domingo, 25 de Setembro de 2011

O "Caso" da Madeira

O problema da crise da Madeira é que não é um problema. As práticas financeiras duvidosas do Governo Regional são denunciadas há mais de duas décadas pelo Tribunal de Contas. O Presidente da República também já sabia da situação. Se o Primeiro-Ministro não sabia, ou é ignorante ou simplesmente não quis saber.

Mas o problema da crise da Madeira é que não é um problema. Não é novidade. A contabilidade criativa e a gestão fiscal irresponsável são práticas recorrentes e generalizadas nas Juntas de Freguesia, nas Câmaras Municipais e nas empresas públicas. É a prática que os nossos cidadãos recorrem na hora de pagar impostos. É a prática das empresas privadas e do Estado quando criam parcerias mirabolantes que nos deixaram afundados num mar de betão e computadores inúteis para crianças estúpidas.

Alberto João Jardim deve ser recriminado no tribunal da opinião pública, tanto no continente, como nas regiões autónomas. E possivelmente deve ser acusado num processo criminal de desvio à gestão orçamental. Assim como todos os outros funcionários públicos que cometeram o mesmo crime. Primeiros-Ministros e Presidentes da República incluídos.

O problema é a nossa imprensa que transformou o caso da Madeira numa novela trágica. Um problema que deveria ser investigado todos os dias por todos os meios de comunicação transformou-se numa distracção. Num fait-diver clássico. Sem o drama e a intriga de uma polémica é impossível reter por muito tempo a atenção errática do povo português. Era necessário retratar Alberto João Jardim como um tirano déspota, alguém para odiar e transferir a frustração sobre a calamidade das finanças portuguesas. Porque isso vende jornais.

O problema da Madeira é que os seus habitantes são portugueses. O Governo Regional da Madeira é tão português quanto o Governo da República Portuguesa. Todos partilhamos o mesmo amor por subsídios e a mesma inaptidão para a matemática.

sexta-feira, 9 de Setembro de 2011

Pole Position


Ricardo Costa (jogador do Valência) - "É bom para mim que Ricardo Carvalho não volte"

Já não se luta para se ser o melhor. Torce-se para que os que são melhores que nós caiam.
Perdemos a classe de Carvalho, ganhamos a rendida mediocridade de Ricardo Costa.
Nem só desertores e mercenários merecem reprovação.

quinta-feira, 28 de Julho de 2011

Puritanismo vegetariano

Ouvem-se as sirenes. É a polícia dos bons costumes. Episódios como este são cada vez mais comuns. Alguns cidadãos preocupados da Associação Animal ficaram chocados com a imagem publicitária de um restaurante. Em causa estava uma fotografia onde os empregados do restaurante posaram com dois porcos estripados.

É por isso que dedico, com todo o carinho, esta descrição de uma matança tradicional do porco às almas sensíveis que constituem a Associação Animal.


O Inverno consegue ser brutal nas áreas rurais do Minho. Existem períodos secos onde a vegetação perde cor devido às geadas frequentes. Camadas finas de gelo cobrem vales inteiros e a terra endurece. É este o tempo ideal para a matança do porco.

Um grupo de sete homens inicia as preparações. Uma mesa forte e larga encontra-se no centro de um largo descampado adjacente aos aposentos do porco. A vítima desconhece o seu destino. Age normalmente, incauto, percorre o chão com o seu nariz e ronca, satisfeito. Passou cinco meses a ser alimentado em doses fartas.

Um dos homens entra na sua corte. Num movimento rápido, o homem segura o porco pelo pescoço. Numa operação eficaz, é prontamente auxiliado por quatro colegas. O porco está imobilizado. Em desespero, começam os seus guinchos estridentes, uma tortura para os mais sensíveis, um despertador para quem habite num raio de um quilómetro. A vítima já conhece o seu destino.

O porco é deitado de lado na mesa. As suas patas são atadas à mesa em dois nós. Um com as patas traseiras e outro com as patas dianteiras. Um dos homens segura a sua cauda. Perto da mesa, algumas mulheres acendem um fogueira.

Um dos homens pousa sobre a mesa uma mala com dezenas de facas. Ele escolhe cuidadosamente uma das facas e aproxima-se do porco. O carrasco espeta a faca no pescoço do animal. Sangue jorra como um géiser quando a faca é retirada. Depois de alguns minutos, os guinchos cessam.

Os presentes aplaudem. Algumas crianças brincam à volta do porco. O almoço, sabem todos, será fêveras.

sábado, 23 de Julho de 2011

Foiçada


Amy Winehouse, cantora com um sobrenome dotado de uma sagaz ironia, morreu hoje aos vinte e sete anos. Um final que, sendo surpreendentente pela idade da cantora, faz todo o sentido, conhecido o seu passado auto-destrutivo, que o talento tende terrivelmente a provocar, e cuja história nos diz ser permaturamente fatal para muitos artistas.
Tomislav Ivic, Salvador Caetano, Maria José Nogueira Pinto, Sandro Angélico Vieira, Diogo Vasconcelos e, agora, Amy Winehouse. O último mês tem sido profícuo em mortes mediáticas, como se algo cósmico tivesse utilizado o reconhecimento destes seres agora falecidos para nos lembrar que não estamos a salvo e que se há distinção entre os famosos e nós, reles mortais, a culpa é da espécie humana. A morte, essa, não discrimina.

segunda-feira, 18 de Julho de 2011

A irracionalidade do futebol


Para o cidadão americano comum o futebol é um jogo entediante. O fluxo de jogo do futebol moderno é lento, os jogadores têm uma predisposição irritante para cair depois do mais delicado dos contactos físicos e acima de tudo, a maioria dos jogos têm poucos golos. Mas a razão da irrelevância do futebol nos Estados Unidos é outra – a ausência de contexto histórico. Essa ausência de passado impossibilita a formação de raízes culturais que despoletem emoções cerradas pelo futebol.

E no resto do mundo, o futebol é apenas isso, um aglomerado de emoção. O desporto em si é apenas a representação simbólica do patriotismo das selecções nacionais, o bairrismo dos clubes e o drama humano dos jogadores - as ascensões meteóricas e os erros trágicos. A massa adepta envolve mais do que uma simples afinidade e, por vezes, acarreta uma sensação de familiaridade, até mesmo sendo utilizada para um julgamento de carácter.

O futebol falha na América porque eles vêm o jogo em si como um prelúdio para os golos. Não vêm a beleza em ver um passe rasteiro de cinquenta metros de Lucho González, avançando pela defesa adversária, fora do alcance dos centrais, e chegar com segurança nos pés do ponta-de-lança. Não apreciam a arte envolvida num desarme cirúrgico de Ricardo Carvalho.

Os americanos não exageram quando falam de futebol. Para um adepto de futebol tudo é uma hipérbole. A linguagem utilizada é bélica. As decisões são ultimatos. As emoções variam numa questão de segundos entre o êxtase e a agonia. Para passar da adoração ao ódio basta uma oportunidade falhada. Um golo no último minuto pode “salvar” a equipa. A vitória é gloriosa e a derrota é vergonhosa.

Dois dos principais desportos americanos exigem uma certa exuberância fisiológica. O basquetebol é um desporto praticado quase exclusivamente por atletas gigantes. O futebol americano é um desporto praticado quase exclusivamente por atletas hercúleos. Essa disparidade física desumaniza o desporto e transporta-o para um nível quase sobre-humano, afastado do mundo real. No entanto, na mesma partida de futebol é possível ver uma disputa de bola entre os dois metros de Peter Crouch e o metro de sessenta e nove de Lionel Messi.

O amor cego que une os adeptos e um clube não tem qualquer explicação lógica. Está longe do campo da razão. O futebol é uma paixão de milhões porque é onde o mais trágico dos destinos pode ser alterado. No mundo do futebol, um menino pobre pode encontrar uma vida melhor. No mundo real, nem sempre é assim. Sabemos que a vida é ingrata, mas o futebol lembra-nos sempre que o triunfo vem da esperança e, às vezes, tanto na vida como no futebol, os deuses da sorte cooperam.

segunda-feira, 11 de Julho de 2011

Será?


"Os tomates do Passos Coelho são deste tamanho!"

sábado, 9 de Julho de 2011

Moody's wanted, dead or alive

Nos últimos dias, a agência Moody’s tornou-se, num fenómeno flagrante e imediato, um inimigo proeminente dos portugueses, por ousar atentar contra as esperanças na nossa eventual recuperação económica e financeira. De resto, os movimentos populistas nas redes sociais multiplicam-se e propagam-se à velocidade inversamente proporcional do ritmo de trabalho do português médio.

Vítor Bento teve uma participação sóbria e sagaz na interpretação deste recente episódio: ver. Aliás, creio que os contornos nos quais a Moody’s consubstanciou o seu parecer não estão devidamente definidos na mente da maior parte da população em geral. Não foi Portugal que foi considerado lixo; foi, isso sim, a sua dívida pública. É meramente um indicador, que interessa a quem quiser e que segue quem assim bem o entender. É, nada mais, nada menos, esse o intuito destas agências, que por estes dias parece um exercício profano e repugnante. A razão pela qual esta instrução deverá ter causado tanta celeuma será precisamente pelo facto de a Moody’s granjear de algum prestígio neste contexto analítico, a par da Fitch Ratings e da Standard & Poor's, e de as suas informações prestadas tenderem a consumar-se mais vezes certas que erróneas.

Quem não concordar com a avaliação, mais que ficar na típica posição de “a minha filha é feia mas se alguém disser que não é bonita leva um murro nas trombas, que ela apesar de tudo é uma princesa!”, terá como válida alternativa pegar nas suas poupanças e investir na dívida pública portuguesa. Mas isso por certo ninguém fará.

Jornalismo Púbico

Enquanto somos crianças, o mundo não é questionado. Não somos capazes de visualizar as engrenagens da sociedade. A realidade é uma certeza e a nossa vida parece um sistema completo e perfeito. As nossas necessidades são amparadas com uma prontidão subserviente.

O jornalismo português ainda vive nesse mundo. Aqueles que se dignam a ler qualquer um dos cinco jornais diários ou alguém que olhe de soslaio para os telejornais pensa que Portugal está sob ataque. De acordo com o jornalismo português, o mundo está virado contra nós e a culpa de toda esta confusão, como é óbvio, não é nossa.

Foi a troika que impôs o seu memorando neoliberal. São as agências de rating nutrem um ódio pessoal por Camões e descartaram-nos como “lixo”. É a União Europeia que se recusa a construir uma resposta concertada e inequívoca para os mercados. Já se diz por aí que os Estados Unidos estão no meio de uma guerra cambial com o euro.

Para o nosso Primeiro-Ministro, o corte do rating foi um “murro no estômago”. Para o nosso Presidente, o corte do rating foi “injustificado” e um “exagero”. E os jornais prontificam-se a prestar o serviço público à nação e espalham por toda parte o perfume de injustiça que estes soundbytes emanam.

O corte do rating é, na verdade, um belo balde de água fria. É uma sirene da realidade. Na última década, o nosso crescimento económico foi tépido, quase nulo. Mesmo assim, os rendimentos e a despesa pública aumentaram. Tudo graças a um aumento vertiginoso da dívida.

No entanto, nas últimas semanas, apenas se falou dos cortes dos subsídios de Natal. Mas ninguém se preocupa com a situação que originou este e outros cortes. A despesa pública escapa dos holofotes da comunicação social, que deixa escapar o monstro e falha em mostrar o nosso país por aquilo que ele é: uma máquina de desperdício.

Não existe nenhum mistério. Os culpados somos nós. Fomos nós que pedimos emprestados mais de duzentos mil milhões de euros. Já as agências de rating, como dizia o filósofo Eduardo Catroga, são pentelhos.

sexta-feira, 8 de Julho de 2011

Privado

Cruel é a vida em que as fantasias são recorrentemente derrotadas por uma severa realidade. Sou estudante de jornalismo, como os restantes autores deste blog, e há muito já se foi a delirante esperança, que durante largos anos foi por mim alimentada, de que o mundo jornalístico era, acima de qualquer valor, uma máquina informativa. Sempre fui céptico em relação a uma isenção moral completa quando se trata de negócios, mas o escândalo que levou ao fecho do News of the World teve um condão de me provocar sentimentos antagónicos. Surpresa não foi um deles. Ainda assim, uma certa sensação agridoce que temos quando confirmamos que estávamos certos em relação a algo que não queríamos estar: o estado do mercado jornalístico está de tal forma crítico que já não se trata de ignorar regras por dinheiro; há, em todo o escândalo, uma certa perversão que o senso comum, mais do que códigos deontológicos, devia controlar.
Proponho, no entanto, que carreguemos o fardo de sermos optimistas numa altura necessária e em que dificilmente mais alguém o será. O desaparecimento de um tablóide não deixa de ser boa notícia. Sentimos, de repente, o ar ligeiramente mais puro. O optimismo que me propus carregar leva-me a esperar o seguinte: que uma consciência comum de limites entre as liberdades individuais e os negócios informativos seja forte o suficiente para, um a um, acabar com os ignóbeis órgãos de jornalismo cor-de-rosa e, desta forma, que as próximas gerações cresçam sem esta hierarquia de prioridades em que informações sobre a vida privada de famosos e familiares de vítimas de guerra assumem tal importância que as mais básicas condutas morais, não do jornalismo mas da vida em sociedade, são quebradas. Não me parece que seja exigir muito à espécie humana, não que percam o egoísmo, mas que não se aproveitem dele para exigir informações sobre os outros só porque não aceitamos que não somos perfeitos.

quinta-feira, 7 de Julho de 2011

Defendendo-nos como podemos


E eis que o espírito lusitano de resistência e revolta contra o opressor ressurgiu nesta bela tarde de 7 de Julho de 2011. Sugiro, com toda a franqueza que o(s) autor(es) desta façanha seja(m) condecorado(s) com o Grande-Colar da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, por actos excepcionais de abnegação e sacrifício pela Pátria e pela Humanidade.
Quem visitar o site da Moody's talvez ainda chegue a tempo de ver esta fabulosa obra de arte, símbolo da indignição nacional e da portugalidade em geral.
Chamarem-nos lixo? Não, não!

quarta-feira, 6 de Julho de 2011

terça-feira, 5 de Julho de 2011

sábado, 2 de Julho de 2011

Cheirar o medo

“Os cães cheiram o medo”. Os adágios populares são sempre velados por uma sabedoria transcendente. Quem me conhece minimamente bem estará seguramente a par da minha relação de profundo respeito com a raça canídea. Tenho, aliás, impreterivelmente de vos familiarizar com um episódio recorrente da minha infância: o cão dos meus vizinhos era incansável em saltar para cima de mim; calma, nada de pensamentos zoófilos. Quereria brincadeira, o malandro. Mas o meu antigo eu, de tenra idade, mal se segurando em pé – dono de um equilíbrio duvidoso e despojado de uma constituição física capaz de aguentar as cândidas investidas do animal - acabava a maior parte das ocasiões estendido no chão, entre lamúrias. E nada me demove em como acabou mesmo por ser esta repetitiva experiência, nada mais que desagradável, que esteve no fundamento da minha inimizade com o famigerado canis lúpus familiaris. Os cães foram, portanto, o meu primeiro inimigo; inimigo que nunca fiz questão de manter por perto: hum, afinal até o saber popular está fatalmente sujeito ao carácter falacioso das generalizações. Depois de escrever aquela frase fiquei a pensar em quem/qual teria sido o meu primeiro amigo, chegando rapidamente à conclusão do dito: carregar. Neste caso, amiga. Deve ser até mesmo a amizade mais fiel que mantenho até hoje; nunca nos chateámos, sequer. E creio não estar sozinho nesta matéria. Voltando à questão olfactiva, a verdade é que os cães nem precisavam de cheirar o meu medo – quando se dava por mim já estava eu do outro lado da rua. Há que ressalvar, no entanto, que esta luta foi paulatinamente ganha, sendo que agora já auguro inclusivamente passar, ufano e indómito, alavancado pelo meu arcaboiço de metro e setenta, por um espécime mais imponente.

Passos Coelho, pelos vistos, também cheirou o medo. Não o das outras pessoas, mas o próprio. A despeito de ser sobejamente aclamado pelos seus apoiantes por ter tido a “audácia” de ter apresentado propostas difíceis ainda em plena campanha eleitoral, ficou em incumprimento à coerência e à verdade no que ao 13º mês diz respeito. Já tinha sofrido, de resto, a primeira derrota na qualidade de Primeiro Ministro, com a indicação de Fernando Nobre como 2ª figura do Estado que a Assembleia, sensatamente, fez questão de reprovar. Ainda não consegui, também, discernir com exactidão se a decisão de voar em económica é pura demagogia/populismo ou uma achega de carácter, boa vontade e exemplo. A juntar a isso há o aborrecido e pouco carismático discurso de vitória nas legislativas, em claro contraste com a prestação muito conseguida – quanto poucos esperavam – no debate televisivo contra Sócrates e as boas indicações que consagrou no regresso das actividades parlamentares.

Provavelmente será do meu olfacto, que não será o mais apurado, mas ainda não consegui deslindar qual a fragrância que a acção política de Passos Coelho verdadeiramente emana. Por agora, assemelha-se a um aterro na dispensa de uma loja de perfumes – passe a impossibilidade. Eu, estando à porta, confesso que ainda não consegui inferir qual o cheiro prevalecente. Vou esperar por mais umas esclarecedoras snifadelas.

PS- Para que é que há uma segunda eleição, uma hora depois e com o mesmo candidato, para a Presidência da Assembleia da República? Esta pergunta é mesmo genuína. É que, no meu julgamento, provavelmente não conhecedor o suficiente neste âmbito, é só uma maneira de promover eventuais pressões internas.

quinta-feira, 30 de Junho de 2011

Billy Joel - Piano Man

Vou introduzir aqui algo que, não sendo inovador, pelo menos aqui neste local é diferente. A partir de agora, depois de cada texto meu, irei partilhar com os leitores uma qualquer música à minha escolha. Se assim quiserem, podem ouvir enquanto lêem os textos, prometo escolher sempre algo adequado a tal. Senão, simplesmente apreciem o que decidir partilhar convosco.

Erro de cálculo

Em Portugal há sempre diferentes formas de analisar as mais diversas situações. Sentido de unidade? Tal expressão não existe por entre o velho(ou novo?) vocábulo nacional. Finge-se, por exemplo, que tal existe quando se realizam determinadas greves para defender determinados direitos de determinados grupos. Na verdade, cada indivíduo quer dar a sua colherada. Não condeno, o oportunismo nunca esteve tão na moda, e ganha cada vez mais preponderância neste contexto em que vivemos. Quem quer triunfar tem que deixar de parte, por "breves" instantes, muitos dos valores que os papás ensinaram desde pequenino. O "Mau" é o novo "Bom".

Mas sem querer entrar demasiado em devaneios filosóficos do real passo directamente ao assunto que aqui me trouxe.
Ontem foi divulgado pelo INE o valor do défice do primeiro trimestre deste ano, revelando uns preocupantes 7.7%. A tentativa de reduzir o défice das contas públicas para 5.9% até ao final do ano prevê-se agora mais complicada. Falo de diferentes análises porque, nos primeiros meses do ano, a Direcção Geral do Orçamento tinha proclamado um bom andamento nas contas do Estado. Afinal, segundo os dados fornecidos pelo INE, as coisas não são muito bem assim. Para perceberem a diferença, a DGO sugeria um excedente nas contas, contra um défice de mais de 3 mil milhões de euros agora revelado pelo Instituto Nacional de Estatística.
Ao que parece, as duas entidades utilizam métodos de cálculo distintos. A DGO a "contabilidade pública", e o INE a "contabilidade nacional". Esta última já inclui, não só as contas de empresas públicas, como o registo de despesas feito no momento do compromisso com os fornecedores e não no do pagamento. Isto significa que aqui são contabilizadas as dívidas que o Estado tem vindo a acumular.

A DGO quereria, portanto, enganar alguém. Um engano inconsequente, pelos vistos. Ou talvez não, tendo em conta a disparidade dos valores apresentados. Mas por cá tudo é feito em virtude de algo maior que a própria vontade. De resto, o governo de Sócrates estava recheado de pequenas extrapolações da realidade como esta. Mas também não deposito demasiadas expectativas em relação a este novo executivo. Nunca o fiz anteriormente. A história recente mostra que teria saído tremendamente defraudado. Resta-me apenas esperar para ver...

quarta-feira, 29 de Junho de 2011

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Sentimo-nos rodeados de problemas como quem se sente borbadeado por aviões militares. Na verdade, com tantos problemas que temos de enfrentar, ninguém se pode preocupar muito com os acontecimentos na Líbia; com "preocupar muito" entenda-se ir para além da preocupação mundana, mediática, formada em silêncio na sociedade. Temos demasiados problemas para pensar mais profundamente na questão. Quando o egoísmo humano anda de mãos dadas com a muito lusa capacidade de extrapolar as consequências dos nossos problemas, o resultado é simples. O ego não o permite admitir, mas tudo aquilo em que pensamos provém do que ouvimos e vimos das outras pessoas, tudo é influenciado por aquilo que os outros à nossa volta dizem e fazem, e o processo de assimilação de tudo isto - filtrado pelo tal egoismo congénito - é que faz parecer que as conclusões que tiramos da vida, e da Líbia, são fruto do nosso brilhante intelecto.
Perdoem-me o aborrecimento que me querer esclarecer bem, mas quando eu enuncio todas estas propriedades da mente humana, aparentemente depreciativas, não pretendo afastar-me delas. Afectam-me a mim, como afecta a todos por igual. Este espírito partilhado por todos, que molda a verdadeira consciência comum, não é palpável; é, no entanto, perceptível. Difícil de definir, por certo, mas que todos podem sentir se forem um bocadinho mais além. Em silêncio, desafio o leitor a fechar os olhos e limpar estas ideias da cabeça. Não consegue, por acaso, ouvir esta aura comunitária, partilhada, silenciosa construtora do senso comum?
Eu consigo; pelo menos assim creio. Ou será o barulho de aviões militares a bombardear a Líbia?

terça-feira, 28 de Junho de 2011

A companhia aérea de todos nós

Nos últimos anos, multiplicam-se as notícias que profetizam o lento declínio da nossa transportadora aérea nacional, a TAP. Inserida num mercado onde tem pela frente a concorrência feroz e desigual das companhias low-cost, encostada à parede pela intransigência dos sindicatos que unem os seus trabalhadores, a TAP terá muitas dificuldades em escapar do mesmo destino que já espera a RTP – a privatização.

Infelizmente, a lista de problemas da transportadora é ainda mais longa. As operações da empresa são fortemente influenciadas pelo seu estatuto de empresa pública e, em Portugal, isso significa que qualquer processo de mudança ou reforma que seja necessária encontra uma oposição mesquinha de interesses ocultos. Enfim, o jeitinho português de fazer negócios.

Apesar disso, eu lembro-me de outros tempos, com uma outra TAP, que existia num país diferente, mais optimista, longe dos fantasmas da troika e da perspectiva aterradora da bancarrota. Eu lembro-me de pensar na TAP e ver mais do que uma companhia aérea. Eu lembro-me de pensar na TAP e ver além dos aviões, aeroportos, pilotos, comissários e hospedeiras de bordo.

Eu lembro-me de tempos mais simples em que a TAP apenas representava Portugal e os seus aviões eram pedaços de um país distante. As três cores da fuselagem – o branco imponente e as faixas orgulhosas de verde e vermelho - traziam algum conforto aos emigrantes e ajudava a anestesiar a sensação terrível de saudade infinita.

Eram tempos em que a comida servida nos aviões não provocava repulsa. As hospedeiras de bordo eram senhoras lindas e delicadas, verdadeiras rainhas e embaixadoras, mães e enfermeiras de todos os passageiros. Vestidas nos seus uniformes verdes impecáveis, com o cabelo arranjado num estilo antiquado e formoso, eram elas que nos consolavam da separação abrupta do lar perdido.

Voar pela TAP era uma experiência familiar, quase religiosa, e atrevo-me mesmo a dizer, agradável. Não existiam os medos irracionais associados aos aviões, cruzávamos os céus sem nunca tirar os pés do chão, da terra que nos criou, onde, um dia, ansiávamos voltar.

Agora, os tempos são outros. A realidade é outra. O país é outro. O tempo para romantismos e para nostalgias acabou. Acabou no dia em que começamos a pagar a dívida nacional com o dinheiro emprestado pelo FMI. Não nos podemos dar ao luxo de manter empresas públicas deficitárias como a TAP. Mesmo que ela seja muito mais do que apenas uma empresa.

segunda-feira, 27 de Junho de 2011

(As últimas publicações remetem para temas sociais, políticos, literários, religiosos e filosóficos. Não necessariamente por esta ordem. Confesso que sou complacente com um enfoque também direccionado para temas menos proeminentes e com uma diminuta implicação directa no dia-a-dia das pessoas, mas vejo-me na obrigação de trazer para escrutínio algo que estará, por certo, a remoer, nem que seja minimamente, um abrangente universo de 6 milhões de pessoas.)

Nuno Gomes, ao que tudo indica, estará mesmo a caminho do Braga. Durante o dia de ontem já foi inclusivamente dado como certo no clube arsenalista por alguns órgãos de comunicação. A capa de hoje do Correio da Manhã dá conta de um eventual egresso entre as duas partes, por questões salariais, o que me faz acreditar ainda mais que o acordo, se não estiver já consumado, estará preso por pequenos detalhes, sendo, então, uma questão de tempo a sua oficialização.

Já tinha sido com pesar que tinha presenciado a sua saída do Benfica. O avançado português foi uma das figuras maiores do clube no passado recente – provavelmente apenas equiparado com Rui Costa. Com Simão poderá até ser cotejado a nível desportivo, mas nunca a nível institucional. Desportivamente, a sua qualidade nem pode sequer, quanto a mim, ser contestada: apesar de o ser, até mesmo por adeptos encarnados. No entanto, a forma como sempre honrou a camisola e, também, a braçadeira do clube é simplesmente indiscutível e louvável. O altruísmo com que actuava, colocando a equipa num patamar de relevância superior ao seu rendimento individual, também não me parece deixar muitas dúvidas. Recordo ainda uma entrevista passada – já não me lembro quando nem porquê. Mas as minhas reminiscências destacam uma passagem em que a sua mulher (presumo) aconselhava, num tom reprovador, que deveria pensar mais nele próprio e menos na equipa, ao que simplesmente redargue que era aquela a sua forma de jogar. É pena que o Zé Povinho não queira saber disso para nada. Nuno Gomes nunca foi um goleador na verdadeira acepção da palavra, nem nunca o precisou para ser um grande jogador. A sua inteligência em campo destacavam-no dos demais.

A gestão inepta que Jesus fez da sua situação foi mais condenável que alguns desaires mais custosos, mas ainda assim naturais no mundo atípico do futebol. Vê-lo na condição de suplente dos suplentes, atrás de filisteus como Kardec e Weldon, foi uma hilariante afronta ao desporto-rei, uma perversa patacoada de todo o tamanho. Ainda assim, nem neste contexto impróprio o Nuno deixou de ser fiel aos seus valores e à sua verdade. Não criou ondas, não destabilizou, não reivindicou quando qualquer outro provavelmente o teria feito e, quando entrava, fazia-o como sempre na sua carreira: incansável, com vontade e com paixão. E com golos. A porta por onde saiu não foi, de todo, condizente com aquilo que deu ao clube nas 12 épocas que esteve ao seu serviço.

Que seja, agora, feliz nesta última etapa da sua digna carreira. Ele, apenas ele. Porque assim bem o merece.

domingo, 26 de Junho de 2011

A Reforma segundo Jesus Cristo

Acho que já é oficial: a religião terminou o seu trabalho. Bravo, digo eu. A faina foi árdua, os selvagens foram cristianizados e por toda parte existem belos monumentos que pela eternidade representarão uma herança cultural notável – a matriz judaico-cristã.

Com ela veio um código moral civilizado, um manual de bons costumes e a culpa católica que todos necessitamos quando estamos prestes a cometer pecados. Sabemos agora que não se deve matar, roubar e acima de tudo, não se deve cobiçar a mulher e os escravos do próximo.

Com isto, acho que é possível reafirmar: a religião terminou o seu trabalho. Lembremo-nos sempre das suas filosofias e dos seus escritos. Exaltemos a sua procura exaustiva de respostas para questões irresolúveis. Mas todo o resto pode e deve ser dispensado como vudu, magia e superstição.

O meu primeiro contacto com a realidade da inexistência da Deus aconteceu ainda em criança quando descobri que Deus tinha o hábito irritante de responder às perguntas com um silêncio vigoroso e irredutível. As orações passaram a ser meras palavras vazias e a missa transformou-se num ritual milenar arcaico e inútil.

Sempre achei particularmente assustador o momento da cerimónia em que os fiéis se ajoelham. Ainda mais assustador quando suplicam ao Cordeiro de Deus pela sua piedade e misericórdia. Nas suas mentes, só Ele poderá salvá-los do pecado e levá-los à vida eterna. Em troca, pede apenas uma coisa – submissão. Algo que devidamente analisado revela uma dimensão perturbadora.

A maioria das pessoas vive as suas vidas ignorando por completo vários dos mandamentos que dizem subscrever. Somos todos mentirosos, gulosos, orgulhosos e avarentos. Somos todos católicos de Domingo, seres ambiciosos e criaturas egoístas. Aquilo que nos move não é desejo de salvação eterna. O que nos move são os desejos pessoais e a busca incessante pelo prazer.

O que mais me impressiona é a estupidez necessária para pegar na espiritualidade e utilizá-la para justificar a negação das leis mais básicas da física. Não é preciso ser um génio para saber que não existem milagres e aparições. Não será São Judas que irá curar os tumores de um leproso. Não será Santa Rita de Cássia que irá fazer ver os cegos. Os milagres que existem são o resultado do engenho e da audácia dos Homens.

O Universo não é apenas indiferente aos nossos anseios. A indiferença implica um julgamento moral, um atestado de desinteresse precedido por uma análise. O Universo é um nada, um vazio desprovido de qualquer significado inerente do qual nós fazemos parte.

A vida, para não ser desperdiçada, não deve ser vivida como uma fase de preparação. A vida é uma dádiva demasiado preciosa para ser resumida a um curriculum vitae acumulado com a esperança de passar no derradeiro exame – a morte.

Com um bocado de honestidade e coragem, podemos admitir que ninguém tem todas as respostas. E muito provavelmente, nunca as teremos. A razão pela qual estamos aqui sempre será um enigma. Ainda bem.

Acho que, no fundo, todos sabemos isso. Acho que, nas situações mais importantes, em casos de vida ou morte, a razão e o senso comum prevalecem. Na luta em prol da causa maior do Homem - a felicidade - somos todos ateus.

sábado, 25 de Junho de 2011

É tudo uma questão de capital.

(Boa-tarde. Os Protagonistas – que, com toda a amabilidade sobejamente reconhecida nos seus precursores, agraciaram com viva vontade a minha inclusão neste espaço – pediram-me para fazer um texto introdutório à minha nuper-participação. Não há muito por onde pegar, até porque dispenso veemente exercícios frívolos de auto-promoção. Felizmente, sou uma pessoa absurdamente normal que espaçadamente irá mandar, então, as suas larachas no blog, no alto do (não-)conhecimento dos seus 19 anos – que, para o Leandro, são na verdade apenas 16. Para mais informações consultem a página homónima no Facebook, que foi para isso que a actualizei num longínquo dia qualquer.)

Já todos sabem o estado em que Portugal se encontra imiscuído. A ladainha não só é bem conhecida como o é experienciada. Muito menos será preciso falar da sociedade capitalista em que vivemos, secundarizando a condução política de um país do principal direito e fundamento de qualquer indivíduo: direito à vida; que, actualmente, é um conceito facilmente confundido com o da existência. E falo em secundarizar com total consciência, dado que as decisões capitais (ora, capital até quer dizer principal) são tomadas com fins meramente lucrativos, materiais e impessoais. Posto isto, é com algum sentimento de iniquidade que vejo que, na quase totalidade dos ensejos, quem aparece a escrutinar temas de manifesta índole social e de inexorável sensibilidade são executivos endinheirados, devidamente armados com os seus fatos e pastas. Quando isso acontece, a minha mente prega-me, inevitavelmente, sempre a mesma partida: surge-me de imediato um largo ser, tipicamente americano, acabado de sair vitorioso de um concurso de quem consegue comer mais cachorros quentes, com um choro tépido e ensaiado após ter sido inquirido acerca da quantidade incomensurável de fomenicas que pisam o solo africano.

Ainda assim, por mais dificuldades que passemos, por mais que a nossa conta mensal seja coarctada, nada é comparável a uma existência sem um lar próprio. Eu ainda tenho um. Posso até lhe pegar fogo, se assim o entender. A Sónia Brazão fê-lo. É certo que a minha mãe não acharia muita piada, mas é-me concedida essa possibilidade, que, arrisco dizer, a ninguém deveria ser negada. É, diga-se, particularmente impossível ficar indiferente a estes casos de desalojamento para quem, como eu, frequentemente vagueia pela zona da Boavista. A quantidade de pessoas que coexistem nestas condições é reveladora e assustador. Ou melhor, é assustadoramente reveladora. Por essa mesma razão, quando por lá passo de dia e sou interpelado no desejo de um cigarro, nunca o consigo recusar. Que espécie de ser humano seria se o fizesse? Um cigarro custa o quê, uns 20 cêntimos? (Não me apetece efectivar as contas e prefiro ter a oportunidade, por mais ínfima que seja, de acertar sem o fazer; seria notável) Exactidões à parte, é relativamente comportável para mim, de qualquer maneira. E, como diria oportunamente a minha avó, estou graças a Deus longe de imaginar qual será o verdadeiro valor de uma meia dúzia de passas de nicotina para aquela pessoa. Ainda assim, é quando a situação chega a um ponto em que, não tendo nenhum exemplar no maço para disponibilizar, me é requisitado o resto do que me encontrava a fumar, que se nota a ululação exasperante pelo travo de uma vida mundana. Investir desta forma na contribuição para uma aproximação, por mais efémera que seja, destes dois mundos tão contrastantes, é também, confesso, um acto egoísta. Pelo simples acto da cedência do resto do cigarro, lá vou eu, depois, a pavonear-me rua abaixo, congratulando-me pelo meu aparente altruísmo e quase ousando até exteriorizar uma cantiga sibilante qualquer.

Ontem, vi uma cara bem conhecida destas lides - precisamente a senhora que me pediu o resto do cigarro -, superiormente acompanhada. Encontrava-se numa conversa informal com três profissionais da comunicação, área que (ainda) almejo, devidamente identificados com o símbolo da SIC nas suas vestimentas e já com máquina de filmar em sentido para quando assim fosse requerido. Num abrupto e indefinível trecho de tempo, esquecido o contexto social, admito o meu pecado capital (lá está o bandido novamente): conservei-me, contemplativo, com um ingénuo e inconsciente sentimento de inveja. Quem diria que até uma pessoa na condição mais miserável e indigna de um ser-humano seria capaz de suscitá-la?