quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Manifesto Papel Higiénico

Eu rio-me quando leio comentários de portugueses irados com o estado do seu país. Portugueses desapontados com o estado em que isto chegou. Não merecemos este país. O nossos políticos são todos corruptos e estamos a falhar os valores de Abril, seja lá o que isso for.

O estado a que isto chegou, caros amigos, a bela merda em que estamos metidos foi criada por nós. A generalização é meramente uma solidariedade patriótica. O "nós" são os portugueses que se revoltaram em Abril, os mesmo que "construíram" este país.

Foram eles que decidiram tudo isto. Foram eles que quase enfiaram o país numa guerra civil no Verão Quente de 75. Foram eles que esbanjaram milhares de milhões de subsídios europeus em quilómetros intermináveis de auto-estradas que ligam cidades desérticas e decadentes. Foram eles que pegaram no dinheiro do investimento e do futuro e transformaram-no numa farsa, num aumento artificial da qualidade de vida.

Foram os nossos pais e tios e avós e amigos e conhecidos que decidiram isto. Foram eles que aceitaram os subsídios generosos do "Estado Social" uma criação fabulosa da esquerda portuguesa. A mesma que agora anda agarrada ao poder. A mesma que agora só sabe reclamar. A mesma que só sabe opor, criticar, destruir e distorcer.

Foram os emigrantes que decidiram isto. Foram eles que saíram numa enxurrada de milhões à procura de uma vida melhor longe da letargia e do marasmo e da puta da saudade. Que nação é esta? O nosso valor nacional é a saudade, sentida por pessoas que estão em casa.

Foram os políticos que decidiram isto. Foram eles que criaram uma função pública monstruosa, lenta e ineficiente, aliada a um sistema de justiça falhado numa nação inteira que aceitou de bom grado os mais de trinta anos de cunhas, abuso de poder, falta de ética generalizada, corrupção descarada e politiquices calculadas.

Foram os portugueses, de esquerda, centro e direita, todas as alas e todas as facções, miúdos e graúdos, ricos e pobres, portuenses e lisboetas, açorianos e madeirenses, todos foram os perpetradores deste crime.

Os filhos da Revolução, esses desgraçados, sim, esses vão pagar a conta da mariscada e do champanhe, dos submarinos e comboios de alta velocidade. Aqueles que nasceram nos anos setenta, oitenta e noventa, esses vão ficar com a batata quente nas mãos. Esses vão andar a maior parte das suas vidas adultas a pagar pelas férias dos pensionistas de Abril.

Crescemos num mundo bastante melhor do que o vosso. Tivemos desde sempre o direito à liberdade, saúde e educação. Mas isso não vos concede o direito de não só hipotecar o nosso futuro, como destruir qualquer hipótese de conseguirmos pagar um dia o raio da hipoteca.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Austeridade para Todos



“Portugal é um país traduzido do francês em calão” – Eça de Queirós

Frases destas são comuns no universo literário português, dentro do espectro da crítica social e da crónica jornalista. Sempre calamitosas e pejorativas, estes pequenos aforismos procuram resumir uma determinada característica do espírito português, mesmo representando generalizações crassas sem contexto factual ou empírico.

Apesar disso, como muitas outras coisas erradas, são extremamente divertidas. Há um fatalismo trágico inerente na condição de ser português. Uma vida de probabilidades pessimistas sobre as quais é batalhada a noção eterna de que somos os mais atrasados entre o mundo desenvolvidos.

O português não confia no próximo, desconfia cegamente e crê que os políticos roubam todos numa vida que é feita a partir do desenrascanço e do chico-espertismo. Para o tuga habitual o perigo está sempre à espreita, a conspirar numa esquina qualquer para privar o povo de mais um das “conquistas de Abril”. A silly season não está circunscrita ao Verão, prolonga-se ao longo do ano, entupido de soundbytes, polémicas e crises que, lentamente, empurram a agenda política.

Com a chegada do início do ano lectivo, a crise na Educação está de volta, aliás, nunca partiu. Esteve silenciosamente à espera. Estatuto do Aluno, Magalhães, Mega-Agrupamentos, Avaliação dos Professores, A Aluna Que Queria o Telemóvel de Volta, Novas Oportunidades – o repertório é vasto e, se deus quiser, muitas mais virão.

O que é sempre positivo. Não sei se será pela ingenuidade natural da juventude, mas a minha visão da política e o meu interesse na situação da economia e do país é meramente desportiva. Interessa-me a discussão absurda dos problemas impossíveis de resolver, das crises políticas artificiais que, de vez quando, lufam bafos de ar fresco na cenário nacional.

Como no futebol, a excitação vem da polémica e das pequenas doses de adrenalina que se obtêm em discussões irracionais. O Benfica vencer já não me chega. Agora o Benfica deve vencer, com uma grande penalidade mal assinalada e pelo menos duas expulsões. É assim, os desempregados que me perdoem, mas às vezes, mesmo quando tudo parece irrecuperável, é possível encontrar divertimento.

Eu sei que anda tudo por aí, com náuseas e dores de estômago, revoltados com o PEC III e com o fim da festa dos subsídios e apoios sociais. Pensem no lado positivo: PS e PSD estão ao rubro na luta pelo título, a CGTP já marcou a greve geral, a Irlanda está cada vez pior e, se tudo correr bem, o FMI vem meter o bico.

Agora, com a aprovação do terceiro pacote de austeridade estou à espera de muitas novidades e entretenimento. “Austeridade”, aliás, que bela palavra, o assessor que cunhou o termo é um génio. Se ele por acaso for um português Socialista, tenho a certeza que já arranjou um bom emprego numa empresa qualquer com participação do Estado.

No dicionário a palavra "austeridade" está associada à integridade e rigor. Na realidade, bem, é o que se vê. Austeridade também está associada ao estoicismo. Por outras palavras, implica fechar a boca e não demonstrar emoções, neste caso, a revolta.

Este é o verdadeiro problema. Os portugueses sabem reclamar como verdadeiros campeões. Agora, "revolta", no sentido verdadeiro da palavra, não significa isto nem isto.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Extorsão

Aqui e aqui, amigos.

É oficial. Vivemos em tempos malucos, de especulação financeira absurda que, depois de uma crise tão épica, deveria pelo menos ter incitado a um ímpeto de reforma do sistema económico.

Nada de delírios de esquerda, no entanto. O assunto agora é fraude, é extorsão e sei lá, não tendo o mínimo conhecimento do quadro legal da compra de títulos de dívida portuguesa, arriscaria na mesma que algum crime, ou pelo menos uma irregularidade ocorreu aqui.

O procura de títulos de dívida portuguesa superou a oferta. São simples princípios económicos aqui em jogo. Quando a procura da dívida supera a oferta, um atestado de qualidade do emissor, os juros naturalmente baixam.

Alguém, um ser qualquer pegajoso, decidiu parasitar nas costas do português, que já há tanto tempo andam vergadas pelo peso da sua história. Alguém deveria fazer alguma coisa, portanto. Cavaco gosta tanto de realizar discursos mediatizados pelo pânico passivo do Presidente da República, poderia pelo menos, não sei, agraciar-nos com algumas palavrinhas sobre este assunto.

Falem com quem for necessário, partam algumas cabeças, despeçam algumas pessoas, demitam-se, não se demitam, façam alguma coisa. A crise há muito que já passou a ser uma piada de mau gosto. Qual crise, qual quê.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Turismo Trivial

O meu turismo ideal é uma recriação da vida quotidiana em outro país. Em termos mais simples: gosto de tentar viver no país onde estou, mesmo que seja por alguns dias. Em Paris não quero ir ao Louvre ver a Mona Lisa, não quero ir às catacumbas nem ao Arco de Triunfo.

Quero, antes, acordar numa hora preguiçosa, mas responsável, como as dez horas da manhã, dirigir-me a um café francês pretensioso qualquer, para tomar um pequeno-almoço lento e jocoso.

No Interrail, lembro-me de olhar de relance à Torre Eiffel, à Torre de Londres, ao Big Ben, ao Coliseu e todas os outros monumentos de postal da Europa, e pensar “grande merda”. Gostei, sim, dos bairros judeus em Praga, da vista do Estreito de Dover, dormir na rua em Londres e ser acordado pela polícia.

Em Veneza gostei de andar pela cidade às seis da manhã, sem mapa, e mais importante ainda, sem turistas, sem a companhia intrusiva e armada de câmaras fotográficas das famílias asiáticas de férias. A melhor coisa que fiz na Escócia foi a viagem de comboio até lá. Em Viena comi chocolate e passei três dias com o estômago quentinho, cheio de café e chocolate quente.

Em Marselha, comi um Big Mac na estação de comboios que, depois de quase dois dias sem comer, foi a melhor refeição da minha vida, peço desculpa, mãe e avós. Em Edimburgo passei uma tarde inteira enfiado na cama, debaixo de mantas, a ver televisão escocesa, numa estalagem local assombrosa.

O melhor concerto da minha vida foi em Praga. Numa das inúmeras pontes da cidade, mesmo no meio, tocava uma banda de velhos. O vocalista a marcar o ritmo com duas panelas, o saxofonista, um homem de longa barba branca sentado numa cadeira de praia, de calções e chinelos, de óculos escuros e chapéu e um homem de alta estatura a tocar contra-baixo. Tocavam “What a Wonderful World” de Louis Armstrong num estilo recaído e moroso de felicidade domingueira. Foram os únicos músicos de rua a quem dei dinheiro.

Enfim, não subi à Torrei Eiffel, não entrei na Casa de Anne Frank e não fui ao Loch Ness. Esses ficam para depois. Ficam para um Inverno frio, mas sem turistas.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ler pela incredulidade

Eu conheço as conotações negativas da expressão “a juventude de hoje está perdida”. Assim como o mundo do pós-guerra de 1920 desmanchou-se em lamúrias e condenação dos hippies da geração de 1960, também esses riem-se agora da juventude fútil e preguiçosa dos dias que correm. Mas a verdade é simples. Os jovens de hoje simplesmente não lêem.

Não lêem jornais, não pegam num livro, não são interessados em política, vêem demasiada televisão e passam demasiado tempo no computador e no telemóvel. É esse o discurso de sempre, normalmente vindo de intelectuais e académicos.

António Lobo Antunes disse que a sua ânsia de escrever nasceu da leitura, não de autores clássicos, mas das simples bandas desenhadas, Flash Gordon. O meu gosto pelos livros nasceu de forma semelhante. Como se diz na minha língua natal, o brasileiro, eu devorava “revistas em quadrinhos”. A infância foi perdida no meio da Turma da Mónica e em mergulhos imaginários na piscina de moedas da caixa-forte do Tio Patinhas.

Ler acabou por se transformar num hábito, cultivado pela sorte de ter uma feira de livros a 200 metros de casa. Tive sorte em ter uma tia que me presenteava no aniversário com livros ao invés de Playstations e Gameboys.

É difícil perceber o porquê do desinteresse na política, desconhecimento da existência de jornais, revistas, livros ou mesmo sites noticiosos. Generalizações à parte, a verdade é que já se sentem os efeitos. Nas últimas eleições legislativas foram registadas as taxas de abstenção recorde. Parece algo benigno mas condiciona gravemente a instituição democrática.

Isto não é só apenas sobre a falta de hábitos de leitura. É sobre pais e mães que largam os filhos colados na televisão durante dias inteiros. Ver televisão não requer qualquer esforço mental e a ciência já veio dizer que a actividade cerebral quase cessa durante essa actividade.

Leio porque o caos do Universo ditou que comprasse livros do Jorge Amado, Érico Veríssimo e Monteiro Lobato e depois descobrir, num choque de incredulidade, que eu não era o único que conhecia esses autores. É mesmo assim. Eu leio pela incredulidade.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Costela à Comunista


Nunca me considerei comunista, mas como todo jovem rebelde, tive uma costela de esquerda revolucionária. No entanto, a única coisa que ficou foi a crítica filosófica do capitalismo como sistema económico. O capitalismo aliena o indivíduo – é tão simples como isto.

O capitalismo, uma orquestra ditada pelas leis do mercado livre, é simplificada pela interacção entre a oferta e a procura. Isso significa que a produção é ditada pelos bens e serviços que a sociedade aprova e quer usufruir.

O resultado está à mostra. Prédios históricos caem como dominós no Porto enquanto nascem moradias geminadas e prédios meramente paralelepipédicos. O comércio local e tradicional morre lentamente, sendo agora apenas um elemento de curiosidade breve de turistas pretensiosos.

Ninguém realmente se interessa pelas esculturas de barro tradicionais de um vilarejo português qualquer. O povo se interessa por centros comerciais grandes como bisontes e lojas absurdas em corredores intermináveis.

O que me preocupa é o progresso social ser visto como uma corrida. A classe política desmancha-se em lamúrias pelos custos da Saúde e da Educação, num Serviço Nacional de Saúde lento e cheio de boas intenções. As escolas agora juntam-se em mega agrupamentos, pequenas vilas de estandardização de crianças.

Sim, gastamos muito dinheiro em hospitais e escolas, mas meu deus, qual é a alternativa? Deixar o povo morrer ignorante? Sim, eu sei, é necessário diminuir a despesa pública nessas áreas, mas coisas tão básicas e essências podem não representar procura, mas representam necessidade.

Ou um homem, José Sócrates, que aprova o plano para a construção de uma barragem pela EDP que irá submergir a linha do Tua, que, parafraseando a personagem Seth do filme Superbad: é como dar uma chapada a deus por ter oferecido uma coisa maravilhosa.

O problema do comunismo é que apesar de criticar o capitalismo lindamente, oferece-se como a única alternativa válida, solução sacrossanta e salvadora. A própria existência do comunismo como ideologia nas sociedades actuais é fruto do ambiente capitalista.

Grande parte da máquina comunista actual está relacionada os símbolos: a cor vermelha, a fotografia icónica de Che, frases icónicas de Che, o martelo e a foice interligados, estrelas e revoluções. Todos eles convenientemente impressos em t-shirts vendidas em cadeias de lojas de roupa e shoppings que surgiram pelas leis do mercado.

Já estivemos muito mais perto de ser um regime comunista. No Verão Quente de 75 estivemos na vertigem de uma fabulosa guerra civil entre o norte moderado e o sul radical. Numa coisa, no entanto, parecemos iguais ao regime comunista da Coreia do Norte. Foi noticiado que o treinador da selecção norte-coreana foi enviado para um campo de trabalho depois dos maus resultados no Mundial. Portugal apressou-se a imitar a nação irmã. Entre o deserto mediático onde largaram Carlos Queirós e um campo de trabalho, o diabo que escolha.

domingo, 29 de agosto de 2010

The Dark Knight

Ao contrário de 90% do mundo civilizado, eu apenas vi o The Dark Knight ontem. Retiro tudo o que já disse sobre filmes sobre super-heróis. Eu até aceito o facto de o Super-Homem usar cuecas por cima do collant.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Jornalismo do Século XXI

Identifico em certas notícias e artigos do Público uma certa ingenuidade na escrita e aleatoriedade na organização estrutural do texto. Enfim, chagas de quem não sabe do que raio está a falar.

Imagino a breve consulta que fizeram na Wikipedia e a despreocupação geral de que o que importa não é o que dizemos, mas sim dizer alguma coisa com nexo.

Carrego a mesma cruz, caros amigos. Esta arte surgiu com a realização de trabalhos à última hora, uma capacidade de procrastinação superior ao comum mortal, de encontrar alegria e prazer na mais simples e básica das tarefas - lavar as mãos, cortar as unhas, comer e projectar olhares vazios para o horizonte, mesmo que seja um aterro sanitário.

Na Faculdade, as apresentações de trabalho são entrevistas políticas. O objectivo não é explicar e postular, não é mostrar o domínio absoluto da matéria. O objectivo é distrair imitando o efeito da televisão.

Durante cerca de quinze minutos da apresentação divago, atraso e imponho obstáculos no caminho da percepção da audiência. É hipnotizar com uma canção tocando uma flauta para as cobras indianas da audiência. Refiro curiosidades históricas distantes, mostro conhecimentos profundos sobre outras ideias irrelevantes e apenas olho para o professor quando liberto os pequenos blocos de conhecimento que tenho sobre o verdadeiro tema.

Toda e qualquer actividade é mais importante do que a actividade que de facto é a nossa obrigação. Somos seres anárquicos, enjaulados pela vida moderna, apesar de sermos cidadãos poluidores, globalizados e mundanos como os outros. Não é pela tarefa ser difícil. É por ter sido imposta.

Preguiçosos do mundo, uni-vos!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Praga dos Subúrbios

Com a crescente existência de subúrbios e áreas exclusivamente residenciais, a morte arquitectónica do Porto parece estar a ser atentada progressivamente. Os subúrbios limpos, de relvados geométricos e fezes de cão a serem recolhidas com saquinhos plásticos por donos a fazer jogging.

Pelos prédios originais do centro do Porto delineiam-se pedras escurecidas pelo tempo e gastas pelo povo português mais obstinado. No granito observa-se gárgulas, brasões, cruzes, santos, virgens marias e meninos Jesus.

Enfim, memórias de Porto longínquo, comercial e liberal mas temente a Deus. Pontualmente, essas memórias são interrompidas pela visão de um prédio moderno. Na frente, está erigido um cartaz gigante a gritar por T3 e T4 a preços competitivos com uma família plenamente feliz no fundo da imagem.

O que peca e o que condena esta arquitectura à morte é a falta de carácter, de animus e de abertura ao mundo. São pequenas cápsulas geminadas, caixões claustrofóbicos que segregam ainda mais os viajantes para vida insossa das classes médias.

Sei que parece dramático, retirar ilações tão generalistas apenas sobre a arquitectura. Mas o Porto do Império nunca se permitiu ser como os outros. Gaia já é uma cidade dessa espécie. Apenas prédios de 30 andares, com duplex e garagem, acesso fácil à auto-estrada, situados numa zona segura e perto de boas escolas.

Matosinhos, principalmente na zona costeira, os sinais são os mesmos. O espaço outrora ocupado por casas e solares e palacetes burgueses, agora e ocupado pelo delírio artístico de empresas de construção civil.

Ir dos arredores para a Baixa do Porto, é mais do que uma viagem, é uma travessia. O mapa demográfico das cidades agora formam “donuts”, dizem, os centros das cidades têm custos de vida mais caros.

Citando Vinícius de Moraes num outro contexto: “as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. A arquitectura moderna dos prédios residenciais nos grandes centros urbanos é pobre. São linhas rectas completando formas geométricas perfeitas, preenchidas por cores modernas. É ergonómico. E também enjoativo.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Genial, pá!

Blasfémias

Sobre a esquerda bloquista e comunista.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A Sócrates o que é de Sócrates

De Sócrates, tudo se falou. Se era corrupto, sobre as manchas de suor, sobre o vício do tabaco, dos familiares e da formação académica. Até as férias da pobre criatura estão sob escrutínio mediático agora.

O editorial da Revista Sábado desta semana refere que os Primeiros-Ministros de Espanha e Reino Unido vão limitar as suas férias a "alguns dias". Dizem que, face à decisão de José Sócrates de desfrutar de 15 dias de férias num hotel de Luxo no Algarve, ninguém pode impedir os portugueses de julgá-lo.

O texto diz ainda que Sócrates deveria ter sido solidário com o povo a quem retirou os apoios sociais. Deveria ter encurtado as férias. No fim referem que não é demagogia - é bom senso.

Bem, eu leio a Sábado todas as semanas. No entanto, nunca levo a sério o que escrevem. É impossível respeitar uma publicação que utiliza ironia barata em editoriais.

Sócrates tem o direito inalienável a desfrutar de 15 dias de férias. No final do dia, debaixo de toda a treta, detrás de todas as notícias, está lá um homem. Um homem que desempenha uma função, para a qual foi eleito duas vezes.

Alguém que, na sua condição de ser humano, tem uma vida finita. Um homem que no final do dia, quando se fazem as contas, está simplesmente a manejar o barco da melhor maneira que pode.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Berço do meu bom humor

Já perdi a conta de quantas vezes fiz, refiz e fiz outra vez o trajecto Portugal-Brasil, Brasil-Portugal. Por esta altura eu já consigo recitar o menu da TAP a dormir e consigo imitar o discurso do capitão, palavra por palavra. Por vezes, quando estou bêbado, consigo fazer uma imitação perfeita das hospedeiras de bordo da TAP.

Olhando para baixo da janela do avião, vejo o Estádio da Luz, depois o Estádio de Alvalade, e depois oceano e mais oceano, num azul infindável que só acaba 9 horas depois. No momento que o meu pé toca o solo brasileiro, o meu humor muda completamente. O chão é mais quente, o ar é mais quente, as pessoas são mais quentes. Dá vontade de beijar o chão. Tudo faz-me sentir em casa. Aqui, todas as pessoas usam roupas leves, estão de bom humor e em questão de sorrisos e cordialidade, aqui é Natal todos os dias. O Brasil é o berço do meu bom humor.

Logo na chegada ao Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro/Galeão – Antonio Carlos Jobim é possível notar uma diferença. Os passageiros do voo, maioritariamente divididos entre portugueses e brasileiros, são separados para o controlo alfandegário. Brasileiro para um lado, estrangeiro para o outro. É sempre engraçado observar os meus pais, na fila gigante de portugueses, de passaporte na mão, à espera de poder entrar em terras tropicais. Se algum decidir seguir a carreira de criminoso, sempre posso fugir para o Brasil, à la Fátima Felgueiras.

A existência por lá pacifica e divertida. Os únicos momentos frenéticos que para mim existiram foram a andar de carro. Não tenho a certeza, mas acho que a minha mãe aprendeu a conduzir no caos do trânsito carioca. A habilidade da minha mãe como condutora de carros é algo assombrosa. Conduzir no Rio é um desafio aos sentidos. Carros por todas as direcções, não se respeitam leis de trânsito, o que ali impera são as leis da selva. É um chamamento de Darwin, na natureza só sobrevivem os que melhor se adaptam.

Lembro-me dela a buscar-me na escola, ouvindo o rugido do motor do nosso carro. Era um Chevrolet Kadett humilde, mas sob o controlo das mãos e pés da minha mãe, qualquer carro ganha imediatamente pujança extra. Numa tarde qualquer no Rio, ao observar o carro da frente a ser assaltado numa paragem de sinal vermelho, a minha mãe rapidamente encetou por uma corrida desenfreada no passeio, desviando-se de sinais de trânsito e pessoas.

Mas não é na violência social que se nota a diferença entre Portugal e Brasil. É na língua.

Falar português do Brasil é um exercício de fluidez e simplicidade. O brasileiro fala como quem deixa cair coisas. É sem querer, não existe uma intenção. É um acto automático, um reflexo pavloviano possuído de sentimento humilde e caloroso. O Eça já o disse, é “português com açúcar”.

Falar português original é como declamar poesia, com extremo cuidado nas entoações, na poupa e na atitude com que se fala. Há uma espécie de relação colonizador-colonizado que é possível sentir quando um português conversa com um brasileiro. O português de Camões é telúrico e aristocrático. Mesmo o português ignorante das aldeias isoladas do Minho é quase um cântico religioso em latim. É pomposo, mas singelo na sua graça.

O português fala como se tivesse um peso nas costas, uma cruz que carrega na crucificação do dia-a-dia. O brasileiro fez questão de deixar o fardo masoquista bem longe. Mais precisamente, a sete mil quilómetros de distância, com um oceano inteiro entre o caminho.

Muita gente reclama da violência do Brasil. Eu, já habituado a isso, confirmo e aceito. Mas dê-me aquele medo de passar na Linha Vermelha, ou aquele frio na barriga quando vemos de relance a entrada de uma favela, porque eu prefiro isso ao tédio intragável da resignação. O Rio de Janeiro é uma cidade em guerra, mas por lá, luta-se pela felicidade. E se analisarmos bem a questão, é única luta que vale a pena lutar.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Dizem que nalgum lugar, algures em Vila Verde, vive um homem feliz

Os meus pais são originários de duas aldeias em Vila Verde, Braga. São as aldeias de Oriz São Miguel e Ponte de São Vicente, uma seguida da outra, uma exactamente igual a outra.

As estrelas no céu de Oriz São Miguel e Ponte São Vicente são como os brinquedos pendurados no berço de uma criança. Ainda me lembro da minha avó a apontar para o céu e destacar três estrelas seguidas em linha.

- São as Três Marias, filho.

E eu, a apontar também o dedo à constelação, ingénuo sobre a superstição popular.

- Não apontes, que nascem-te verrugas nos dedos, filho.

Nessas terras existem apenas dois cheiros na natureza. O cheiro da terra molhada, sempre acompanhada do som da água a correr nos regos. O cheiro arbóreo e herbáceo, de campos de margaridas e bouças de pinheiros.

Já avisam no nome da cidade. Em Vila Verde, os campos verdejantes lustram a paisagem num contínuo galopante que desafia os limites do olhar humano. O sinal que marca a entrada em Vila Verde grita: “Respire fundo, está em Vila Verde!”.

Os vilaverdenses são assim, é um povo que cumprimenta com pontos de exclamação. Nas romarias e bailaricos, Baco olha orgulhosamente para os seus súbditos, encharcados em vinho tinto caseiro e, por isso, com grande teor alcólico. Potenciadas pela música popular de concertinas e cavaquinhos, as festas vilaverdenses ganham às vezes contornos de orgia e depravação, como se aqueles pequenos homens de Deus contivessem a alegria ao longo do ano duro, cheio de milho para plantar e mato para roçar.

As mulheres são matriarcas existenciais, muitas vestidas de preto em luto, outras de lenço à cabeça. Os homens de Vila Verde são dramáticos. Discutem política com a polémica a correr nas veias, com vozes operáticas e ânimos exaltados, num espectáculo que todos assistem indiscretamente. Para um vilaverdense é tudo uma questão de vida e morte.

Eu, nessas terras, sou sempre uma criança a correr pelos campos de milho enquanto estão a ser irrigados no Verão, a beijar a pouco higiénica Cruz de Cristo na Primavera, a andar pelos tapetes de folhas secas e crocantes no Outono, e a jogar cartas à lareira no Inverno. Vida simples, vida fácil, vida feliz. Não há muitos outros locais do planeta sobre o qual eu possa dizer isto.

domingo, 1 de agosto de 2010

O único pecado grave que cometi (Desculpe, Padre Fernando!)

Uma vez roubei uma carteira quando tinha oito anos. Não magoei, nem ameacei ninguém. Simplesmente peguei numa carteira que tinha sido esquecida numa mesa momentos antes.

A justiça é cega, ou funciona mal, já nem sei bem como é esse ditado. Mas, para a justiça, cega ou inútil, aquilo seria um crime. Um crime premeditado, planeado e executado por uma criança de 8 anos, de nome Leandro, no bairro de Ipanema na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, em 1998.

Sei que hoje roubar é quase cultura. Todos roubam chiclets, ou um brinquedo inútil numa loja dos chineses. Mas o meu crime sempre me pareceu com uma piada cósmica, algo engendrado pelo próprio Deus, um sinal, um pequeno prenúncio do destino, um aviso para o que o futuro poderia ser.

Transgredi um código social moral, um mandamento cristão, judeu, árabe, um acto imaturo e desonrado segundo os princípios budistas, taoistas e hindus. Pior, no mundo muçulmano ficaria sem uma mão. Na minha casa, teria levada umas palmadas.

No meu lar infantil as ameaças de castigo dos progenitores eram bastante peculiares. Lembro-me da minha mãe, inflada de raiva, a dizer que poria pimenta na minha língua se eu não parasse de falar palavrões. Era sempre uma confusão. O meu pai a pedir-me para dizer palavrões, quando eu era muito pequeno, provocando a risota generalizado dele e dos meus numerosos tios. A minha mãe não reagia da mesma forma, antes ameaçava temperar a minha língua para churrasco.

As ameaças da minha mãe eram vazias, claro, consigo-me lembrar claramente de observá-la, de avental, na sala, deixando escapar um riso, quando eu disse o meu primeiro “foda-se”, reagindo à derrota do Vasco da Gama frente ao Flamengo, na final do Campeonato Carioca de 1996.

Os meus tempos no Brasil, sempre me pareceram memórias de uma vida exótica. O Brasil, pelo menos na minha cabeça, era uma colónia portuguesa, tal era o tamanho do contingente da Família Silva por aqueles territórios.

E a carteira? Estava vazia, não tinha absolutamente nada, dei-a à minha mãe. Ela, que na sua gratidão ingénua, pensou ter recebido um presente genuíno. E os palavrões? Continuam presentes no meu discurso, talvez em demasia, mas foda-se, às vezes um homem tem que mandar as regras para o caralho. Mesmo sob a ameaça de pimenta na língua.

A minha pátria é ser português

Há no povo português uma individualidade extraordinária. Não vemos o nosso país de origem como uma figura paternal ou maternal, detentora do nosso respeito e obediência. Vemos a nossa nacionalidade como uma condição genética, inerente ao sangue, algo que verte pelos poros.

A alma dos portugueses não é uma ideia religiosa. A alma dos portugueses é a alma lusitana – uma ideia patriótica. É um imaginário cultural complexo cheio de predisposições melancólicas e saudosistas. Os portugueses vêem-se como donos de um país inferior e que de algum modo, este deverá merecer que os portugueses habitem o seu solo.

Nas costas arqueadas e frágeis do português, a Cruz de Cristo já palmilhou mundo e meio. Inventamos uma globalização, criamos um império maior do que os sonhos, que caiu em declínio, mas deixou uma marca: a imensidão da alma portuguesa.

Basta um português no Burkina-Faso, para esse país se transformar numa colónia portuguesa. Não é um homem, é um contingente português, portento de poderes legislativos, judiciais e executivos. O povo português é uma rede diplomática, todos são representantes máximos em pleno direito não de Portugal, mas da nacionalidade portuguesa.

No entanto, cada português faz tudo por si. Não o faz pela pátria, não o fez por Portugal, fá-lo por causa de ser português. E ser português é uma luta. Uma luta contra um egoísmo pessoal, um exercício prolongado de responsabilidades inerentes à condição portuguesa. É um povo que poderia viajar para qualquer lugar do planeta e recomeçar uma história quase completa.

É isso, caros compatriotas. A nossa pátria não é Portugal. A nossa pátria é uma acção, não um estatuto. A nossa pátria é ser português.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Psicanálise Nacional



Um homem chamado Miguel Torga realizou uma psicanálise à pátria que chamamos Portugal.

O resultado está inscrito neste fabuloso e prodigioso livro.

"- O Porto? - dizia ela. - O senhor já viu no mundo terra mais bonita e gente mais séria?"


"Se todas as terras do mundo tinham o seu cartaz gustativo - queijadas, ovos moles, arrufadas, morcelas e pão-de-ló, para dar alguns exemplos -, o Porto tinha dois. Um, grosso, terroso, sujo como a trivialidade da natureza - as tripas; outro, subtil, etéreo, imponderável como a própria magia - o vinho fino. Um para a exigência das nossas pançadas lusitanas; outro para a sede sem fim da secura universal."

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Diálogo interior sobre a entrada da Guiné-Equatorial na CPLP

- A Guiné-Equatorial quer entrar na CPLP.
- Não sabia que se falava português lá.
- Pois, aquilo já foi uma colónia. O Presidente decretou a língua portuguesa a 3ª língua oficial.
- O que isso quer dizer?
- Quer dizer que o português vai ser ensinado nas escolas.
- Que escolas?

terça-feira, 27 de julho de 2010

Morra o Calor, morra! Pim!

Aqueles que não acreditam no aquecimento global já não têm justificação para tal descrença. As temperaturas já não são altas. As temperaturas já fugiram de qualquer escala ou possível medição. Antes, ir à praia era uma actividade horrível. Era um sofrimento redutor. Consistia simplesmente em ir ao ponto de intersecção entre a terra e o mar, retirar as vestes e deixar que o sol fizesse o seu trabalho.

No entanto, por estes dias sair de casa já é um suicídio, quanto mais ir à praia. Alguém que telefone a São Pedro, ou mesmo ao Diabo, e façam o favor de lhes dizer que alguma coisa está a correr mal. Não sei se São Pedro estragou o termóstato ou se o Diabo finalmente chegou à Terra e trouxe o Inferno junto com ele.

Ontem fugi de Braga para o Porto, pensando que teria um alívio do calor assassino. Nada está mais longe da verdade. Em Braga estão 40ºC, no Porto estavam 38. A minha mãe, que é pessoa para ficar o dia inteiro, do nascer ao pôr-do-sol, está eufórica.
Corro o risco de morrer, não de insolação, mas de fome, visto que as temperaturas só estão agradáveis por volta da meia-noite. Ir ao mercado já não está no horizonte. A água que bebo sai da torneira, às vezes amarela, outras vezes avermelhada, mas este tempo não dá para luxos.

Assim que o meu corpo atravessa a porta do prédio, o calor que se sente não é forte ou simplesmente quente: é desértico, é apocalíptico. Sou criatura caseira, bem sei, já tentei lutar contra esta maleita, mas não adianta, o ócio fala sempre mais alto. Com essa predisposição não há remédio. Só me dou bem sob temperaturas amenas, não adianta lutar.

É tortura. O tuga madruga nas férias para apanhar o solzinho matinal, mas eu, meu deus, só me vêem lá quase contrariado. Peço desculpa aos amantes de praia, mas eu nunca quis participar num assado colectivo. No momento que a pele encontra os raios de sol, imagino bolhas vermelhas de ebulição a surgirem em mim, já consigo observar-me 10 anos depois a enfrentar o olhar de reprovação do dermatologista ao verificar que o sinal nas costas é mesmo melanoma.

Vejo as peles vermelhas, as pessoas já parecem lascas de bacon a fritar na frigideira e o mar, que poderia ser salvação, é a ponta contrária do desespero. A água não é refrescante, não acalma, não apaga o fogo. A água do mar congela, chega até aos ossos tal é o carácter negativo da temperatura.

Praia apenas existe para mim quando besuntado com protector solar factor 1000. Mesmo fora dela, o suplício não cessa. Os cafés se transformam em oásis refrescantes, o ar-condicionado é um convite à inactividade. À sombra de uma simples árvore imagino-me num bosque verdejante e musgoso, com brisas frescas e perfumadas a ecoar pelos troncos ocos de árvores.

Vejo as pessoas com toalhas enroladas na cabeça e percebo que para isto se tornar num deserto só nos faltam os camelos. Alguém que avise a Galp. Não me surpreenderia se encontrassem petróleo no Alentejo.

Céu Limpo

Meteorologia não é assunto que interessa a qualquer um. Tirando a previsão meteorológica e os furacões, a maioria dos mortais não se interessa pelo engraçado campo da meteorologia.

A expressão “céu limpo” sempre me apaixonou. É a língua portuguesa a fazer das suas, com as subtileza e doçura que Cervantes uma vez a qualificou.

O céu, azulzinho e sem vestígios de nuvens, aqui chama-se “limpo”. Em inglês a expressão é “clear skies” ou “céu nítido” ou “vazio” ou “visível”. Em português o céu é limpo como se as nuvens fossem sujidade, e como tal, indesejáveis.

Como se as nuvens devessem ser eliminadas, o que é irónico, porque a limpeza normalmente é associada ao branco, a cor geral das nuvens. Em Portugal é assim. O branco é azul. O limpo é azul. Em Portugal, o céu azul é limpo e as nuvens brancas são sujas.

O céu azul é lindo, mas foda-se, como eu não suporto praia.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Bancos e Exames Rectais: Uma História de Amor

Acabei de chegar de uma ida ao banco. Por favor, matem-me, dêem-me um tiro na cabeça, cortem-me a garganta, atropelem-me, afoguem-me, atirem-me a um precipício, alguma coisa, qualquer coisa que faça a dor parar.

Os bancos são locais assustadoramente monótonos. Ouvem-se teclas de computador a serem prensadas, cliques de rato, riscar de canetas, tocar de telefones, separar de folhas e o irritante e torturante guincho das cadeiras de escritório. As cadeiras nos bancos são todas iguais. Ligeiramente ergonómicas, minimamente confortáveis e de qualidade estética duvidosa.

Existem apenas dois tipos de pessoas que trabalham nos bancos. Uns têm aspecto de 20 e poucos anos, provavelmente acabaram de começar a trabalhar, mas já se nota, já se nota o desgaste e o consumo da alma e da vivacidade humana. Os outros têm aspecto de 60 anos, são todos iguais, grisalhos ou não, com bigode ou não, carecas ou não, são todos iguais, acabados de sair da fábrica.

As frases nunca são declarativas: são arrastadas. Os diálogos são forçados a sair pela obrigação do trabalho. O ar é tóxico, como um consultório médico, cheira a cartão, tinta, papel e químicos que, com alguma certeza, devem ter propriedades soporíferas.

As filas de espera prolongam-se pela eternidade, desafiam o contínuo espaço-tempo, as leis da física e foda-se, desafiam o divino. Se Deus visionou os bancos durante os dias da Criação, com certeza teria pensado duas vezes. Provavelmente teria antes criado uns seres diferentes em Marte ou Vénus.

A interacção com um agente bancário é ver o monstro no fundo do abismo. No final da operação bancária, depois de tantos números e termos técnicos, eu já nem quero o meu dinheiro. Eu só quero sair com a minha dignidade intacta.

Chegarão os dias dos exames rectais, pois sendo homem, disponho de uma próstata (mais um falhanço do Nosso Senhor Jesus Cristo). Milhares de anos de evolução, inventamos aviões, fomos à Lua, chegaremos à Marte, mas caralho que me foda, ainda não inventaram um exame à próstata que não consista em enfiar dois dedos lubrificados pelo cu acima.

Pois, estava a falar de bancos e perdi o fio à meada. Chegarão os dias dos exames rectais e apenas aí existirá outra experiência que me retire as réstias de dignidade.
Sejam eles da Caixa ou do BCP, podem enfeitá-los com anúncios de crédito habitação com imagens de família felizes e bonitas, podem-me oferecer dinheiro, sexo e poder, mas meu deus, caralho e foda-se, evitarei todas e quaisquer oportunidades de ir ao banco.

O excesso de palavrões é feio, admito, mas não há palavras, juro que não há palavras para descrever o quão agoniante, entorpecente, calamitoso e mortificante é a experiência de abrir aquelas portas.

Quando chegar a minha hora e verificar que não há mesmo lugar para mim no céu, que o meu lugar é mesmo no Inferno, entrarei naqueles portões com o pé direito, passarei por aqueles portões feliz e extasiado. O Diabo com certeza não me vai falar das vantagens do Plano Poupança Reforma. Pois depois de ter passado pelas portas de um banco, nada me mete medo, com a excepção já referida dos exames rectais. Quanto aos exames, bem, resta-me ter esperança na raça humana.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Regras das mães d' Os Protagonistas

Os Protagonistas conversaram brevemente e notaram um série de semelhanças nas orientações ideológicas das suas respectivas mães:

1 – Nunca abrir nada que esteja por abrir quando já há alguma coisa igual aberta.
Ex: Abrir uma garrafa de Coca-Cola fresca quando já há uma garrafa só com o resto final sem gás e quente

2 - Toalhas e chão molhado não são dois conceitos compatíveis.

3 – Arrumar a cama tanto é apreciado, como obrigatório.

4 - Tirar os sapatos e cheirar o chulé não é um comportamento humano.

5 – Quando uma mãe oferece o fundo da panela durante uma refeição o filho deve obedecer cegamente e comer o resto.

6 – Os legumes no teu prato são para comer, não peças de Lego para arrumar.

7 - Deitar fora pão é pecado. Mas migalhas no chão é sacrilégio.

8 – O lugar de embalagens vazias é no lixo.

9 – O tampo da sanita deve ser mantido livre de urina, levantado durante o acto, e baixado no final.

10 - Os castigos a aplicar aos filhos variam da seguinte forma:
3 anos – Uma leve palmada na fralda
5 anos – Retirar o Game Boy
7 anos – Uma chapada mexicana
10 anos – Retirar as revistas pornográficas
12 anos – Ameaça de inclusão num colégio militar
14 anos – Prisão domiciliária à sexta-feira
16 anos – Expulsão de casa
18 anos – Cortar apoio financeiro
20 anos – Cortar relações


Regras do pai:

1 - Fazes merda, levas no focinho.

2 - Quando o pai pede ao filho para ir buscar uma cerveja, não é um pedido.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Uma composição de 9º Ano sobre os Descobrimentos

Há tantas coisas sobre as quais eu gostaria de poder escrever. Poder poderia, a criatividade tem mangas de sobra, mas seria como quebrar uma lei. Escrever sobre os exploradores portugueses, por exemplo.

Por mais que se fale dessa altura, de naus e caravelas, nunca existiu nenhuma retratação exacta do que se devia passar nesses barcos. Uma altura onde homens ficariam anos numa caravela, sem saber para onde iriam, numa altura em que crenças católicas e medo religioso impunham uma dimensão assustadora ao mundo, o mundo do desconhecido e o incerto.

Como se devem ter sentido esses homens, a maior parte deles pobres e socialmente inferiores. Como devem ter sido as privações de comida e água. O espaço pequeno que os sustinha na terra por tanto tempo. A pouca comida, a doença, a libido, o desespero e a loucura. Como se devem ter sentido esses homens, Vasco da Gama e Álvares Cabral e muitos outros. Formados para liderar homens, mas com certeza atormentados sobre se teriam a força para liderá-los.

Como deve ter sido as sensações dos marinheiros. Ora o pânico nas tempestades, a bravura na partida, a resignação com o tempo, a loucura imposta pela monotonia incerta e a saudade, não só dos entes queridos, mas especialmente de um simples contacto humano novo. A impossibilidade de descrever a emoção que os deve ter atingido quando depois de anos sob uma caravela, entraram na Baía do Rio de Janeiro, e testemunharam a beleza virginal desse lugar. Deus existe, devem ter pensado.

Por estas e muitas outras coisas, nunca poderei escrever sobre os Descobrimentos.

Pois esta, é a maior das aventuras de todos os tempos.

Neil Armstrong e Kennedy que me perdoem.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Uma celebração

Parabéns, Isaltino.

O Mundial da treta

Terminou mais um campeonato do mundo. Enfim, foi o que foi. Foi mesmo uma merda. Não tenho muitos termos de comparação com outros mundiais. O primeiro que me lembro conscientemente de ver foi o de 1998, ganho pela França. Mas mesmo assim foi fácil perceber que este realizado na África do Sul foi uma valente merda em termos futebolísticos. Ganhou a equipa que jogou menos mal, não a que jogou melhor. Parece um pouco paradoxal, mas não é, porque deixo algumas equipas de parte, as que jogaram realmente bem, e sem essas, a Espanha foi a que jogou menos mal, mas não a que jogou melhor. Lá está. Mas dessas falo no parágrafo seguinte. A espanha foi fazendo sempre o estritamente necessário até chegar ao título, o que mete muito nojo, principalmente tendo em conta que também perdemos contra os espanhóis. Apesar disso, não lhes quero retirar mérito, e admito alguma justiça na atribuição deste troféu. E apesar de ter torçido pela Holanda, foi-me completamente indiferente o resultado final. O último jogo desta copa foi a imagem perfeita daquilo que ela foi. Entediante, aborrecida e desmotivadora. Poucos jogos me despertaram o mínimo interesse, e menos foram aqueles que me deixaram verdadeiramente empolgado.

A Alemanha ficou em terceiro lugar. Outra vez. Mas merecia mais. Apesar de não ser mau de todo, o terceiro lugar não passa disso. A Alemanha apareceu em território sul-africano renovada, com uma equipa mais jovem, mais dinâmica e mais atractiva. Gostei de ver. Tive pena que não chegassem à final, mas, como já disse antes (eu e mais 500 mil pessoas), o futebol é mesmo assim. Foi por isso uma das poucas equipas que jogou bem. Acabou por ganhar a um Uruguai com garra e vontade de ganhar surprendendo tudo e todos. Por isto são a segunda equipa na minha curta lista de boa equipas deste mundial. E mesmo perdendo no jogo de atribuição de terceiro e quarto lugar, saíram de cabeça erguida, inclusive Forlán, que apesar daquela triste bola à trave no último minuto levou para casa o troféu de melhor jogador. Nada mau para uma equipa que teve de disputar o playoff para chegar à África do Sul.
Outra das equipas que surpreendeu bastante pela positiva foi o Gana. Adorei ver esse país africano a jogar. Tive muita pena que não chegassem mais longe, e teria gostado de os ver disputar um lugar na final com a Holanda, como aliás mereciam. As duas últimas equipas que integram este meu lote pessoal de equipas "fixes" são o México e o Chile. Ambos perderam nos oitavos de final, mas gostei de ver.

Uma das maiores surpresas, para mim, foi a Eslováquia. Num grupo complicado, que contava com a Itália (que merda valente!), acabaram por surpreender chegando aos oitavos. Não está na minha lista anterior, mas foi uma boa surpresa.

A maior desilusão foi, apesar de tudo, a nossa selecção. Podia falar da França (que merda valente!), mas, sem me querer armar em polvo, já previa antes do mundial que uma merda do género acontecesse. Não contava que a Itália (que merda valente!) fizesse uma campanha tão má, mas também não quero saber. Se calhar deviam olhar um pouco para o exemplo da Alemanha e remodelar a equipa. Mas como português a minha maior tristeza foi mesmo Portugal. Por tudo o que toda gente já fez questão de frisar, e por isso não me adianto muito mais neste assunto. Mas não queria deixar de atirar um cagalhão mental à cara do Ronaldo. Fica a nota.

Também como português, uma das maiores alegrias foi a goleada frente aos norte-coreanos (que merda valente!). Foi de resto a única coisa que me alegrou na campanha dos "navegadores". Mas também fiquei super contente com a derrota argentina (que merda valente!) por 4-0 frente à Alemanha, como já fiz questão de evidenciar num texto anterior. Merdona, perdão, Maradona foi para casa com o rabinho inflamado. Que delícia!

De resto, este mundial serviu para mostrar que Sneijder merece disputar a Bola de Ouro da FIFA, assim como Xavi e Iniesta. David Villa mostrou que o Barcelona vai ser, provavelmente, ainda mais mortífero na época futebolística que se aproxima. Forlán mostrou que devia, no mínimo, voltar ao Man United. Cristiano Ronaldo mostrou que tem um cagalhão em vez de um cérebro e que não é tão bom jogador como o pintam. Messi comprovou que na selecção também não faz nada de jeito.

E calo-me porque fiquei farto de falar desta treta que foi o África do Sul 2010.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Pero que mala suerte

Consigo entender a espectacular exibição do tal que dará pontos ao Benfica, frente ao Sion. Para quem viu o jogo, deve ter reparado que o equipamento do guarda-redes(?) dos "futuros-bicampeões-de-Portugal-e-do Mundo-e-do-Universo-e-béu-béu-pardais-ao-cesto" era completamente verde, o que já de si explica muita coisa.

Para a próxima, sugiro a este rapaz que adopte a metodologia do guarda-redes mexicano Oscar Pérez e treine com bolas de rugby, para se habituar ao terror redondinho que é a Jabulani. De certa forma seria útil, já que o rugby, para mim, é desporto de gente bruta e meio tosca, pelo que tenho a certeza que o futuro clone do namorado da jornalista espanhola boazona se sentiria galvanizado e teria mais "ganas" de agarrar bem a "pelota" em forma de melão. Um melão do tamanho daquele com que ficou Jorge Jesus depois de assistir à performance deste fabuloso "portero". Hmmmmm talvez porteiro seja uma boa profissão para ele, já que no futebol...

Em Madrid, lá para os lados do Vicente Caldéron, o senhor Flores já deve estar as esfregar as mãozinhas, tal o assalto feito aos cofres da Luz. Por isso, acho que para mim o guardião(?) da baliza benfiquista, até prova do contrario, vai chamar-se "Rouberto".

A boa notícia é o que o Moretto assinou dois anos pelo Olhanense. Como tal, estou ansioso para assistir ao épico tête-à-tête que será o duelo entre o Benfica e os algarvios. Nesse dia estarei longe de substâncias que façam rir, ou arrisco lesões graves nos maxilares e no torax.

domingo, 11 de julho de 2010

Polvos e periquitos videntes

Se não tivesse bastado a febre das vuvuzelas, agora também tinha que vir isto e isto.

É como diz o meu avô: em que raio de manicómio vivemos nós?

sábado, 10 de julho de 2010

Who's your daddy?

Carlos Queiroz sobre as suas declarações sobre Cristiano Ronaldo: "Há algum pai neste país que nunca tenha dado uma reprimenda a um filho?"

Carlos, colega: os portugueses não estão chateados por tu castigares demasiado o Ronaldo; o problema é precisamente castigá-lo pouco. Ele não é um menino disciplinado; é mimado e insubordinado. Tu ao lado do Scolari, não o reprimendes; dás-lhes doces quando ele chora, permites que ele deixe comida no prato e fica acordado até às horas que quiser, até porque pode ir para a escola de helicópetro no dia seguinte.
Scolari defendia os meninos quando estes estavam prestes a apanhar de um sérvio. Mas definitivamente não os defendia quando, como o Ronaldo, viravam as costas à bola. E as reprimendas não era públicas, eram no conforto de um balneário que, ainda que não tão cheiroso como uma sala de imprensa, é bem mais recatado.
Scolari, como treinador, está ao nível de um Chalana, não apenas no que toca a questões tácticas e metódicas, como no que a pelos faciais diz respeito. Mas puxava de tal forma as orelhas dos jogadores que Ronaldo, com aqueles brincos magnânimos, não teve outra hipótese senão dar o litro.
Eu compreendo a aversão a dar cachaços num cabelo tão empastado de brilhantina, mas é para isso que serve a velha fivela do cinto.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Uma interpretação cultural da golden share na PT

De acordo com uma sondagem online realizada pelo Público, cerca de 70% das pessoas inquiridas concordam com a decisão do Governo de vetar a aquisição da Vivo por parte da Telefónica, utilizando os direitos especiais conferidos pela golden share.

No entanto, a maior parte dos artigos de opinião de economistas e afins que tenho lido, em blogs e jornais , é contra o veto. Estas opiniões podem ser sintetizadas do seguinte modo:

1 - A venda da PT foi aprovada pela grande maioria dos accionistas
2 - A proposta da Telefónica representava quase a totalidade da capitalização bolsista da PT
3 - A utilização da golden share foi uma medida quase ou mesmo ilegal, na medida, que vai contra o princípio da livre circulação de capitais dentro da UE

É fácil interpretar ambos lados desta discussão. A maior parte dos portugueses concorda com o uso da golden share através da racionalização que basicamente pode ser reduzida a estupidez: a maior parte dos portugueses desconfia dos espanhóis que estes querem roubar a Vivo.

A outra parte desta racionalização portuguesa é igualmente simples e estúpida. É melhor para nós e para a economia portuguesa que basicamente a Vivo seja de uma empresa portuguesa. Porquê? Porque sim. Pela mesma razão que uma criança não deixa outra brincar com seu brinquedo novo. Porque é meu. Porque é nosso.

Eu sou bastante leigo em economia, mas acho que a decisão do Governo de vetar o negócio foi tão estúpida como os portugueses que representa. Como foi aqui referido, apesar da Vivo contabilizar 72% dos clientes da PT, esta apenas representa 40% dos lucros. O mercado português representa 28% dos clientes mas 60% dos lucros.

A PT, que gere um monopólio protegido pelo Estado, apresenta um serviço muito caro para o consumidor. Como todas as outras coisas em Portugal, o serviço da PT é muito mais caro do que realmente deveria ser. A única coisa entre a PT e o consumidor são os reguladores. O Estado cumpre a sua parte e afasta toda e qualquer concorrência.

Sócrates pode muito bem andar por aí a gritar "interesse estratégico" ou "interesse nacional". Pode acusar o PSD de ser neoliberal pelas posições que tomou face ao negócio e face à discutida reforma constitucional. Eu, por mim, nem sei muito bem. Mas acho que antes ser neoliberal do que estúpido.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Red Bull No Race


Deus, a existir, escreve efectivamente direito por linhas tortas. A omnipotência do sujeito permite estes luxos, e o Senhor parece querer mesmo agradar a todos. Eu, de resto, não me posso queixar do que ele tem feito por mim, e ainda mais grato fiquei depois de ler a notícia de que a etapa do Red Bull Air Race que se ia realizar nas margens do Douro foi cancelada, sem apelo nem agravo. Depois de toda a espectacular polémica envolvendo o local do evento, num braço de ferro ao qual eu chamo "Batalha dos Aviões" na Guerra Porto-Lisboa, eis que a justiça fez das suas e aparentemente ficam todos a perder.
Todos menos eu. Acontece que eu moro a quinze minutos a pé do cais de Gaia, e a aglomeração é tal que, no dia do evento, não posso ir comprar o jornal sem ser apanhado por uma fortíssima corrente em direcção a um imenso mar de cabeças, suor e garrafas vazias. Desde a primeira vez que o evento se realizou cá, 2007 salvo erro, que tenho de passar um fim-de-semana por ano a levar com uma banda sonora de tal forma saturante que a vontade é colocar o som de vuvuzelas no mp3 e não tirar os phones. Aviões deixaram de ser interessantes para mim a partir do momento em que fiquei muito velho para os fazer usando enunciados dos testes, na sala de aula.
Receio, no entanto, uma onda divina por uma justiça igualitária. Nesta batalha da guerra Porto-Lisboa, acabou por não se ficar ninguém a rir de satisfação (excepto eu). No caso da transferência do Moutinho para o Porto, receio que essa busca por decisões salomónicas o leve, por exemplo, a lesionar o jogador. Se assim for, que um dos aviões do Red Bull voe mais alto e lhe acerte num olho.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Uma breve mensagem para Larissa Riquelme



Larissa Riquelme, também conhecida como a bela mulher paraguaia que guarda o telemóvel entre os seios, acabou de garantir que, mesmo com a eliminação do Paraguai no Mundial, ela vai manter a promessa de desfilar nua em homenagem ao valioso e heróico esforço da sua selecção.

Eu gostaria de lhe enviar a seguinte mensagem:

Em primeiro lugar, gostaria de lhe dizer que tenho a certeza que milhões de homens à volta do globo estão a rejubilar com esta notícia. Eu próprio admito de bom grado que este acontecimento não me desagrada nem um pouco.

No entanto, chegará um dia, não muito distante, em que o mundo ficará farto dos teus seios. Se aconteceu à Pamela Anderson, pode muito bem acontecer a ti.

Por isso, minha querida, aproveita bem estas tuas duas semanas de fama. Com sorte amealharás dinheiro suficiente para comprar uma daquelas bolsas para guardar o telemóvel. Com muita sorte poderás mesmo aprender que os bolsos que tens nas calças servem para guardar coisas.

Mas caríssima Larissa, por favor não digas que te vais despir pela Selecção do Paraguai. Tu vais desfilar nua por ti e pelas capas de revistas masculinas que com certeza vais conseguir. Acima de tudo, vais desfilar pela tua conta bancária. Beijinhos.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Liga Carbonatada

Ora após longo interregno com fins meditativos heis que o desporto me forçou novamente a escarrar novo palavreado. O último mês tem sido longo e aborrecido em termos futebolísticos, mas hoje voltou a despertar-me a atenção. E não foram os principais palcos do desporto-rei a despertar o meu interesse. O apelo veio daquele campeonato, por costume, a cinco jornadas do fim os 7/8 primeiros estão ainda e apenas separados por meia duzia de pontos e que, apesar das fortes emoções subjacentes, raramente se juntam mais que, vá, umas 1000 pessoas para assistir a esses jogos nos estádios. Pois é, é a Liga de Honra Portuguesa, que hoje já me tirou o sono quando li o comunicado oficial que anunciou a mudança de nome da mesma.

Sempre achei que Liga Vitalis até era um nome com estilo, ao contrário da outra Liga, que pelo nome, pode dar a entender aos menos esclarecidos, que se trata de um campeonato composto apenas por equipas de certa localidade algarvia.

O contrato com a empresa de água engarrafada acabou e qual o novo patrocinador? A empresa de refrigerantes Orangina. Portanto a Liga Vitalis passa a chamar-se Liga Orangina...

Não é nada de verdadeiramente relevante mas, pelo menos eu, covilhanense de nascença, não poderei voltar a dizer "Hey o Sporting da Covilhã não vai descer da Vitalis". Vou passar a dizer "Este ano o Sporting da Covilhã ganha a Orangina". Quanto a mim substituiu-se a pontinha de estilo do nome Vitalis por ahmmm, diria um je ne sais quoi de parvoeira. Já imagino as conferências de imprensa de Augusto Inácio, treinador do Leixões, com uma garrafinha de suminho Orangina ao lado do microfone.

O contrato de patrocínio da Carlsberg à Taça da Liga também terminou recentemente. O que é que vem aí? Frisumo Cup? Taça Joy? Taça Água das Pedras?

Para terminar deixo uma sugestão aos restantes autores deste blogue: que tal experimentarem trespassar-se uns aos outros com os respectivos orgãos fálicos?

Só falta o David Luiz

João Moutinho é mesmo reforço do F.C.Porto. Foi confirmado ontem à noite e os valores envolvidos nem me parecem descabidos. Aliás, até acho que foi um bom negócio. Para os dois clubes. O Sporting ganha algum fôlego financeiro e um jogador com bastante margem de progressão (Nuno Coelho), sobre o qual recaem algumas expectativas elevadas sobre o seu futuro, além de aliviar a tensão que crescia entre o próprio clube e o jogador que agora se despede de Alvalade. E o Porto ganha um elemento importante numa altura em que urgia a necessidade de colmatar a quase certa saída de Raul Meireles - deve estar para breve- e que o meio-campo dos dragões parecia ficar algo fragilizado.

Parece que muitas figuras de proa sportinguistas e mesmo adeptos ficaram bastante aziados com a saída do médio proveniente das camadas jovens leoninas. Alguns até se lembraram de começar a criticar o agora jogador do Porto.
O que não podem esquecer é que o Moutinho foi um dos jogadores mais importantes nas últimas épocas do Sporting, senão mesmo o mais preponderante. A sua polivalência no meio-campo salvou Paulo Bento de muitos problemas, e mesmo nesta última época o jogador foi essencial. Fez cinco épocas ao mais alto nível, sem lesões (?!) que afectassem não só o crescimento dele no seio da equipa como o da própria equipa.

Na minha modesta opinião, houve três pedras fundamentais na equipa do Sporting que impediram muito provavelmente que equipa ficasse abaixo da "linha de água" - que para um clube grande será sempre o último lugar a dar acesso a uma competição internacional -, e por pedras leia-se jogadores. Foram eles Moutinho, Liedson e Ismailov. O primeiro já saiu, e o segundo já parece acusar o peso da idade, apesar de ainda dar para marcar alguns golos num campeonato tão competitivo como o nosso. Resta o último. Fico curioso para ver como Paulo Sérgio irá montar a equipa, ele que pelos vistos quer uma verdadeira revolução no plantel.

Eu não elogio o Muotinho por de repente o ver como jogador da minha equipa, sempre achei que era um bom jogador. O único defeito que sempre lhe apontei, e que por vezes me dava vontade de lhe bater, é o facto de ser um verdadeiro "chorão". Atirava-se para o chão ao minimo toque adversário e se possível arrastava-se até à grande área inimiga, procurando a sorte através da birra. Espero realmente que isso se resolva por cá, porque tirando isso é o reforço ideal para o Porto.
Mas também fico algo apreensivo com o investimento feito pelos dragões nesta paragem de verão. Já gastaram 13 milhões, e os valores da transferência de James Rodriguez ainda não foram oficializados, não devendo ficar abaixo dos 5/6 milhões. Se juntarmos à equação as possibilidades Walter e Kleber, mais de 20 milhões serão gastos certamente. Dinheiro que terá obrigatoriamente de obter retorno desportivo, porque, tendo falhado o Campeonato e a Liga dos Campeões, a equipa não tem muita margem de manobra.

Apesar disso, e digam que disseram, João Moutinho é sem dúvida o melhor reforço dos dragões neste defeso. É o jogador ideal para completar o meio-campo azul e branco, e com a recuperação de Ruben Micael parece surgir uma dupla portuguesa espectacular, com Fernando atrás a segurar o jogo. Esperemos que sim. Agora, com a provável saída de Bruno Alves, só me resta esperar pelo David Luiz.

domingo, 4 de julho de 2010

Toma lá, Maradona!

Nem o menino prodígio de Maradona lhe serviu de grande ajuda. Uma Alemanha pujante e decidida deitou por terra a fixação do técnico argentino em ser campeão mundial de futebol enquanto treinador da selecção alvi-celeste. 4 golos sem resposta foi mesmo o resultado ideal. Nem em sonhos tinha desejado algo tão delicioso. Ver Maradona "agarrado" à mensagem de Deus que a Argentina iria ganhar este mundial e a levar com 4 golos no focinho foi dos melhores momentos até agora na competição.

Este parece mesmo ser o mundial da Alemanha, independentemente do que acontecer. Segurança na defesa, excelente condução de bola na transição defesa-ataque, rapidez no contra-ataque e eficácia na concretização. São essencialmente estes os atributos que compõem uma equipa alemã que pela primeira vez gosto de ver jogar. Confesso nunca ter sido grande fã dos germânicos. Aliás, sempre foram uma espécie de "ódio de estimação" em todas as grandes competições internacionais de futebol. Nem sei bem porquê, mas queria simplesmente que perdessem. Mas isso mudou. Agora desejo que ganhem o mundial, não só porque merecem mas principalmente porque golearam a Argentina.

O Brasil já voltou para casa. É pena, mas deixem lá. Nós também voltamos. Irmãos unem-se nos momentos difíceis. Este foi um mundial completamente distinto para os brasileiros. Digo isto porque se apresentaram com um futebol super pragmático e também eficaz, embora não tanto como teriam gostado. Era de todas as equipas sul-americanas a que mais jogava ao estilo europeu. Se calhar a única, até. Com uma forte coesão defensiva e maior aposta no contra-ataque que no futebol espetáculo a que nos habituaram, o Brasil parecia apesar de tudo estar a adaptar-se bem a esse estilo de jogo. Cumpriu os requisitos mínimos para passar o respectivo grupo sem grandes dificuldades, e com o Chile parecia estar a subir para o ritmo necessário para chegar à final. Mas uma Holanda personalizada, a jogar um futebol a que também não nos habituou, abateu os brasileiros de forma impecável.
Enfim, da próxima jogam em casa. E nós também, porque somos da família.

O Uruguai-Gana foi possivelmente o melhor jogo deste mundial. Nenhum penalty alguma vez me deu tanta vontade de rir como o que foi concedido à equipa africana mesmo a acabar o tempo de prolongamento. Não só pelo desperdício como pela falta em si. Hilariante e tranquilizador para uruguaios e de cortar os pulsos para ganenses. De resto, o Gana fez, na minha opinião, o suficiente para merecer a passagem às meias-finais, mas o futebol é mesmo assim.

Já a Espanha cometeu dois sacrilégios em dois jogos. Primeiro mandou-nos para casa de pila murcha, e ontem tirou a todos os homens a possibilidade de observar a já famosa adepta do Paraguai Larissa Riquelme desnudada, ou pelo menos em trajes menores. Nada que uma busca no Google não resolva, mas não deixa de ser estúpido da parte dos espanhóis. Espero que saiam goleados da meia-final.

E se diziam que este seria o mundial da América do Sul, bem que se enganaram. Eu próprio cheguei a acreditar nessa possibilidade, mas a verdade tornou-se clara ontem ao inicio da noite: 3 equipas europeias nas meias-finais, contra uma sul-americana que não terá grandes aspirações a ganhar a "copa". A "Velha Europa", embora já de moletas, pregou uma rasteira a uma jovem América Latina, que, iludida com o fulgor jovial do início do campeonato, pareceu não querer ver a realidade: ainda que moribundos, os europeus - e falo sobretudo de holandeses e alemães - talvez tenham encontrado um antídoto para a morte: capacidade de adaptação e desenvolvimento progressivo. Portugal também precisa desse antídoto, urgentemente, mas não não me parece que o Queiroz deva ser o médico com a seringa.

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sexta-feira, 2 de julho de 2010

"Assim não ganhamos, Carlos" - Cristiano Ronaldo, um génio

Quando, ao vislumbrar a substituição de Hugo Almeida no minuto 58 do jogo Portugal - Espanha, Cristiano Ronaldo disse a Queirós - "Assim não ganhamos, Carlos" - o jogador parece não se ter apercebido do brilhantismo dessa sua frase desabafada. É a frase que resume toda a experiência portuguesa neste Mundial, mas já lá chegaremos.

Ronaldo, depois das últimas três épocas de glória, sucesso e masturbação mental, chegou ao Mundial com um estatuto, não de melhor jogador do mundo, mas de jogador de futebol mais pesquisado no Google. No Mundial, pareceu-me algo frustrado com a sua incapacidade de desempenhar a mais simples das tarefas - correr.

Ronaldo jogou bem em alguns momentos, mas a sua participação pode ser resumida como um esforço infrutífero, um conjunto de exibições tépidas, não por aquilo que o jogador fez mal, mas por aquilo que ele nem sequer tentou fazer.

No jogo com a Espanha, deus sabe que tivemos alguns bons momentos, onde Hugo Almeida desfere um sprint messiânico pela ala esquerda quase originando um golo. Almeida foi substituído pouco minutos depois.

Ronaldo, irado pela sua inacção, irado pela substituição de alguém que estava a retirar-lhe algum peso dos ombros, disse a pérola: "Assim não ganhamos, Carlos". Esta frase tem tudo: a resignação com que foi dita, o carácter pessoal com que foi tratado o treinador (minimizando-o a um nome próprio) e a certeza de que esta frase foi, de algum modo, dita por todos os portugueses a ver o jogo.

Ronaldo, apenas limitou-se a difundir a voz do povo, que como se sabe, no que toca a futebol, é a voz de deus. Foi uma catarse geral ao reconhecermos que nos deixamos levar por anúncios do BES e da McDonald's.

Esta história poderia ter um final feliz. Um final de aceitação. Mas não. Sabendo que a selecção chegaria às cinco da manhã no aeroporto de Lisboa, um grupo considerável de pessoas foi receber os náufragos.

Eu simplesmente não sei como existem pessoas neste mundo, que se dão ao trabalho de acordar de madrugada e dirigirem-se ao aeroporto para receber a Selecção, que depois brindarão com insultos brandidos com um megafone. Pessoas sem mais nada para fazer, decerto. Pessoas que vêem a selecção com um explosão concentrada de patriotismo, que é mal direccionado e acima de tudo, infantil. Cá está a realidade dura: somos um país de bebés patriotas. "Assim não ganhamos, Carlos", já dizia o poeta.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Lista de coisas que não deveriam existir

Pessoas que dizem que adoram a vida. Pessoas que dizem que vivem a vida ao máximo. Pessoas que dizem que vivem cada dia como se fosse o último. Bacalhau e todos os pratos relacionados com bacalhau, excepto bacalhau à Brás. Guimarães. Japoneses e sushi. Pessoas que iniciam todas as suas frases com a palavra “tipo”. Pessoas com pins e autocolantes a dizer “Free Tibet” ou "Legalize". Pessoas que usam t-shirts do Che Guevara. Pessoas que não pagam os impostos mas cantam “A Portuguesa” nos jogos da selecção. Pessoas com sotaque lisboeta. Monárquicos. Comunistas. Fascistas. Pessoas que dizem que Jesus é o seu salvador. Cristãos que são sardónicos ao dizer a uma criança que Pai Natal não existe. Natal, já agora, e Páscoa também. Cristãos evangélicos. Pessoas com tatuagens tribais. Pessoas com o nome dos filhos tatuado no braço. Pessoas com uma borboleta ou golfinho ou águia ou dragão ou sereia ou tubarão tatuado em qualquer parte. Vinho tinto. Whisky de cinco euros. Adultos que tocam vuvuzelas. Descoberta da falta de papel higiénico depois da consumação do acto. Próstata. Séries televisivas juvenis sem drogas, sexo e palavrões. Mulheres de fato e gravata. Pessoas que citam ou referem constantemente Fernando Pessoa, Bruce Lee, James Dean, António Gedeão, José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto, Nicola Cafés e Sumol. Idosas a contar moedas de um cêntimo na caixa do Pingo Doce. Homens de meia-idade com sapatilhas All-Star. Hip-Hop tuga. Pessoas que se manifestam quando um traficante de droga aleatório morre na Cova da Moura ou em qualquer outro lugar aleatório. Adolescentes vestidas de laranja quando o Dino morreu. Pessoas carinhosamente apelidadas de “J.P.”. Filmes de animação. Gorjetas. Vegetarianos. Globos de Ouro portugueses. Bárbara Guimarães. Artur Agostinho. Programas televisivos matinais com a presença de portadores de trissomia. Pizzas com ananás. Comer ao acordar. Ladrões que dizem: “Ei, ó colega, empresta-me um euro”. Bebidas gaseificadas. Leite frio. Pessoas que dizem que o Hulk é grande jogador. Chá de cidreira. Papas de sarrabulho. Pombas e gaivotas. Paulo Coelho. Fogos-de-artifício de meia-hora do São João. Blogs com uma música automática. Anúncios automáticos em sites. Comédias românticas, com a excepção de Annie Hall. Bancas de best-letters em aeroportos e bombas de gasolina. Kuduro. Discotecas em geral. Surf, bodysurf, windsurf, kitesurf, couchsurf. Palhaços. Uma menina de 5 anos a segurar uma boneca pelos cabelos num local abandonado. Recém-divorciadas de 50 anos. Reality shows. Malucos do Riso. A expressão “mano”. Nike Shox. Caixas de música. Grávidas que passam à frente na fila do supermercado. Pessoas que trabalham em bancos, repartições de finanças e Lojas do Cidadão. Broca de dentista. Turistas asiáticos. Pessoas com mais de dois nomes próprios. Truques de magia. O-Zone. “Apita o comboio” em casamentos. Autocolantes em carros a dizer “Cuidadinho, aí, vão miúdos aqui”. Gajos de meia-idade num BMW Z3. Pessoas que tratam os pais por “você” ou pelo nome. Pessoas que reclamam por férias. Livros digitais. Caixinhas de esmolas para meninos com lepra em África. Mini-Cooper. Carros eléctricos. Filmes do Bruce Lee, Jackie Chan, Chuck Norris, Steven Seagal e Jean-Claude Van Damme. Programas televisivos de passatempos que passam de madrugada. Inverno e Verão.

Ah, e a Golden-Share do Estado na PT.

Fica para a próxima uma lista de coisas que não deveriam ter sido inventadas.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Manifesto Anti-Espanha

Até hoje ainda apreciava uma paella ocasional, mas esta realidade irá mudar drasticamente. Já há muito tempo que tinha abandonado os calamares fritos, vomitado face ao azeite espanhol e ficado intrujado com o vinho lamacento que nuestros hermanos produzem.

O escárnio, aliás, o ódio visceral, que os espanhóis causaram, depois desta falta de respeito com a nação lusitana, será a próxima febre a assolar Portugal de lés a lés.

A partir de agora nunca mais prestarei atenção aos anúncios da SEAT com músicas da Shakira, rezarei por um acidente mortal ao Fernando Alonso, pedirei ao Professor Bambo para lesionar Rafael Nadal para a eternidade e gritarei, enquanto tiver boca e dedo, que os espanhóis são o povo mais mesquinho e insípido do mundo.

Proponho uma imediata declaração de guerra da República Portuguesa ao Reino Espanhol, a anexação da Galiza e Olivença, a recuperação de Ceuta e o bombardeamento de Madrid, Barcelona e Guernica, para dar aos pintores cubistas novas imagens de crianças espanholas desfiguradas.

Se for necessário iremos às últimas instâncias, aliar-nos-emos à ETA, aos Taliban e à Al-Qaeda, venderemos as nossas almas ao diabo, e tudo o mais que contribua para a morte, destruição e aniquilação dos espanhóis.

Deixaremos sacos cheios de merda em chamas nas portas do Corte Inglès e da Corporación Dermoestética, retiraremos o nosso dinheiro do Santander e daremos aos nossos antepassados gloriosos, motivos de regozijo, desta vez não com tácticas do quadrado e com alas de namorados.

Desta vez não pararemos na fronteira, abandonaremos toda a diplomacia e cordialidade pois esta jornada apenas acabará na absoluta e total destruição do Estado Espanhol. Quando tivermos acabado, o Almodóvar já estará a planear um filme sobre a Ribeira do Porto.

PS: Este post foi escrito com raiva, sim, mas justificada. Nunca perdoarei os espanhóis, depois de descobrir que eles vendem o afamado Presunto de Pata Negra como um produto espanhol, apesar de os porcos serem nascidos e criados no Alentejo. Um homem apenas pode aceitar a humilhação até um certo do ponto, e eu tenho o meu limite quando assassinam o carácter sagrado do presunto português.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Portugal à imagem de Ronaldo

Portugal fez hoje,de longe, o pior jogo deste mundial. Não tinha jogado muito contra a Costa do Marfim, mas neste abusou da nossa paciência. A selecção jogou um futebol desconjuntado e apático. Perdemos por 1-0, mas no final do jogo senti-me como se tivessemos levado 4 ou 5. Foi, mais que uma derrota, uma humilhação.

E o Ronaldo jogou tão mal que ainda agora no final do jogo mandou os jornalistas perguntar a Queiroz porque não o tinham tirado de campo.Realmente até para ele próprio parece lúcida essa decisão. O mundo do Cristiano na selecção deve mudar completamente. Parece que não tem nada a mostrar ou a dar à equipa. Em vez de levar a equipa ao colo, como estupidamente dizem, arrasta-a cada vez mais para o precipício, como hoje. Está sempre mal colocado no terreno e parece nunca conseguir fazer uma simples finta. E os remates parecem apontar aos fotógrafos de jogo.

Os 7-0 à Coreia do Norte mostraram-se falso factor de motivação, mas a expectativa foi crescendo e de repente a selecção até parecia jogar bem. Mas nunca deixou de apenas parecer, embora o empate frente ao Brasil tivesse mostrado algumas aparentes melhorias. Melhorias que caíram aos pés da Espanha e da sua irritante troca de bola.

Não tinha grandes expectativas para esta campanha de Portugal, mas depois de passarmos a fase de grupos confesso que as minhas esperanças de sucesso aumentaram, ainda que de forma bastante ligeira.
Não tenho grandes palavras para descrever o meu desânimo e raiva (sobretudo centralizada no Ronaldo). Caímos frente à Espanha. De joelhos. E o Ronaldo fez questão de desapertar a braguilha alheia.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Maradona em funções pela Selecção da Argentina



Para quê perceber de táctica, se podes bater palmas como um pai babado?

sábado, 26 de junho de 2010

Um post preguiçoso sobre um Interrail



Barcelona é melhor do que alguma vez se tentou descrever. O Sul de França é assustadoramente bonito. As praias de Nice são piscinas gigantes. Pena que vivam lá franceses. Veneza é a cidade mais encantadora do mundo apenas durante 5 e 6 da manhã, enquanto os turistas dormem e a Praça de São Marcos é um deserto.

O Duomo em Florença faz qualquer igreja ou monumento português parecer um barraco numa favela. O único ponto negativo é a quantidade avassaladora de quadros da Virgem Maria a segurar o menino Jesus. O Vaticano é uma loja de recordações católica gigante. O Papa tem uma equipa de marketing excelente. Fui ao Coliseu em Roma pensando entrar por alguns momentos no Gladiator, mas na realidade aquilo apenas me pareceu um monte de pedras engraçado.

Bari é deslumbrante - pena que tenham construído a estação de comboios a 6 quilómetros do porto da cidade, obrigando-me a percorrer essa distância de mochila às costas no calor abrasador. Viena é uma cidade em que me bastou estar lá durante algumas horas para perceber que gostaria de morar lá. O sofá do Freud pareceu-me ser bastante confortável.

Praga é surreal, fora de qualquer proporção. E têm uma moeda fraca, deus os abençoe. Berlim tem um muro sujo e a melhor cadeia de fast-food do mundo. Pena que o Diogo origine destas terras.

Amesterdão tem parques naturais no meio da cidade e o povo mais simpático do mundo e falam todos inglês fluente. Bruxelas é cinzenta e demasiado profissional. O Norte de França continua a ter franceses, mas eu gosto da 2ª Guerra Mundial e por isso foi bastante interessante.

Londres é a melhor cidade do mundo, ponto final. Glasgow parece Lisboa, o que é mau, mas tinha um cemitério onde os túmulos descreviam a vida e a morte das pessoas. Quando morrer quero um igual. Paris tinha muitos africanos a vender miniaturas da Torre Eiffel. E também tinha franceses.

Resumidamente, durante 33 dias passei por 11 países onde desesperei com o sono, passei fome, morri de sede, fiquei com o pé em bolhas, rebentei bolhas com um canivete, apanhei escaldões na forma de bronze de trolha, corri atrás de comboios, perdi comboios e cheirei mal - tudo isto enquanto carregava uma mochila de 25 quilos durante quilómetros sem fim sob sol de 40ºC. E foi a experiência de uma vida.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sobre a Portugalidade do Desenrascanço

O site americano Cracked elegeu há uns tempos a palavra “desenrascanço” como a palavra mais “cool” que deveria existir na língua inglesa.

A publicação argumenta que o desenrascanço, à semelhança do MacGyver (que consegue construir um míssil balístico com um caneta e fita adesiva), é a arte de conseguir arranjar uma solução arrojada no último minuto, face a uma situação imprevisível.

Em detrimento da preparação, nós confiamos na nossa habilidade de nos desenrascarmos, mas isto, ao contrário do que possa parecer, não é bom. Na realidade, é bastante mau, no sentido que exerce uma influência desmedida sobre a cultura portuguesa.

O desenrascanço não é, como foi referido pelo site, arranjar uma solução para um problema inesperado. Isso é apenas a definição de dicionário, uma bela teoria. O desenrascanço português consiste em adiar a resolução dos problemas, no despreparo premeditado, na confiança ingénua de que, sabendo que correndo o risco de sermos medíocres, arranjaremos uma solução não arrojada, mas que apenas baste para emendar levemente o problema.

O desenrascanço português é antes um exercício da ignomínia, é um estímulo ao marasmo numa ode ao amanhã. Não entra nesta equação o estudo metódico, o calculismo, a precisão e o rigor. É atrasar a resolução, é ganhar tempo para desperdiçar.

O desenrascanço seria positivo se, de facto, face a um problema complicado e acima de tudo, inesperado, conseguíssemos arranjar uma solução. O site refere ainda que mesmo com o desenrascanço, conseguimos construir um império do Brasil até às Filipinas. Revejam os vossos livros de história do 5º ano, caros amigos, porque o Império Português foi o resultado de preparo, de audácia, de ir “por mares nunca dantes navegados”.

Hoje o nosso desenrascanço é um mero laxismo face à realidade. É a resignação de contentarmo-nos com pouco. É engraçado que o sentimento cultural português resume-se ao Sebastianismo, à letargia, à saudade e ... ao desenrascanço. Já dizia o povo, “é o que se arranja”.

PS: Eu próprio escrevi isto enquanto deveria estar a estudar Ética e Deontologia Profissional. Mas prontos, não tenho culpa. Foi assim que me ensinaram. Depois desenrasco-me.

domingo, 20 de junho de 2010

O Comunismo vive

Numa altura em que o comunismo, como sistema económico, político e social, não existe verdadeiramente em nenhum país, existem ainda pequenas tendências e indicadores que mesmo assim revelam uma realidade assustadora, nomeadamente em Portugal.

Actualmente em Portugal, apenas três partidos têm hipóteses realistas de chegar ao poder. O Partido Socialista e o Partido Social-Democrata foram os únicos partidos até hoje capazes de deter a chefia do governo sem recurso a coligações.

Historicamente, desde o final do Estado Novo, este país vive num ambiente político e social ligado à esquerda. As chamadas “conquistas de Abril” infectam o imaginário português, com ideias demasiado utópicas de solidariedade social.

O Estado-Social, ou Estado-Providência, é conceito indulgente que consiste no papel do Estado em assegurar as necessidades básicas para o bem-estar social dos seus cidadãos. No entanto, as capacidades do Estado-Social devem ser asseguradas pelo progresso económico de uma economia liberalizada, o que envolve o fomento da iniciativa privada e uma lei laboral notoriamente mais flexível.

A denominada política da “presença do Estado em sectores estratégicos” preconizada pelo Partido Socialista fica muito bonita no papel, em manifestos e em programas partidários. Em Portugal essa política, representada na PT e EDP, apenas dissemina monopólios em sectores estratégicos, que por sua vez apresentam um serviço tépido, com custos altos para o consumidor.

Na política partidária, a bipolarização entre PS e PSD, juntamente com a representatividade significativa de BE, PCP e CDS, poderia ser um modelo progressista, se os partidos dessem prioridade ao diálogo e à cooperação.

Proeminentemente, PS e PSD apresentam também uma tendência assustadora de tentar assegurar a permanência constante no poder, algo que mascarado pela realização de eleições, tem contornos de autoritarismo.

Os verdadeiros conceitos políticos de responsabilidade, serviço público e patriotismo não existem. O que existe é política partidária, máquinas partidárias e figuras do partido. Ninguém chegará ao poder sem o pantanoso apoio partidário, mesmo que o indivíduo disponha das melhores capacidades individuais.

PS e PSD tomam decisões políticas, em grande parte, para a obtenção de capital político, não para o desenvolvimento do país. É raro existir uma decisão política em Portugal que seja popular e ao mesmo sendo absolutamente necessária.

Ambos os partidos lutam incansavelmente pelo unipartidarismo, à semelhança de Estados autoritários. Os partidos dominantes de países como a China, Cuba, Vietname, Laos, Angola, Guiné-Bissau e Coreia do Norte afirmam que sendo os seus partidos aqueles que conseguiram assegurar a “liberdade” e “independência” da nação, são eles que devem manter o poder. Poderemos estar mais perto deste países do que pensamos.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Meo, o comando é meu (versão desportiva/religiosa)


Por acaso, tenho sorte. O meu irmão é, tal como eu, um amante do desporto-rei e, entre as inúmeras discussões com que alegramos o nosso lar, nenhuma delas se relaciona com o canal da televisão a ver quando está a dar um jogo do Mundial. Mas mesmo que essa discussão ocorresse, temos também a sorte de possuirmos duas televisões, pelo que a questão morreria aí, com salomónica resolução, cada um vê o que quer no seu televisor.
Mas nem todos têm a sorte de partilhar preferências televisivas, nem de ter duas televisões em casa, tão-pouco de viver numa sociedade com valores que, ainda que questionados, têm em geral uma fronteira rígida no que toca a brutalidade conjugal ou paternal.
Na África do Sul, pleno país-organizador do Campeonato do Mundo, nem todos terão sido, como foi o caso dos portugueses em 2004, infectados pela febre. Um pai foi espancado até à morte pela própria família, no decorrer de uma luta por um comando de televisão. O pobre queria ver o Alemanha-Austrália, enquanto o resto da família queria ver um programa religioso que, azar dos azares, tinha horário coincidente. A devota família não aceitou de bom grado a insistência paternal e uniu-se de pronto contra o sujeito, enfiando-lhe a cabeça na parede. Morreu, justificadamente, um impiedoso herege. Em que mundo vivemos em que um homem, diabo o leve, prefere ver a Mannschaft golear em vez de se querer deleitar com a sacra palavra do senhor? Bem fez a família, crente, justiceira, aplicou justiça pelas próprias mãos, contra o infiel tirano.
Há uma hierarquia de valores a respeitar. A religião, essa, domina o top. Supera o futebol e, aparentemente, a família. Ora, eu sempre pensei que, para os crentes, a religião não devesse estar acima de tudo, mas em tudo. Aparentemente, não acontece. Matar o patriarca que, raios o partam, prefere o Messi ao Padre Borga, é possível.
Ou isto, ou a hierarquia de valores é completamente anárquica, e a religião ainda consegue baralhar mais esta salgalhada ética. Estou mais virado para esta segunda opção.
Assim sendo, dada esta incompatibilidade de futebol e religião, cada vez me convenço mais que aquela conversa do Maradona da "mão de deus" é uma treta. O senhor não ia colocar a sua sagrada mão em tão compurscado desporto.
Seja como for, estou convencido que aprendi algo com isto. Futebol é a minha religião. Se o meu irmão, porventura, algum dia quiser ver algo que não a bola, à hora do jogo, tudo o que for abaixo do fraticídio será castigo demasiado leve. Com a minha religião também não se brinca.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Sobre fazer aquilo que é necessário

"A professional politician is a professionally dishonorable man. In order to get anywhere near high office he has to make so many compromises and submit to so many humiliations that he becomes indistinguishable from a streetwalker." - H.L. Mencken

Sabendo que Sócrates é um político hábil sempre cercado pela seu exército privado de assessores e tendo igualmente em conta o carácter resiliente e teimoso do nosso Chefe do Governo, é fácil prever que ele continuará em São Bento até ao final do mandato.

A outra ilação, igualmente fácil de prever, é que Pedro Passos Coelho, por mais que esconda, mal consegue esperar pela hora de formar governo. Portanto, talvez no próximo ano, poderemos acordar um dia de manhã com os jornais a salivarem pela moção de censura, que muito provavelmente, será aprovada com votos a favor da oposição em peso.

Eu espero, sem esperança e com desespero, que o indivíduo que assuma a liderança do país nas próximas eleições, tenha o discernimento e o pragmatismo suficiente para afirmar que: "Temos que ser realistas".

Depois do PREC, da democratização lenta e confusa, tivemos os governos de Cavaco, Guterres e Sócrates, aqueles que, pela sua maior duração, deixaram marcas profundas e quase indeléveis em Portugal.

Os governos de Cavaco e Guterres cometeram as duas principais infracções. Cavaco, com o seus projectos de desenvolvimento sem uma visão a longo prazo, aumentou bastante a dívida pública. De igual modo, no fim da ceia, aumentou os salários da função pública, que já aí demonstrava a sua ineficácia e dimensão monstruosa. Guterres aumentou incrivelmente o número de funcionários públicos, que até hoje, assumem uma fatia assustadora dos encargos nacionais.

Portanto é um questão de dívida. Como têm dito por aí, é uma questão de "viver com aquilo que não se tem". O próximo Primeiro-Ministro de Portugal deve ser realista, pragmático, sem medos e de preferência, com menos gabinetes de comunicação.

Os salários reais de Portugal devem ser diminuídos por uma razão simples. Os salários não reflectem a nossa competitividade. Os salários prejudicam a nossa competitividade. Com a entrada sem restrições de mercadorias chinesas na UE, Portugal perdeu bastante na exportação de produtos manufacturados e têxteis.

O país, tristemente infectado pela esquerda, parece ter a noção de que os benefícios surgem antes do trabalho. E eu sei que os críticos de costume, PCP e BE, dão o discurso da precariedade que é assustadoramente díspar da realidade. Os benefícios que todos queremos - reformas, pensões, saúde, qualidade de vida - só surgem num plano permanente, quando a estratégia económica do país assim o reflecte.

Eu também sei que, saídos de uma ditadura longa e algo violenta, o populacho se sentiu injustiçado e atraiçoado, mas isso, por si só, não constitui uma razão para desbravarem qualquer hipótese de desenvolvimento do país. Lá por estarmos geograficamente na Europa, isso não significa que atingiremos um estatuto automático de nação socialmente desenvolvida e economicamente estável.

Primeira vem a estabilidade da economia, depois o desenvolvimento social. Caso contrário, estaremos a hipotecar permanentemente o futuro das próximas gerações. Os problemas para sempre serão adiados. O futuro de Portugal estará sempre adiado.

Sejamos realistas. Vivemos num mundo onde o liberalismo económico impera. Por isso, vou repetir, primeiro vem a estabilidade da economia, depois o desenvolvimento social. Temos de viver como os pobres desgraçados que somos por algumas décadas. Para que depois, possamos florescer como os sortudos que realmente somos.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

'Tá tudo jodido!


O grupo H do Mundial, que hoje viu serem disputados os seus primeiros jogos, seria à partida um grupo previsível. A Espanha limpava e jogava com Portugal nos oitavos, o Chile passava em segundo, a Suíça incomodava e as Honduras perdiam os três jogos. Seria, à partida, um dos grupos menos valiosos nas casas de apostas.
Mas, como qualquer história dramática - e futebol, minhas meninas, é drama - o enredo sofreu uma reviravolta. Aliás, para ser mais correcto, nem se tratou de uma reviravolta. Foi somente um início incalculável.
Os nossos irmãos mostraram que a sua utilidade vai para além da aprovação do TGV. Com este resultado, ajudam-nos, e de que maneira, a evitá-los na próxima eliminatória, caso Portugal passe esta fase. Até vou mais longe: com o Chile a jogar o futebol como o tem vindo a fazer, a Espanha pode nem passar esta fase, pois ainda vai defrontar os sul-americanos na última jornada. Mas ainda mais decisiva que essa partida, é a que opõe Chile e Suíça na próxima ronda. É que, em caso de empate, a Espanha está completamente jodida, já que está praticamente obrigada a vencer o Chile. Ora, para quem não conhece o adversário do nosso siamês ibérico, e tem apenas como referências o resultado da magra vitória contra as Honduras e a nulidade que é Matías no Sporting, pode considerar que a missão da Espanha está longe de ser hérculea.
Acontece que esta equipa chilena encanta. Eu odeio ser um daqueles Nostradamus de futebol que acertam uma em cem previsões e fazem questão de realçar como são visionários quando essa previsão, por obra do acaso, se confirma. Mas eu tenho vindo a dizer, quando falo com conhecidos sobre o Mundial, que o Chile joga muito à bola. Apesar da minha ocupadíssima agenda, com tarefas tão diversas como comer ou medir o meu pé, ainda consegui arranjar tempo para assistir a alguns jogos do Chile no apuramento sul-americano e posso atestar a qualidade.
Uma das principais referências é o craque Valdivia que se desperdiça nos Emirados ou no Koweit ou na Arábia Saudita, não sei bem qual foi, mas esteve por lá na Guerra do Golfo. Ainda que indisciplinado, tem uns pés incríveis.
O maestro da equipa é o Matías Fernandez, o mesmo que é suplente no Sporting, e que na selecção se transfigura, faz lembrar um Deco mais jovem e mais ágil.
O Humberto Suazo é o ponta-de-lança, que está lesionado mas deverá recuperar para a Espanha. Rápido e goleador, foi o melhor jogador sul-americano de 2009.
Alexis Sanchez é, também, um muito bom avançado, e normalmente um epicentro do perigo chileno (lamento a utilização aqui de uma metáfora sísmica quando falo de um país tão afectada por esses terremotos). Ágil, tecnicista e com um bom remate. Joga na Udinese, onde já começa a mostrar de que é feito.
A isto acrescente-se um excelente médio, Medel, menos mediático, mas de grande qualidade. E ainda jogadores como Beausejour, Vidal, Mauricio Isla ou o supersónico Mark González.
No entanto, o que distingue esta equipa é que, para além da qualidade individual, tem um jogo colectivo extraordinário. Assemelha-se a um jogo de clube, e não de selecção, tal o entrosamento. Ao lado do Chile, o trabalho de equipa da equipa das quinas torna-se liliputiano.
Se Portugal apanha a Espanha nos oitavos, muita surpresa será que sequer dê luta. Mas, se por acaso apanhar o Chile, não pensem que não estamos igualmente jodidos.
A nossa única hipótese é apanharmos a neutra Suíça, que ganhou à Espanha, mas com uma sorte que só pode ser deus a premiar a tranquilidade de um país sem guerras. Lo que será, será.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Movimento Limpar Portugal

Há uma expressão da cultura judaico-americana que é referida como "Jew Guilt". Não sei aqui também existe, mas numa tradução livre é "culpa judaica". Quem gosta do Woody Allen sabe do que estou a falar. É essa culpa que me faz levar o lixo lá para fora quando a minha mãe diz "Pronto, se não queres levar o lixo lá fora, tudo bem, levo eu que apenas tenho uma grande dor-de-cabeça".

O Movimento Limpar Portugal conseguiu fazer-me sentir algo que eu nunca senti: culpa pela minha preguiça. Os sintomas da minha preguiça manifestam-se consistentemente todos os dias desde os meus 10 anos. É, de facto, um dos grandes males da Humanidade, mas poucos azarados sofrerão realmente desta maleita.

Eu gosto de dormir cerca de 14 horas por dia. Gosto de uma sesta no meio da tarde. Tarefas tão simples como lavar a loiça, levar o lixo lá fora, varrer o chão, comprar comida, carregar o telemóvel, ir às aulas, e habitualmente todas os actos que constituem a vida humana - levam a um meloso e rastejante ócio. Por vezes, não sei se cumpro os requisitos suficientes para ser considerado um ser vivo.

É um dos pecados capitais, já sei, mas a sua doce sedução, o modo como a minha cama se transforma num oásis quando acordo de manhã são irresistíveis. O atleta olímpico, Marco Forte, que depois da sua paupérrima prestação nos Jogos de Pequim, declarou numa sentença universal marcante: "De manhã está-se bem é na caminha". É assim tão simples e ao mesmo tempo tão envolvente. A preguiça é um ópio, é uma rendição à inevitabilidade do passar das horas, sempre tão moroso, nem sempre agradável, mas sempre fácil. E o fácil chega-me, pois não anseio pelo muito bom e complicado. Simplesmente sacio-me com o bom e simples.

Por essas e muitas outras razões, o Movimento Limpar Portugal afectou-me. Pessoas, mais do que isso, portugueses aceitaram limpar e recolher o lixo causado por outrem. Eu gozo com o Holocausto, Fome em África, massacre de índios, terremotos, enchentes, furacões, guerras, quedas, acidentes de avião e de carro - mas estes bravos cruzados debruçados sobre o lixo conseguiram me fazer sentir inadequado. Até o Cavaco apareceu para a fotografia.

Quero dar os parabéns ao Movimento Limpar Portugal. Conseguiram me fazer sentir culpado por ter passado o meu sábado de manhã na cama. Tanto que depois acordei e fui ler o Público enquanto tomava pequeno almoço às 3 da tarde. Sabem o que aparecia na televisão nesse preciso momento? Pessoas a limpar Portugal.