloroso, estúpido ou de má qualidade. Querem um exemplo? Ainda ontem estava com estes dois que aqui me acompanham no blogue, quando um de nós decidiu beber de uma garrafa de "Super Nova Gasosa", afirmando em seguida com toda a convicção do mundo que aquilo tinha o mesmo sabor de um peido engarrafado. Os outros dois riram-se da situação, mas 5 segundos depois estavam também eles a provar da mesma bebida. Se aquilo soubesse simplesmente a gasosa, provavelmente teria ficado apenas pela boca do primeiro, mas como sabia a "peido engarrafado", os outros dois também beberam, e, tenho a dizer, com um enorme regozijo.

Esta é apenas uma de muitas situações do dia-a-dia português, cheio de pequenas peripécias que só nós, como bons portugueses, conseguimos tornar tão deliciosamente ridículas.

J.D. Salinger - (1919-2010)

Morreu o escritor americano J.D. Salinger.

"What really knocks me out is a book that, when you're all done reading it, you wish the author that wrote it was a terrific friend of yours and you could call him up on the phone whenever you felt like it. That doesn't happen much, though."

Absolutamente, sem qualquer ínfima sombra de dúvidas, o meu escritor preferido.
O único escritor do qual li todas as obras, publicadas e não-publicadas.
O único escritor que me fez gastar horas infindáveis a interpretar e a tentar entender a obra.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Who owns the pants?


(Escrevi este texto há uns tempos, hoje partilho-o, perdoem-me a falta de pertinência mediática do mesmo)
Acabou a questão dos casamentos homossexuais. Eu já não me sentia tão aliviado com o retirar de um tema da agenda pública desde que desistiram de encontrar a Maddie e Moita Flores perdeu protagonismo. Mas há certos pontos que me fazem um bocado de comichão nesta história toda, e o problema é que é um comichão interior, onde eu não chego e onde o Caladryl não alivia.

Primeiro, a possibilidade de me casar com o Leandro, posta nestes termos, é assustadora. Isto é um perigo real, e todo o cuidado é pouco, até porque adoro brasileiros e numa noite de bebedeira podemos querer oficializar a relação e as coisas podem ficar complicadas. A partir da aprovação do casamento, Leandro, se concordares, as nossas tertúlias interessantíssimas passarão a ser acompanhadas de água mineral em vez de cerveja.
Segundo, estamos no século XXI. O Homem já foi à lua e há Água das Pedras com os sabores mais exóticos. Como é que os preceitos religiosos ainda têm tanta força é algo que me ultrapassa. Não me vou alongar na questão religiosa, porque deus castiga e eu quero mesmo que o meu F.C. Porto ganhe o campeonato, mas custa-me ver um assunto que foi a votos há um par de meses, que compete somente a um estado que se quer laico legislar e que diz respeito somente aos interessados gerar tanta polémica pela pala que a Igreja construiu nos olhos dos crentes, ao incutir moralidade e imoralidade nos actos de outrem. Eu sei, sou suspeito, é normal eu não gostar da religião, porque o rímel acumulado nas pestanas da minha catequista em criança, enquanto ela me falava de Jesus, me provoca, ainda hoje, náuseas. Mas ainda assim, dou aqui a minha achega a todo este alvoroço, porque a Igreja é uma instituição, um clube, e, como tal, quem adere a tal seita é voluntariamente, e nunca toda uma sociedade deve ser arrastada para um determinado paradigma. A Igreja pode opor-se à realização de matrimónios entre pessoas do mesmo sexo, mas deve saber as limitações dos seus poderes (ou aquelas que deveriam ser as suas limitações) quanto ao que problemas sociais diz respeito.
Terceiro, os partidos de esquerda (BE, PCP e…PS) colocaram no seu programa eleitoral esta questão da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, enquanto a direita sempre se declarou contra. Referendo para quê, quando esta problemática, entre outras, já foi a votos? A falta de legitimidade política da Manuela Ferreira Leite, que dizia que o casamento era só pela procriação, é gritante. De resto, não entendo como é que o facto de o casamento ser para a procriação pode ser um argumento contra o casamento homossexual. Pensar que, se os homossexuais sempre tivessem casado, havia menos gente no metro de manhã, só me faz ser mais a favor. Mas mesmo isto parte da premissa de que os homossexuais, ao não poderem casar, se converteriam em heterossexuais e já teriam crias. Escandalizado cardeal de Viseu: impedir o casamento homossexual não vai fazer com que os rabichos se convertam ou desapareçam para um buraco onde possam viver a sua vida promíscua de badalhocos que são sem chatear os outros; vai simplesmente impedir que oficializem essa intimidade e não tenham direito a visitar o namorado no hospital ou a receberem heranças.
Deixem os homossexuais casar. Que sejam felizes, na sua casinha, com as suas alianças, a sua mulher-a-dias ucraniana. É com eles. Ainda para mais, homens que são, serão mais felizes que os hetero, porque se um deles pedir uma cerveja ao outro, o outro não irá reclamar e ordenar que o companheiro tire os pés da mesinha; vai buscar uma para ele e para o cônjugue, e sentam-se ambos a ver a bola.
Eu nem peço que passemos a falar de assuntos que realmente interessam, tenho os pés bem assentes na terra e não avanço logo para algo tão quimérico; só peço que passemos a outro assunto que não interessa e que esconda os assuntos que realmente interessam. Eu proponho um: cerveja sem álcool com sabor a pêssego? Isso não é cerveja, é compal. Homofobia é feio, mas a aprovação de pessoas que bebem cerveja que não tem álcool e que não sabe a cerveja é algo que deveria ser referendado.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Como se vai do Haiti para um Nespresso

Acho muito engraçado as pessoas ficarem chocadas com o terremoto no Haiti.

O Haiti é um país desgraçado há muito tempo.

Um país que nasceu de uma revolução de escravos, já foi colonizado, re-colonizado e re-re-colonizado, já sofreu uma ditadura militar que faz o Estado Novo parecer um castigo de uma semana sem telemóvel.

Um país que funciona a partir de esmolas de outros países, já que a ajuda financeira da comunidade internacional nem sequer se pode denominar como "apoio financeiro". São versão estatal de esmolas, um bocado de fita-cola numa hemorragia gigante.

Sejam lá quantas centenas de milhar de pessoas morreram no Haiti, morrem putos em África todos os dias há muito tempo de diarréia, cólera, fome, sede, Sida, malária, tiros de Kalashnikov, e facões do mato.

Basta vir um tremelique para o acontecimento se qualificar como uma notícia, em vez de ser uma tragédia da quotidiano.

Que aquilo é absurdamente mau é, agora não me venham pedir uns trocos para "ajuda humanitária" e andar por aí a chorar pelo Haiti que o Natal já passou.

E se querem organizar um programa televisivo de solidariedade ao Haiti, não ponham o George Clooney a apresentar. Ponham a Scarlett Johansson. A única coisa que o George Clooney provoca em mim é uma vontade inexorável de tomar um café.

Afinal quem é o Pai Natal?

Eu queria mostrar que estou a par da actualidade e que até tenho alguma cultura geral e espírito crítico, e para isso ia falar de política nacional e da questão do orçamento de Estado, mas quando penso em política lembro-me da Ferreira Leite, e quando me lembro dela fico com sérios problemas de evacuação intestinal, e por isso decidi falar da terceira questão que mais me intriga neste momento(a segunda fica para mais tarde): o Pai Natal.

O Pai Natal é turco. Para quem não sabe, a lenda do Pai Natal baseia-se na história de São Nicolau, que viveu na actual cidade de Demre, no sudoeste da Turquia. A sua ligação ao natal deve-se ao facto de os seus milagres envolverem usualmente crianças. Um dos mais famosos fala da ressureição de três crianças que tinham sido cortadas aos pedaços por um taberneiro local. O meu natal nunca mais vai ser o mesmo... Mas o mais bizarro vem a seguir. São Nicolau adorava crianças,e ajudava sempre os que necessitavam de apoio, mas era também o santo patrono dos comerciantes, juízes, penhoristas, padeiros, viajantes, marinheiros, ladrões e, leiam bem, assassinos. Depois de saberem isto, tenham mais cuidado com o gordo que entra todos os anos em vossa casa.

Afinal onde vive o Pai Natal? Lapónia, Pólo Norte, Noruega, as hipóteses são várias, cada uma mais estúpida que a anterior. Primeiro achava-se que vivia no Pólo Norte onde tinha uma grande fábrica de brinquedos e treinava as suas renas. Mais tarde juntaram à discussão mais estúpida do mundo um argumento científico: o Pai Natal não podia viver nesse local porque as renas não sobreviveriam sem líquen, inexistente no Pólo Norte, pelo que teria de morar na Lapónia. Sim, os finlandeses defendiam mesmo isto.Também há quem diga que ele vive na Noruega, embora não perceba muito bem porquê. Contudo, ninguém me tira da cabeça que o Pai Natal vive num estado qualquer do interior dos EUA, tipo Kentucky ou Tennessee, onde tem uma grande casa de campo e cria javalis. Tem todo o aspecto disso. Isto porque, para além de ter um contrato com a Coca-Cola, que lhe ofereceu a casa, é gordo como uma morsa, pelo que se deve alimentar o ano todo de fast food do Burger King ou KFC. Além disso, duvido que com aquele peso continue a ser puxado por renas, e nesse caso acredito que tenha uma criação de búfalos. Sentado numa grande poltrona, com um portátil no colo, o gordo mais fofinho do mundo vai lendo a sua conta de correio electrónico(sim, depois da web 2.0 o Pai Natal também aceita pedidos por email)), e comenta as fotos dos melhores amigos(Batman, Coelhinho da Páscoa e Cristiano Ronaldo) no facebook. Não é mais fácil para as crianças acreditar nesta história?

Outra coisa que me atormenta é o comum argumento paternal de que recebemos um pijama em vez de uma consola porque o Pai Natal achou que nos portamos mal durante o ano. Mas quem é que ele pensa que é para achar tal coisa? Para além de ter trocado a cor da sua fatiota por causa de um contrato milionário com a Coca-Cola(ganancioso de merda!), alimenta-se de hambúrgueres durante todo o ano, sem se preocupar que metade das crianças do mundo estão a seguir o seu exemplo. E mais, ainda utiliza escravos africanos para produzir os brinquedos em fábricas cuidadosamente escondidas no Cambodja. Sim, não me venham dizer que acreditam na história dos duendes que trabalham o ano inteiro para fazer brinquedos para todas as crianças do mundo. Em primeiro lugar, não podem trabalhar o ano inteiro porque a maioria das crianças só escreve as cartas em Dezembro. E em segundo, a ser verdade, os seus níveis de produtividade seriam elevadíssimos, e já teriam sido contratados pela Nike para fazer sapatilhas nas suas fábricas do sudeste asiático, em vez de utilizarem crianças de 10 anos.

Quanto às supostas renas do Pai Natal, são 9 e chamam-se: Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Blitzen, Donder e Rudolph. Tirem as vossas próprias conclusões.
Já agora, fiquem a saber que o correio oficial do Pai Natal fica em Rovaniemi, capital da Lapónia, e recebe 600 mil cartas por ano. Na minha cabeça, o Pai Natal conduz um Bentley, é divorciado da Mãe Natal e joga golfe com o presidente da Microsoft Bill Gates.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Resultados da 1ª Sondagem


Hoje, apresentamos os resultados da primeira sondagem. Ainda faltavam 5 dias para terminar a sondagem, mas penso não haver problema em adiantar um pouco as conclusões, já que dificilmente as respostas a este inquérito sofririam uma reviravolta, quanto mais não seja porque não temos assim tanta gente a visitar este espaço. E porque hoje sou eu a escrever e tudo o que são sondagens sobre narizes entusiasmam-me.

Os resultados são conclusivos. À pergunta "Nariz do Júlio Isidro - Erro genético ou Obra da engenharia?", 18 pessoas (30%) votaram na anomalia inata ao metabolismo, enquanto uma esmagadora maioria de 41 pessoas (70%) acredita, pelo contrário, que se trata de uma construção de origem humana.

Se dúvidas havia sobre a crença na capacidade humana a superiorizar-se à força da Natureza, estas foram totalmente dissipadas. A utilidade dos inquéritos que vamos apresentar neste blog será, frequentemente, posta em causa; mas a nossa capacidade de, a partir de uma questão aparentemente levianaea jocosa, retirar conclusões ao nível de ciência e religião é algo que deve ser considerado.
De facto, conhecer os nossos leitores é algo prioritário para nós, e foi bastante importante para o nosso trabalho apercebermo-nos de que as pessoas acreditam que nem Deus é capaz de fenómenos como o nariz do Júlio Isidro, preferindo acreditar que a inteligência humana é que o conseguiu projectar. Foi, portanto, essencial para nós percebermos que não deveremos fazer grandes elogios divinos nem considerações de superioridade de Deus em relação às técnicas humanas. O que para nós, amantes da Bíblia, é uma pena; mas fazemos tudo pelos nossos leitores.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Anarco-Patriotismo de Fachada

Há vários gestos patriotas:

- Existe a minha mãe, que como todos os portugueses, imagino eu, põe bandeiras à janela nas competições internacionais que a nossa Armada futebolística participa.

- Há também aquelas meninas nos ombros do pai no estádio com as suas carinhas pintadas de vermelho e verde a representar a esperança e o sangue.

- Existem aqueles cartazes com mensagens patrióticas republicanas que vão desde o simples "Portugal" ao "Cristiano Ronaldo, dá-me o teu ordenado".

- Há aquela senhora a ser entrevistada na televisão a dizer que os políticos são todos ladrões.

Depois existe...eu.

Eu, não preciso de ostentar nenhum símbolo retardado para mostrar que sou patriótico. Nem preciso de conhecer a discografia da Amália.

Eu leio jornais. Eu tenho uma noção mínima do que raio está a acontecer no nosso pequeno país, que apesar de todas as suas falhas (que são bastantes), tem um carácter incrível.

Eu digo isto, mas sei que em todos os outros países as pessoas pensam do mesmo modo sobre o seu próprio país. Mas não, Portugal é diferente, Portugal é especial, o povo português tem os melhores maneirismos e idiossincrasias de todos. Portugal é o melhor país do mundo para se pedir um café. Em nenhum lado há tanta cortesia no acto de pedir, beber e pagar um simples café.

Patriotismo não é pendurar uma bandeira de uma janela. É amar este país, apesar de todas as falhas. É reclamar constantemente, mas com lucidez, ao contrário de reclamar por reclamar, que parece ser também um desporto nacional.

Portugal não é o Movimento Perpétuo Associativo. O povo português é que é o Movimento Perpétuo associativo. Portugal é Grândola Vila Morena.

Patriotismo não é andar por aí com aquela poupa de enaltecimento do vinho do Porto, ou vangloriar-se de que "saudade" é uma palavra portuguesa. Foda-se a saudade. Foda-se o fado, já agora. Foda-se Os Lusíadas, A Mensagem, o Manifesto Anti-Dantas e tudo mais que se baseie nos feitos de gerações anteriores. O passado, por definição, já acabou.

Portugal tem imensos problemas. O défice, a dívida pública, a dívida externa, o SNS, a corrupção generalizada, a lentidão absurda da Justiça, a estupidez cultural na Televisão, o desemprego estrutural, a nossa economia aleijada que nunca se mantém ao passo das outras.

E não me dá nenhum gozo em dizer isto, porque eu adoro este país, mas parece que por enquanto continuaremos no cu da Europa em quase tudo.

Por isso até ao dia em que isto tudo não seja verdade, vou me concentrar nas pequenas coisas, nas boas coisas. No pastel de nata, no António Lobo Antunes, no comboio suburbano a passar pela beira do Douro, no golo do Rui Costa contra a Inglaterra no Euro 2004, na sapateira recheada de Matosinhos, no Palácio da Pena, no nosso clima e nas meninas do Minho.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Volto já

Tive algumas dúvidas quanto à minha participação neste blogue, mas quando vi que este espaço já conta com a opinião de dois benfiquistas, não podia deixar o meu camarada Diogo sozinho. Apesar de ele ser um "agricultor com esperança", como tantas vezes carinhosamente me diz, ninguém no mundo consegue ter mais esperança que um benfiquista, quanto mais dois.

Bem, sem nenhum assunto premente de momento, aproveito este primeiro post apenas para uma breve apresentação. Tenho a idade dos meus colegas de blogue, 19, que é a idade mais fixe de todas, porque podemos fazer quase tudo o que nos apetecer mas ainda não sabemos bem o que estamos a fazer. Além disso, podemos dizer a palavra "fixe". Sou ligeiramente maluco, mas não no sentido de tomar comprimidos, vestir uma das camisas de dormir da minha mãe e sair para a rua a gritar que perdi o meu bebé. Bom, quanto a esta última parte não posso dar certezas. Tenho uma predilecção por teorias da conspiração e adoro fenómenos naturais que possam acabar com o mundo. Podem esperar muitas ideias malucas da minha parte, mas quase todas têm pelo menos uma ponta de lucidez, espero eu. Também sou um crítico acérrimo da sociedade e do mundo, por isso não vou poupar palavras nesse âmbito. Para que não me venham tentar matar depois, também sou um grande fã de humor negro, por isso não levem a mal algumas piadas mais sinistras.

Para já sou feliz, estou a tirar uma licenciatura na área que sempre quis, tenho inteligência suficiente para não estudar e passar a tudo, tenho uma namorada altamente, tenho uma Xbox 360 com muitos jogos, sei escrever e ler, a minha mãe cozinha muito bem e tenho amigos malucos como eu (também gosto muito dos outros).

Volto já!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Nostalgia

“Já és grande, baixinho”, diz o meu pai para mim, eu que já sou grande e estudo na universidade. E do nada, isso muda. Agora tenho oito anos outra vez e o meu pai pergunta-me se eu vou jogar futebol hoje.
“Sim pai”, respondo diligentemente. Este é o meu pai, sempre com a sua barba por fazer, homem de hábitos, homem de bons vinhos, homem da terrinha.
“Então vai lá, baixinho”
Ele chama-me “baixinho”, nunca perdeu esse hábito até hoje, mas o hoje em que tenho 19 anos.
“Vê se marcas um golo, baixinho”

Eu era baixinho, sentava-me sempre no meio do banco de trás do carro, a minha mãe a criticar a direcção do meu pai enquanto ele avançava na auto-estrada em alta velocidade e eu sempre a perguntar se ainda faltava muito para chegar.
- Quanto tempo falta para chegar?
- Ainda falta, baixinho.
- Quanto tempo falta para chegar, mãe?
- Não sei, Lélé.
A minha mãe chamava-me Lélé, eu não sabia porque as pessoas gostavam de chamar as outras pela primeira sílaba do nome.
- Então quantos quilómetros?
- Não sei baixinho.

Hoje continuo “baixinho” apesar de ser o mais alto da família, mas isso não importa, sempre serei baixinho, para eles ainda sou aquele miúdo envergonhado que se escondia nas saias das titis e das mamãs, a fugir do senhor Casimiro, que dava cachaços quando me cumprimentava. Para eles serei sempre baixinho. Agora estou a mentir, não é só para eles, é para mim também. Eu ainda sou aquele miúdo, eles estão certos.

“Não mintas, baixinho” – diria o meu pai, se estivesse aqui, mas ele não está, agora moro sozinho, nesta casa desarrumada e confusa cheia de livros por ler.
“Vais ser médico, baixinho” – sentenciava muitas vezes o meu pai, pois os médicos são bons, eles ganham dinheiro e ter um doutor na família dá para regozijar.
“Não, quero ser jornalista” – dizia o baixinho, digo eu. O baixinho queria ser biólogo e engenheiro e padre e jogador de futebol e artista e músico e agricultor e talhante e médico também, já agora. O jornalismo veio depois, quando o baixinho queria aprender a escrever, mas descobriu que isso não era sério.

“Lélé.” – gritava a minha mãe, na nossa cozinha minúscula de quando morávamos no Brasil, ela a pilotar o fogão a fazer bolos de chocolate e brigadeiros, desesperada enquanto eu não parava de jogar no computador, ou de ver televisão, ou de ler, de não fazer nada e tudo e nada e tudo.

“Lélé!” – agora num grito mais estridente, mais autoritário, mas sempre com carinho, pois as mães são aquelas que fazem tudo com carinho, mesmo mandar. As mães, digo a minha mãe, é dessas, faz tudo sempre bem, nunca mal, sabe a resposta de tudo, mesmo quando a resposta que ela me dá não tem nada a ver com a pergunta. Tudo o que ela fala é útil, ela já havia de escrever um livro de receitas, assim sem pensar muito, pois mesmo quando ela fala de temperos ela fala de outra coisa, assim, só porque ela pode e sabe. Esse livro daria jeito aos miúdos que caem de bicicleta nos parques.
Agora tenho seis anos, sou ainda mais baixinho, de mãos dadas com a minha mãe, com a minha tia, com o meu pai, com os meus irmãos, sempre a observar tudo o que se passa, sem deixar passar nada.

O baixinho já sabia que queria falar das coisas que via mais tarde, ainda não sabia o que isso era mas sabia que um dia viria a dar jeito, ver aqueles miúdos desengonçados a correr atrás de pombas no parque, a caírem de bicicletas todos ao mesmo tempo como orquestras, a esfolarem o joelho, que começa a sangrar.

“Eu sei que dói, Lélé” – diz a minha mãe, eu agora com o joelho esfolado, caí de bicicleta no parque, aquela areia tão grossa e áspera me abriu o joelho. A minha mãe põe alguma coisa na ferida, um líquido transparente que arde, e que faz chorar, mas também de alegria porque eu sabia que um dia ia me lembrar daquilo, que as pessoas gostam de ouvir histórias das outras, pelo menos eu gostava. Se não fosse para elas, era para mim, porque o baixinho continua baixinho e gosta de ouvir histórias. Ouvir histórias para passar os dias faustosos, os dias odiosos, os dias viciosos, os dias tediosos e os dias grandiosos. Para chegar aos dias em o Lélé baixinho é só baixinho, é estranho eu sei, sou baixinho apesar de ser alto.

Agora com 19 anos, chego em casa, a casa dos meus pais, porque a minha casa não é casa, é só minha, logo não é casa.
“Queres comer?” – pergunta a minha mãe ainda a pilotar o fogão.
“Então baixinho?” – pergunta o meu pai ainda a insistir em questões de altura, e importância, e grandeza, e honra, e responsabilidade. Todas essas coisas que ele usa para medir as pessoas. Um dia hei-de lhe perguntar se já sou grande, mas não adianta. Eu já sei a resposta.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Socos


Sá Pinto demitiu-se do cargo de Director de Futebol, depois de se ter envolvido numa cena de pancadaria com Liedson. Aparentemente, Sá Pinto juntou-se aos adeptos nas críticas a Rui Patrício, depois de este último ter cometido um erro que muito se justifica com o deplorável relvado de Alvalade. O avançado brasileiro não gostou das críticas ao companheiro, e fez questão de o explicar a Sá Pinto, espetando-lhe umas solhas, que só pecam por tardias.
Sá Pinto deixou cair agora uma máscara que há muito que não lhe assentava. Sempre foi um arruaceiro no campo, e a gravata não lhe trouxe os valores que nunca teve. Desde que chegou que só quis cultivar uma imagem de proximidade com os jogadores, de solidariedade, de união. Mas ser um dos líderes de uma equipa e criticar um jogador por um erro em vez de o defender, não merecia o Liedson a chegar-lhe a roupa ao pêlo. Merecia o Bruno Alves.
Razão tinha o Paulo Bento. Sá Pinto é uma besta.
O Liedson, esse, não merecia uma multa. Merecia uma melhoria salarial.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Máquinas


Sou um jogador inveterado de Pro Evolution Soccer, e cada vez que jogo contra a consola e perco sinto que as máquinas estão cada vez mais próximas de terem hipóteses de dominar o mundo. Desde o Deep Blue que o medo da inteligência artificial ultrapassar a humana assola a sociedade, mais concretamente aquele homem do reclame do Calgon, que perderá o emprego quando as máquinas de lavar puderem finalmente, e sem ajuda exterior, limpar o seu próprio calcário.
Mas este respeitável senhor não deverá ser o único com emprego ameaçado com este avanço tecnológico. Não é necessário fazer muitas contas para perceber que uma máquina bate aos pontos um trabalhador no que toca à produtividade, principalmente quando esse trabalhador é português. E também é fácil entender que a máquina não necessita de incentivo financeiro, pois não deverá ter família em casa para alimentar, e ainda tem a vantagem de ser difícil alguma máquina adormecer porque o despertador não tocou.
Criar algo superior a nós é um conceito difícil de compreender. De resto, Deus só o fez quando criou a Scarlett Johansson.
E é por ter medo de ser dominado pelos robôs que eu sinto o peso de toda a humanidade quando jogo PES, e respiro de alívio quando ganho, com a certeza de que, por muito que as máquinas tentem avançar, eu mantenho-me firme nas minhas capacidades humanas de dar cabazadas.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Sociedade sem geléia


Hoje vi um polícia com metade do meu tamanho, o que me fez sentir, por um lado, superior a uma força de segurança e, por outro, extremamente desprotegido, quando aquele que deveria ser o meu escudo é que parecia necessitar de protecção. O homem era mesmo pequeno, ao ponto de eu achar que era algum miúdo que ia para um baile de máscaras. Um polícia é suposto impôr-se, não que me dê vontade de lhe fazer uma festinha no chapéu.
Os velhos cheiram cada vez pior. Carruagem de metro em que vá uma velha é mais que certo aquele pérfido odor ainda não identificado pela comunidade científica. O cheiro das velhas é um dos grandes mistérios do mundo actual, tendo muitas delas roupas e jóias suficientemente caras para podermos assumir que devem ter banheiras em casa, ou pelo menos um pequeno bidé. Estes seres fazem com que a frase "a sociedade está podre" assuma todo um novo significado.
Já não há bolos frescos nas confeitarias. A crise obriga a poupança, e poupança obriga a servir croissants que sobraram do dia anterior, "são frescos?", "são, menino, feitos há pouco, feitos há pouco." Pouco é relativo. A Torre de Khalifa foi inaugurada há pouco.
Como é suposto eu sentir vontade de pôr um pé fora da cama de manhã, saindo de um mundo só meu, quente e confortável e em que o único cheiro, por muito mau que seja, é só o meu; para sair à rua, encarando uma sociedade em que há polícias anões, os sovacos das velhas cheiram a refogado e os croissants já não têm aquela geleia a cobri-los?

domingo, 17 de janeiro de 2010

O Túnel

Dantes dizia-se que há quem ganhe campeonatos na “Secretaria”. Pois bem, é preciso inovar e depois dos sumaríssimos (saudoso McCarthy), do goal average na Taça da Liga (cuja discussão sobre o real significado da expressão achei deliciosa) e das tentativas de tirar o sono a Michel Platini eis que se descobriu o local onde se pratica o futebol mais bonito do campeonato de boxe: o “Túnel”.
Treinadores de bancada por essa Lusitânia fora já repararam milhões de vezes que há um denominador comum nestes recentes imbróglios: o clube do milhafre está em todos. Gostaria de deixar a minha breve opinião a essa gente: Rui Costa não é parvo. É ele que mexe os cordelinhos e provoca os adversários? O crime futebolístico, tal como outros tipos de moscambilha, necessita de um “je ne sais quoi” de requinte. Não acredito sinceramente, que o director desportivo do pseudo-maior-do-Mundo, caso fosse ele homem de tais patranhas, deixasse que estes casos viessem a público com um autor tão óbvio que, com certeza, Horatio Nelson do “CSI” não necessita de ser chamado para descortinar o culpado.
E atentem à típica indumentária de Rui Costa: cabelinho todo penteadinho para trás, fatinho impecável, camisinha aberta até meio e, para compor o ramalhete, crucifixo ao pescoço. Faz lembrar aqueles mafiosos italianos não é? (Ou um cigano endinheirado também). A verdadeira Máfia nunca faria as coisas de maneira tão ridiculamente clara. Não é o Sr. Rui o cabecilha desta teoria da conspiração, mito urbano-desportivo, apito encarnado, whatever…
São tretas entre os 22 que dão pontapés na bola (e uns nos outros), não se queira meter o pessoal das manobras de Secretaria nos escuros túneis onde gente a cheirar a cavalo se digladia.
Exclama-se que o Benfica é que fez porcaria na pedreira de Braga, que o Benfica é que anda a fazer pressão para que o Incrivel e aquele romeno mauzão não joguem o resto da época e que até terá sido o tal que chora quando marca ao seu “clube do coração” que sugeriu (ou mandou sugerir) que esses senhores fossem suspensos preventivamente. Eu digo antes: Se Rui Costa é verdadeiramente homem das moscambilha e anda neste género de jogada escura, provavelmente a esta hora sabe onde vocês moram, pelo que peço encarecidamente muita moderação e cuidadinho. Tenham cuidado ao sair à rua.

André "Shot" Duarte
(brevemente com o seu próprio perfil)

sábado, 16 de janeiro de 2010

Eu percebi que estou a ficar velho....

...quando notei que os jogadores de futebol promissores são bem mais novos que eu.

Daqui a bocado tenho que comprar a minha boina, os meus sapatos-pantufas, os meus óculos ligeiramente escuros e o meu cachimbo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Distorções

“Tens de ter mais cuidado com a tua aparência”
O espelho do quarto de banho da minha avó é de uma crueldade atroz. A luz é extremamente forte nessa divisão, pelo que o espelho mostra a nossa cara exactamente como ela é. E nenhum ser humano devia ser forçado a ver a sua cara exactamente como ela é. Viver com a ilusão de que somos belos é falacioso, mas muito fácil; viver com a certeza de que não somos assim tão bonitos é penoso. Podia perfeitamente ter encarado o mundo desconhecendo as minhas olheiras; mas que tipo de dia posso eu ter sabendo que, por muito interessantes que as minhas considerações sejam, as pessoas estarão a atentar mais aos aros roxos debaixo dos meus olhos do que ao que eu digo?
“Não tenho idade para ter rugas de expressão”
Culpo as tardes de Verão na pré-adolescência, em que me deitava na varanda da minha casa, e ficava a ler livros melosos como o Coração, de Edmundo de Amicis e nem sequer tinha uns óculos escuros decentes para combater o sol. Além de ser um ranhoso por ler livros daqueles, era um ranhoso sem estilo; pelo que a única maneira que tinha de combater o sol era através de expressões faciais, como os cantos da boca para cima de forma a diminuir o contacto da luz com a retina, o que deu origem a estas linhas à volta da boca. A minha preocupação por preservar as córneas acabou por me colocar parênteses na face, são prioridades que um homem não calcula, caminhos bifurcais que se julgam unos; como haveria eu de pensar que aquele franzir da pele nas tardes de Verão de 2002 seriam a minha preocupação numa manhã de 2010?
O mesmo se passa com o meu nariz que, observo agora, é do tamanho de um comando de televisão. Quando era pequeno, ganhei o vício de desobstruir as vias nasais e auditivas com um processo rudimentar de tapar todas as saídas possíveis de ar da minha cara e expirar pelo nariz com toda a minha força. A imagem mental é aterradora, a real não é mais agradável, mas era algo que me sabia muito bem sempre que tinha otites, que era algo tragicamente frequente. O resultado está à vista, este apêndice nasal, esta cruz que carrego.
Não está correcto dizer que tenho de ter mais cuidado com a minha aparência. Tinha de ter mais cuidado com a minha aparência. No passado.
Tinha de ter pensado nisto quando lia na varanda sem óculos de sol e combatia otites da mesma forma que seriam combatidas no paleolítico.
Agora que se lixe. Hoje não tomo banho.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O Natal chegou atrasado

Sismo no Haiti faz cem mil mortos




Parece que o Natal chegou mais tarde para os fotojornalistas.

Já consigo imaginar as centenas de fotos da tragédia.

A foto de uma criança nos escombros gentilmente a olhar para o infinito. Alguém a chorar baba e ranho enquanto abraça um cadáver. Uma mão a emergir das ruínas de um prédio.

Enfim, fotos simples e tristes, mas que não só transmitam o sentimento da tragédia, como também representam a transcendência da situação social do Haiti na última década.

Ah, a bela arte do jornalismo...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Old McDonald had a farm


O ser humano é um ser eternamente primitivo. Podem-se inventar as mais inovadoras tecnologias, que uma pessoa nunca se conseguirá descolar totalmente das suas raízes. E se provas faltassem para atestar isto, o fenómeno Farmville confirma-o. O Farmville é, actualmente, o jogo mais jogado da rede social Facebook, e consiste em tomar conta de uma quinta virtual. Estamos no século XXI, há aceleradores de átomos capazes de engolir o planeta. Vivemos no fascinante mundo em que, através de uma rede social, podemos contactar em tempo real com um trolha do Sri Lanka. Mas os utilizadores optam, em vez disso, por plantar batatas e abóboras, e em vê-las crescer fortes e viçosas.
Eu jogo apenas um jogo online, que consiste em treinar uma equipa de futebol virtual e jogar contra as equipas de compinchas meus. É um jogo que alimenta o meu gosto pela bola. É por isto que me custa compreender o fenómeno Farmville, pois nunca me passaria pela cabeça que haveria tanta gente louca por poder explorar virtualmente o reprimido gosto pelo mundo da agropecuária. O ministro António Serrano agradece.
Agora, caro leitor, se me dá licença, vá lá dar de comer às suas galinhas para ganhar mais uns pontitos, que eu tenho de decidir se jogo em 4-4-2 ou em 4-3-3 no próximo jogo.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Carta Aberta a Isilda Pegado

O Diogo roubou a minha ideia de fazer uma carta aberta. Mas pronto, ao menos a pessoa a quem eu envio a carta é real. E isto consumiu 20 minutos da minha vida.

Querida Isilda Pegado,

Vou tentar dizer isto de um modo simples e claro, com delicadeza e respeito em relação às tuas crenças e ideias arcaicas.

Há muitos meses que eu vejo-te por aí, perdida numa cruzada sem sentido, ora tristonha, ora revoltada. Mas minha estimada amiga, queria chamar-te à atenção relativamente a algumas coisas que tens andado a dizer e a pregar.
Eu sei que tu, como fundamentalista cristã, tens que ostentar a bandeira de Jesus. Eu percebo, acho que Jesus é um fofinho. Além do mais, todos temos que puxar a brasa à nossa sardinha.

O problema é que eu não consigo ignorar os teus argumentos ridículos e as frases polidas e suaves que usas para dizer uma única coisa: Gays não se podem casar porque Jesus não gosta de larilas.

Recentemente começaste a gritar que arranjaste 90 mil assinaturas a favor do referendo sobre o casamento homossexual. Disseste mesmo que os Estados Unidos realizaram um referendo na Califórnia que anulou a lei do casamento homossexual.

Querida, desde quando vamos começar a ter os EUA como ponto de referência social?

Daqui a nada começas a lutar pelo armamento nuclear, por um sistema de saúde ridículo e pelas facilidades no acesso a armas de fogo. É que se é para ser assim vamos já invadir a Galiza, a Madeira, Brasil, Praia e Bissau, Angola, Moçambique, Goa e Macau e mais tudo que se mova ou tenha flatulências estranhas.

Esbracejaste, lutaste, gritaste pela inconstitucionalidade na lei, mas chegou o momento em que deves recolher as tuas tropas.

Por isso, vai à Fnac, compra uma temporada de Sex and The City, vê a telenovela da TVI, melhora as tuas capacidades culinárias, aprende jardinagem, enrola-te no sofá com cobertas e come uma caixa de chocolates sozinha. Faz o que seja necessário para ser uma menina grande e aceitar a realidade das coisas.

O século XXI já é quase um pré-adolescente e eu odiaria que ele conseguisse aumentar o avanço de maturidade e tolerância que já tem sobre ti. E eu tenho medo, um medo muito grande que tu ainda estejas assim quando começarem a legislar sobre a legalização de cannabis, sobre a adopção por casais homossexuais e sobre tudo aquilo que é progressivo e adaptado à realidade.

Se queres lutar por alguma coisa, luta para despachar a chegada do Starbucks ao Porto. Não há nada que melhor do que assistir à lenta implosão de estupidez do nosso país enquanto bebemos café de qualidade e ouvimos música ambiente merdosa. Depois anda lá ter. O primeiro café é por minha conta.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Carta aberta ao meu amigo Tomé

As cartas abertas são uma moda curiosa. Fazem-se cartas abertas a todo o tipo de pessoas, desde autarcas ao primeiro-ministro, passando ainda pelo Presidente da República, e até a críticos ou escritores. No fundo, são cartas que podiam perfeitamente ser privadas, mas que são expostas para toda a gente ler, no sentido de obter um feedback positivo que dê ainda mais força à mensagem produzida na carta.
Eu sou um tipo que gosta de se manter na moda, porque me sinto muito sozinho quando não estou in. Eu ia enviar esta carta ao meu amigo Tomé, que mora com a mulher em Moroni, capital das Ilhas Comores, desde que seguiu o exemplo do Abel Xavier e se converteu ao islamismo. Sendo assim, aproveito esta onda de cartas abertas e exponho esta aqui, que é da maneira que poupo em selos.


Amigo Tomé,
Espero que não te tenham obrigado a deixar crescer a barba, e espero ainda mais que tenham convencido a tua mulher a fazer o bigode. Sei que consideraste bem esta tua conversão, e como tal tens todo o meu apoio e espero que encontres finalmente o refúgio que ambicionavas nessa tua nova religião.
Aqui em Portugal as coisas estão basicamente na mesma. O Benfica continua à frente do campeonato, o que me deixa de tal forma enjoado que emagreci vinte quilos desde o jogo da Luz, e como só me sobram cinco, espero pela minha saúde que o meu Porto arrebite, porque senão desapareço e eu queria ver se ainda ia à Queima das Fitas. O teu Sporting continua muito bem colocado na luta pela manutenção.
Tem estado mau tempo. Eu confesso que o frio me incomoda sobremaneira, porque tenho uma infeliz tendência de ficar com o nariz vermelho em temperaturas baixas, o que, conjuntamente com o meu elevado tamanho de calçado, pode explicar o facto de se dirigem tantas crianças a mim a pedirem-me que lhes faça um balão em forma de cão-salsicha.
O desemprego ainda é alucinante, a dívida governamental idem, mas estamos no topo do ranking europeu de e-government, que ninguém sabe muito bem o que é, mas é sempre bonito porque agora com o novo acordo ortográfico ninguém sabe bem o que fazer com os hífenes, mas o do e-government ninguém o tira.
O resto mantém-se tudo: o Francisco George continua sem encontrar um barbeiro; a nave-mãe ainda não veio buscar a Vanessa Fernandes; e o Sócrates ainda veste Armani.
Ninguém sabe muito bem em que pé está a história da Face Oculta desde os robalos do Vara, por isso não me perguntes. Ninguém sabe muito bem o que diz a conversa dele e do Sócrates ao telefone, e ninguém sabe muito bem se é relevante ou não, porque ninguém sabe muito bem se o Pinto Monteiro esconde alguma coisa ou não. Tenho a impressão que neste país ninguém sabe muito bem nada de relevante, por isso fiquemos por aqui.


Abraço do teu amigo,
Diogo

P.S. Envio-te depois uma caixa de bolinhos de bacalhau. Deves estar cheio de saudades da comida de cá, porque agora só deves comer carne de cabra. Mas alimenta-te bem agora, que quero ver como te aguentas no Ramadão, tu que desesperavas quando íamos a um restaurante e a comida demorava e tu comias o pão todo das entradas, e ainda metade das azeitonas. É da maneira que perdes essa barriga.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Empréstimo

Hoje nevou em Braga. Não foi nada de monumental. A neve era fraquinha, derretia mal tocava no chão. Parece que pelo Porto e arredores aconteceu o mesmo.

Este fenómeno meteorológico não me provocou nenhuma revelação transcendente ou espiritual. Simplesmente lembrou-me de que lá fora está frio e que hoje parece melhor abraçar as minhas raízes portuguesas e o seu traço sui generis mais marcante: a procrastinação.

Fico então a dever um post.

Pago daqui a dois ou três dias, com juros.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Cicatrizes

Se há parte do corpo que define toda a minha personalidade é o meu braço direito. Além de ser comprido e esguio, tem duas cicatrizes notáveis, o que desde logo realça o meu lado criminoso.
Uma delas foi provocada por uma operação a um cravo que me nasceu no pulso, cujas marcas são, não raras vezes, confundidas com tentativas falhadas de suicídio. Isso pode ser uma explicação para nunca me darem uma faca com serrilha na cantina. A cautela é atenciosa, mas as minhas tentativas de cortar o gorduroso bife são tão infrutíferas e deito tanto arroz para fora do prato com o processo, que, aí sim, a vontade de cortar os pulsos é enorme.
A outra cicatriz foi causada por uma lâmpada: adormeci a ler, com o candeeiro demasiado perto da cama, e queimei o braço durante o sono. A característica a retirar daqui poderia ser gosto pela leitura, mas prefiro realçar a desatenção e a propensão para livros aborrecidos, que nem dão tempo para desligar a luz antes de adormecer a lê-los.
Os traços da personalidade costumam-se ler nas mãos. Os meus estão claramente no braço.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Agora é qu’é a sério!

“As contratações do Sporting assustaram muita gente” até dei um salto da cadeira quando li esta farpa prodigiosa do “sempre-sorridente-e-exageradamente-confiante” senhor Carlos Carvalhal. Ora pois, a esta hora imagino as insónias de Domingos Paciência, Jorge Jesus e Jesualdo Ferreira, não encontrando solução para a caminhada triunfal que será a restante época sportinguista com o novo “super-ultra-goleador-qual-upgrade-do-Liedson”, o francês Sinama-Pongolle.

Evitando a brejeirice tipicamente lusitana de quem já milhões de vezes se lembrou de que “Pongolle” tem qualquer coisa a ver com os habitantes de um país a norte da China, limito-me antes a referir que, em Espanha, Sinama-Pongolle é carinhosamente apelidado de “Sinalma-Singol” (tradução literal: Sem Alma-Sem Golo), alcunha que, dada a estrondosa capacidade negocial de José Eduardo Bettencourt e seus pares, justifica plenamente o investimento de 6 milhões de euros neste jogador, cujo momento alto da carreira são os 11 golos marcados na Liga espanhola, ao serviço do todo-poderoso Recreativo de Huelva, depois de ter sido o director do Departamento de Aquecimento de Bancos do Liverpool e, mais recentemente, assistir com admirável frequência aos jogos do Atlético de Madrid, junto dos adeptos colchoneros, no estádio Vicente Calderón. Talvez tenha comprado um bilhete de época (?)…

Assustados devem ter ficado Lito Vidigal, Paulo Sérgio e Carlos Brito, agora que o clube de Alvalade decidiu mostrar os dentes, acenando aos ricalhaços 6º, 7º e 8º classificados com milhões fresquinhos, aparentemente oriundos de um poço de petróleo descoberto ao largo da toca do leão. Igualmente devem chorar baba e ranho, agora que Angulo e o wannabe-striker Felipe Caicedo voltaram para a anedota de onde saíram.
No meio disto tudo, tenho pena de Paulo Bento. O Capitão América sportinguista durante quatro gloriosas épocas, recheadas de enorme sucesso tanto nacional como a nível internacional, andou durante todo este tempo a contar os trocos para poder comprar a laca com que mantinha o seu imaculado penteado no lugar, deixou de beber champagne Don Pérignon e passou a comprar o espumante do Pingo Doce, deixou de usar fatinhos Lanidor e começou a ir à feira de Carcavelos com a mesma frequência com que comprava jogadores em promoção na candonga. Saiu porque lhe faltavam meios.

Chega o sempre felicíssimo Carlos Carvalhal e eis que aparece dinheirinho do bom para esbanjar nas férias do Natal, numa imitação mais humilde dos vizinhos da Segunda Circular. Cheira-me que Bettencourt ganhou o jackpot do Roda Você e não disse a ninguém.

Para terminar, só devo dizer que achei a contratação do João Pereira uma iniciativa bastante feliz, na medida em que foi o primeiro passo para a abertura de uma auto-estrada nas imediações do Estádio Municipal de Braga, sendo que a empresa responsável pela sua construção é presidida por Miguel Garcia, especialista na abertura de vias de fácil circulação, com um longo currículo e vasta experiência e vários troços abertos entre Alcochete e o Estádio de Alvalade.

André "Shot" Duarte

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os melhores amigos são os filhos da puta

Vamos por partes.

Antes de mais, reparei que não emiti nenhuma espécie de regozijo pelo início do blogue. Então faço já: abramos o champanhe, sacrifiquemos 300 vacas, dêmos pulinhos de alegria, rebentemos os fogos de artifício e soltemos os balões.

Contemos até 5 para dar tempo de o Diogo fugir, um sintoma clássico do seu síndrome mariconço de fobia de balões e objectos insufláveis em geral. 1,2,3,4,5.

Apesar de ser a favor do casamento homossexual, chamei o Diogo de mariconço. Não é homofobia. Muito menos falta de educação. É pura amizade e camaradagem. Eu chamo de “maricas” e “filho-da-puta” às melhores pessoas que eu conheço. Aqueles que eu por algum motivo não simpatizo com a fronha eu até costumo tratar por Senhor, Senhora ou algum epíteto sem qualquer conotação pejorativa. Esses terão motivos de preocupação. Não os meus filhos da puta.

Mas continuando para assuntos menos importantes...

"Ninguém será grande líder se quiser fazer tudo sozinho, ou ter todos os louros por o ter feito." - Andrew Carnegie

Esta citação simplifica de modo magistral(como todas as grandes citações) o Engº José Sócrates. Eu até nem sou daquelas pessoas que nutre um ódio incondicional pelo nosso Querido Líder. Mas a perfeição deste aforismo leva-me a efectuar aqui uma pequena crítica.

Muito simplesmente, o Partido Socialista é o Sócrates. Ele governa com um braço de ferro, ora limitando a margem de manobra da ala do PS mais à esquerda, ora limitando a margem de manobra dos seus deputados mais ao centro. E assim vai ele, orgulhosamente só, por mares nunca dantes navegados, a conduzir esta barcaça para algum lugar.

O seu outro erro também é simples. Sócrates faz questão de chupar todo o crédito a qualquer iniciativa do seu Governo. Seja nas medidas que supostamente nos levarão para o oásis tecnológico, seja nas medidas mais contestadas pelo populacho.

A última chaga é o seu optimismo inerente. De acordo com Sócrates, a nossa economia já dá sinais claros de recuperação, estamos na vanguarda das políticas ambientais, e o nosso sistema de educação é revolucionário.

Em Portugal, onde o pessimismo é a religião oficial, isto é um erro crasso. Os portugueses não vivem, não esperam por tempos melhores. Os portugueses sofrem, perdidos em nostalgia e saudade. Optimismo, só nos adeptos do Benfica. Mesmo estes, já andavam preparados para as ruas da amargura e esquinas da negatividade, até que chegou D. Jorge Jesus, numa manhã de neblina, pronto para levar a nação benfiquista para a glória, de onde nunca saiu, de onde nunca sairá.

Amén.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Verdade ou Consequência(s)

A petição pela Verdade Desportiva, iniciativa do jornalista Rui Santos, foi entregue hoje no Parlamento, com inovações como instauração de tecnologia no futebol. Não foi só o Henry que recebeu esta notícia com tristeza. Também eu a li desiludido, já que sou um fervoroso adepto da Mentira Desportiva.
Tenho grande receio que os erros de arbitragem comecem a escassear. Os erros de arbitragem são, actualmente, o grande motivo de interesse do futebol português.
O futebol precisa de penalties não assinalados. Nem consigo imaginar o quão pobres seriam as minhas segundas-feiras de manhã sem poder discutir os casos da semana. O Leandro a dizer-me que o Aimar é empurrado, eu com a certeza de que ele se atirou para o chão, numa discussão que, não raras vezes, acaba em violência. O quão vazio seria ver notícias em sites desportivos sem ter a caixa de comentários cheia de contestações ao apito. O futebol necessita disto como a Manuela Ferreira Leite precisa daquele colar de pérolas. Mas ninguém parece entender esta premissa.
A magia do futebol está no erro humano. Se um guarda-redes sofre um “frango”, um médio falha um passe letal ou um, vá lá, Postiga falha um golo à boca da baliza, porque não deixar o Olegário Benquerença assinalar mal um penalty? Robotizar algo que se pretende humano é o derradeiro passo para o futebol 2.0. Não sou um conservador, mas gostava de poder continuar a não conseguir ver um jogo de futebol sem insultar o árbitro. Chamar nomes à mãe do árbitro é a gasolina que move os adeptos. Os bilhetes já são tão caros, já se fala tanto em pouca gente das bancadas, e vão retirar ao futebol a sua principal iguaria. Quem é que nós adeptos vamos insultar agora? A mãe do computador que prova inequivocamente, e através de um chip inserido na bola, que esta entrou mesmo na baliza?
A petição parece-me totalmente inútil. É fácil arranjar tantas assinaturas pela verdade desportiva. É um conceito bonito, acabar com corrupção e fomentar a lealdade e a justiça, qualquer um assinaria. Mas há lobbys que não resultam. O futebol é como o meu frigorífico: alguma coisa cheira mal lá dentro, mas eu não sei bem o que é. Mas também não ligo muito: pego na Nutella e vou comê-la com os dedos.
É esta capacidade de ver podres e, em vez de tentar apagá-los, apreciar o que há de mais doce no futebol, que falta a esta gente. Eu quero continuar a ter erros de arbitragem e discuti-los com os amigos. São momentos de felicidade única.
Se querem discutir alguma coisa futebolística na Assembleia da República, proponho um tema: a hipótese de um referendo sobre o bigode do Luis Filipe Vieira. Agora que penso nisso, já houve recentemente um referendo relacionado com o aborto. Proponho outro então.
Hulk e Sapunaru estão suspensos por tempo indefinido. Isto é desde logo preocupante, tendo em conta as complicações jurídicas e burocráticas em Portugal. O Carlos Cruz que o confirme. Situações inconstitucionais que permitem estas situações é que devem ser revistas.
Se um jogador agride outro, durante o jogo, é expulso e fica dois jogos sem jogar. Se agride alguém alheio ao jogo, fora dele e longe da vista de todos, pode ser suspenso de seis meses a seis anos… Já ouvi falar de vários tipos de dualidade de critérios, mas nunca uma tão acentuada entre um colega de profissão e um segurança. Dar uma chapada a um segurança no fim do jogo, no túnel, dá seis anos e mandar um adversário para o estaleiro com uma entrada dura dá um jogo, às vezes nenhum. Faz sentido.
Mas reparem nisto: foi a indignação provocada por esta injustiça disciplinar que me permitiu escrever os últimos parágrafos. Eu preciso dessa indignação, é o meu ópio. O povo precisa dessa indignação. Só não tenho é um chip para o provar.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A Vitória do Pessimismo

"O brasileiro não está preparado para ser 'o maior do mundo' em coisa nenhuma. Ser 'o maior do mundo' em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade." – Nélson Rodrigues

Há quem diga que o povo lusitano é pessimista, inerentemente consternado. Dizem até que fomos arquitectados geneticamente com uma predisposição apática e conformista. Nos piores casos somos mentirosos, coitadinhos, evasivos e displicentes.

Em teoria, vivemos num país desenvolvido. Na prática, a nossa pobreza estrutural cobre quase metade da população. Não refuto que a teoria é essencial, mas eu, como São Tomé, só acredito ao ver com os meus próprios olhos. Teoricamente, quase a totalidade dos portugueses não votaria num autarca envolvido em casos de corrupção.

Na prática, o ilustre Isaltino Morais está a postos para mais quatro anos em Oeiras.
Se não sabemos votar, já nem se fala da nossa arte de realizar eleições. Aqui há boletins de voto com a cruz já preenchida, padres a meter o bico e até carrinhas da autarquia para levar idosos analfabetos ao local de voto.

A nossa juventude nem vota, muito simplesmente, porque a política não é “fixe”, ao contrário do que o Mário Soares andou por aí a pregar. Para essas trágicas criaturas os problemas da vida resumem-se ao dilema do bem-me-quer/malmequer. No dilema do votar/ abster é muito mais fácil virar os olhos e dizer “deixa para lá”.

Na nossa ingenuidade louca, houve quem dissesse que o povo português não vota porque “não confia na classe política”. Ora a verdade é que, para o português médio, não votar é como comungar sem a confissão: é um bocadinho errado, mas ninguém se importa. Aliás, até andam aí portugueses para os quais a solução seria restabelecer a censura e começar outra guerra colonial. Há também quem diga que não somos os primeiros em nada. Eu não desço assim tão baixo. Somos líderes mundiais em cortiça e computadores para idosos.

Aí reside a nossa esperança. Nem tudo está mal. “Vai-se andando”, diz o adágio. Até algumas semanas atrás, os nossos deputados podiam mesmo viajar em primeira classe com um acompanhante e acumulação de milhas. No fim da legislatura, essas pobres almas recebem também um “subsídio de reintegração” – cerca de vinte mil euros. Com razão, obviamente. Cá fora há um mundo grande, frio e cruel, mas do qual eles podem fugir com as suas milhas acumuladas. E eles fazem exactamente isso, como quem foge de um prédio em chamas.

Vinícius de Moraes dizia que a felicidade dos brasileiros é como o Carnaval. A nossa é a utopia duma terra mágica onde a cerveja está sempre gelada e o fisco não existe. Por isso, os portugueses combatem fogo com mais fogo. O Zé Povinho passa facturas falsas, foge aos impostos, reclama na televisão, emigra para o estrangeiro e apoia a oposição.

Há quem diga que somos uma nação de hipócritas religiosos e tudo que fazemos bem é reclamar da vida, comer e gastar dinheiro. Eu não vou tão longe. A minha única preocupação até só é aquela música do Pingo Doce que infelizmente se alojou no meu cérebro sem avisar quando sairá.

Eu não sou politólogo, nem me chamo Medina Carreira, mas parece-me que o Terceiro Mundo é aqui. Sejam bem-vindos. Não se esqueçam de provar o bacalhau.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Natal - Um rescaldo


(Gosto de falar sobre os acontecimentos depois de eles terem lugar. Prognósticos só no fim do jogo, e as análises póstumas são, além de mais alicerçadas – e portanto mais eficazes –, menos ousadas, o que para mim, assumido cobarde, é deveras reconfortante. Falo-vos, portanto, apenas hoje sobre o Natal. Confesso que não pelas razões acima citadas, mas porque o Natal tem muito que se lhe diga, e, para grande tristeza minha, este blogue ainda não tinha sido criado quando as minhas meditações se poderiam considerar mais oportunas. E não podia esperar quase um ano para partilhar as minhas considerações com vossas excelências, até porque, se depender da qualidade dos textos do Leandro, este blogue não deverá durar tanto tempo.)

O espírito de Natal pode, de facto, existir. Eu próprio pensei ter sido penetrado por essa aura, que depois vim a aperceber-me – desapontado – que mais não era que uma necessidade avassaladora de ir ao quarto de banho, depois do molho das rabanadas ter assentado definitivamente em cima do azeite do bacalhau. Tenho um estômago frágil, vá-se lá saber porquê.
As prendas são sempre um martírio; nunca se sabe o que o outro quer, o que o outro tem, do que o outro precisa. A FNAC está repleta de prateleiras de todo o tipo de livros, mas é exactamente aquele livro que nós queremos que está esgotado, pelo que o espírito de Natal, a existir, é mais fraco que a lei de Murphy, o que é desapontante. Como há livros que não esgotam, há sempre por onde escolher, ainda que oferecer o Caim nesta época se trate de uma ironia de fino requinte. Mas lá está ele, no top, ao lado do mais recente livro da Margarida, que é demasiado bonito e tem um título que se aparenta demasiado com um qualquer filme de domingo à tarde para ser deixado de fora dos mais vendidos.
O Natal está repleto de pessoas que criticam o consumismo. Minha senhora, se critica tanto o consumismo porque é que gastou todo o dinheiro que tinha na sua conta poupança-reforma em prendas? Ia para casa com a família enfeitar o pinheiro e deixava-me fazer as minhas compras sem ter o seu rabo a ocupar três filas na FNAC.
Nesta quadra com odor de pinheiro, os empregados das lojas nem perguntam se queremos recibo de troca; é algo que já vem com o embrulho, embrulho esse que eles levantam à espera do nosso aceno de confirmação, “sim, é para oferecer, tenho cara de quem ouve Maria Bethania?”. As únicas coisas que se oferecem sem talão-presente são os sempre clássicos Ferrero Rocher. Nunca se pode dizer “já tenho”, quando muito “já tive, já os comi, obrigado por mais esses; preferia um Ambrósio que mos desse quando eu quisesse apertando só um botão, mas esta embalagem para já está óptimo, não estás servido, pois não?”.
No Natal, ninguém tem cuidado com a gripe suína. Centros comerciais atolados de pessoas, e nenhuma delas usava máscara protectora. Falou-se muito dos moshes nos festivais de Verão, mas ninguém refere as compras de última hora como potenciais disseminadoras da pandemia. Ninguém acredita na Morte no Natal. Eu também não acreditava, até passar no dia 24 de Dezembro por um acidente na VCI, um carro despistado cujo condutor, se não morreu, bem pode pedir ao Pai Natal um popó novo. Saber que o espírito de Natal, ao existir, não é superior a um piso derrapante leva-me a cautelas redobradas no acto da condução.
Mas para ir à minha avó passar a consoada de Natal não é necessário espírito, é necessário estômago, e vocês ficariam espantados se soubessem o quão literal estou a ser. Aquilo que podia ser um jantar de caridade da Amnistia Internacional para toda a população da África Oriental, era na verdade uma refeição para seis pessoas, uma das quais não pode consumir lacticínios e a outra não pode abusar do sal e dos doces. Não critico esta atitude da minha avó de fazer comida para batalhão, nem pensei muito nos habitantes da Somália quando vieram para a mesa as sobremesas – “que se lixem os pretos, venha daí esse leite-creme de amêndoas, e não te rias, rabanada, que vais a seguir!”. Mas saber que o espírito de Natal, a existir, me entretém com doces enquanto mata uns quantos miúdos à fome é algo que, se eu não tivesse tão consolado, me deixaria aborrecido.
Como um bom apreciador dos costumes nortenhos, para mim a consoada de Natal tem de ter polvo. Eça de Queiroz considerava que «tirando-se-lhe a neve, [o Natal] fica estragado. O Natal com uma lua cor de manteiga a bater numa terra tépida de Primavera, torna-se apenas uma data no calendário.”. A mim passa-se o mesmo com o polvo. Natal sem ventosas e tentáculos é Natal sem magia. Enchi-me do bom polvo, do tenro bacalhau, das proteicas batatas, das doces rabanadas, do incrível leite-creme de amêndoas da minha avó, dos sonhos cujo sabor faz jus ao nome, e de tantas outras especiarias.
Afirmo-o: acredito no espírito de Natal. E explico porquê.
A nossa consoada foi interrompida por um ruído bizarro. Há uns anos, teria pensado que era o Pai Natal. (De resto, não entendo o porquê das pessoas dizerem que se sentem crianças no Natal; eu sinto-me é adulto, na medida em que vejo que não sou mais criança.)
Mas, não era, efectivamente, o Pai Natal. Era o meu avô, que espirrara enquanto estava cheio de bacalhau na boca, mas que, felizmente, conseguiu colocar o guardanapo à frente do rosto antes de acontecer uma calamidade. Acredito no espírito de Natal porque foi ele que deu os reflexos ao meu avô para salvar tão depressa o bacalhau mastigado de voar directamente para cada um dos nossos pratos e, dessa forma, preservar um tão agradável serão natalício.
E podia jurar que, mal isto aconteceu, o menino Jesus no presépio me piscou o olho e me sussurrou: “O espírito ainda está vivo. Feliz Natal, alegria para os teus. E não te preocupes com os pretos, ataca o polvo antes que arrefeça.”

sábado, 2 de janeiro de 2010

Evangelho segundo Toda Gente

Eu desespero enquanto leio mais uma das infinitas previsões para o ano de 2010. Todas elas brilhantemente regurgitadas por brilhantes bruxos/politólogos/cientistas políticos/cientistas sociais/sociólogos/economistas/juristas cuja premissa parece ser efectuar previsões com o mesmo rigor metodológico do Professor Bambo.

O método é simples. Há sempre “indícios fortes” ou “sinais claros” de que haverá “mudanças significativas” na “conjuntura presente” do “cenário político-económico nacional”.

Eu não quero perder o comboio e faço já aqui a minha previsão: há sinais claros de que somos um país de treinadores de bancada. Do futebol à política, do casamento gay ao Liedson, nós operamos num rácio de 1 português/3 opiniões.

Uma análise simples revela que a maior parte desses politólogos são pessoas com extensos currículos na área das Ciências Sociais. Ganharam bolsas de estudo, fizeram o doutorado aos 21, falam francês e gostam de longas caminhadas na praia.

O que lhes falta é, no entanto, experiência. A esmagadora maioria destes tertulianos nunca exerceu cargos políticos, ou seja, são o equivalente daquele gajo grande, gordo e feio que vê pornografia o dia todo e depois vem dar conselhos sexuais aos amigos.

Resumindo: somos um país de treinadores de bancada grandes, gordos e virgens governados por engenheiros, advogados e economistas. Mas isto já é outra história.

A verdade é que até hoje não conheci nenhum português que não soubesse dizer qual é o melhor onze possível para a Selecção (Quim-Paulo Ferreira-Bruno Alves-Ricardo Carvalho-Bosingwa-Pepe-Raúl Meireles-Deco-Ronaldo-Simão-Liedson). Peço desculpa. Não resisti.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Genesis

Bem-vindos.

Entrai ordeiramente. O ciberespaço é infinitamente amplo, cabem todos, não se acotovelem.

Iniciamos o blogue no início de 2010, porque decimos não saltar para a ribalta no mesmo ano em que a Susan Boyle o fez. Somos tipos com qualidades, mas nunca conseguiríamos competir com tamanho duplo queixo.

Não vos diremos o que esperar deste blog, por dois motivos: primeiro, queremos criar uma arreliadora expectativa nos nossos visitantes, proporcionando assim um fascínio humano pelo desconhecido que vos leve a voltar aqui; segundo, nós próprios não fazemos ideia no que isto vai dar.

É esperar para ver.
Até para nós.

Diogo Hoffbauer M. Dias
Leandro Silva